“Ocupamos nosso tempo e vivemos em um mundo imaginário, mas construído com utensílios ou fragmentos do mundo real.“
(Julio R. Ribeiro)
A infância em cidades do interior supõe energia na conexão entre as pessoas, e entre elas, o local onde moram e a natureza. Compartilham intensa troca de experiências, qualidades e defeitos dos vizinhos e colegas, aceitam de boa vontade a influência do espaço em sua volta, acompanham as estações do ano, reconhecem o dom dos animais, os cheiros das comidas saindo do fogão, as épocas das frutas. Os ambientes eram sua extensão, entendiam o funcionamento deles como as funções do próprio corpo. A vida era boa.
“Eu absorvi tantas coisas dos lugares. A vida e as pessoas não cessavam de oferecer música.“
(Thomas Mann)
No correr do tempo ficamos diferentes, mas continuamos iguais: nós e os pedaços de vida que ficaram lá. Se fossemos apenas diferentes, não conseguiríamos encontrar o caminho daquele lugar. Teríamos de seguir em direção às lojas de paredes de fórmica, cores berrantes, que substituíram o rosto da Casa Magalhães, Casa Niquinho, Loja do Seu Carlos Amantino, Seu Constante. Perderíamos a atração que provocavam. Somos iguais ao que sempre fomos, em direção à cidade que não existe mais.
Talvez pela força da influência recíproca entre a pessoa e a cidade, ambos sofreram a ação do tempo de maneira parecida. Sentimentos que tivemos de abandonar, pessoas queridas que perdemos, também a cidade murchou pouco a pouco, planta que definha quando não recebe a luz do sol.
Enfraqueceu a energia que mantinha o calçamento de pedras dispostas como enorme quebra-cabeças. Por isso não houve resistência quando cada uma foi arrancada para dar lugar aos blocos de concreto. As ruas ficaram lisas, bocas sem dentes, nem foram jogados no telhado para nascer outros.
O imponente prédio do Hospital, no alto da Praça do Rosário, piso de peroba rosa, corrimão com balaústres de jacarandá conduzindo ao andar de cima. Junto com ele se foi também a capela e o altar branco, Nossa Senhora das Mercês segurando a criança, a corrente simbolizando a luta contra a escravidão. Vitrais, o sol atravessando suas cores para encantar as crianças. Nossa Senhora não conseguiu proteger a sua casa nem a do lado – o Hospital – nosso primeiro amparo.
No início da Chapada, o Cruzeiro ainda resiste em condições deploráveis, ao lado da enorme reprodução do Cristo Redentor, que se instalou ali sem pedir licença. Humilde, constrangido, perdeu a competência dos milagres, incluindo os dos finais de ano quando, depois de subir a Fontinha, enfim relaxados, agradecíamos o auxílio indispensável nas provas da Dona Stael e Dr. Renê.

Sofreu o Mercado muitos golpes sem entender a razão. Jamais prejudicara alguém. Pelo contrário. Tábuas beges e azuis superpostas formavam suas paredes. Idêntico ao de Diamantina, acolhia gentilmente o pessoal que vinha da roça para vender os produtos trazidos no lombo do burro. Nas festas do denominado Clube do Cavaquinho, nome do “promoter”, frequentado pelos que não podiam pagar o Clube Cacique. Os clubes rivalizaram na animação e no idêntico desfecho, embora ainda permaneça de pé a carcaça do último, ossos sem carne, comida pelos urubus. Do Mercado sobrou apenas tristeza.
Seguiram-no o chafariz em frente e as três grandes árvores. Água saindo das bocas das figuras de bichos matava a sede no futebol à sombra das árvores que pareciam indestrutíveis. Varridos para a construção de praça copiada das milhares espalhadas no país. Somente a algazarra do time sem camisa comemorando gol no time de camisa ainda repercute na memória.
E o Coreto – apelidado carinhosamente de Coretinho – contornado com peça tão delicada que parecia renda, embora fosse de metal, sobreposto por fino corrimão de madeira. Primeiro foi substituído por rodoviária onde não havia plataforma para os ônibus, somente um bar. Depois, talvez para acalmar as consciências, ressuscitou em outro coreto de cimento, solução desastrosa como a anterior, que procurava remediar.
Enfileirados como na procissão do enterro, os Sobrados da Avenida dos Braga e em outras ruas, paredes brancas, janelas azuis, distintos, altivos, aguardaram circunspectos a chegada das máquinas que os carregaram, sem a noção de que ali moravam Os Cunha Pereira, os Braga, os Froes, os Victor, e outras famílias que construíram a cidade, lhe deram alma. Seguiu-os a casa dos Simões, entre a minha Vó e Alaíde da Batistina. Paredes cinzas, molduras brancas nas janelas, começava por um vestíbulo, canteiros de flores nas quinas, chão de nata de cimento vermelho, ideal para jogo de botões e alpendre de azulejos dispostos como caleidoscópio. Terminava no caramanchão, início do enorme quintal e seu pomar.
Não se sabe para onde foram levados. Talvez nunca mais sejam vistos.
As coisas, e o que carregavam, há muito se foram sem deixar herança. Se esvaziaram como espelho onde não se vê imagem. Permaneceram apenas ideias que fazemos delas. Ouvir os ruídos sem força para vencer o silêncio que ocupou os seus lugares. Sentir o cheiro que se esgarçou como fumaça na chaminé.
O futuro sempre chega, queiramos ou não. Há certa beleza na inevitabilidade das mudanças. Existem muitos outros amores. Alguns grandes. Mas só um é perfeito.
“o remédio é partir discretamente, sem palavras, sem lágrimas, sem gestos. De que servem lamentos e protestos, contra o destino?“
(Miguel Torga)
No limbo onde a cidade não está restam símbolos daquilo em que se transformou – representações daquilo que fora um dia. Em nosso socorro, mantemos fidelidade à paisagem antiga, às impressões que permanecem. Coisas fundamentais desapareceram, mas os significados continuam. É a cidade que desejávamos? Não é. Mas somos nós aqueles que gostaríamos de ter sido?
“Nada volta, mas graças a Deus algumas coisas recomeçam.“
(Felipe Arco)










Uma resposta
É , o futuro sempre chega! Nem sempre como o idealizamos. E o futuro chegou em Peçanha, enterrando um passado que nos deixou marcas e uma saudade imensa!