O queijo, o picolé e a consulta

Publicado em: 06/05/2025 às 15:58

Atualizado em: 20/05/2025 às 23:21

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Na manhã ensolarada de segunda-feira João aboletou-se no velho Jeep. Cheiro de queijo fresco impregnava o ar, embalado e pronto para ser entregue no armazém do  Antônio Camilo, um de seus clientes mais antigos. As ruas de Peçanha estavam tranquilas, como sempre. Som dos pássaros misturava-se ao murmúrio das poucas pessoas que passavam.

Após a entrega, João foi até o cartório do Simão do Zeca, precisava assinar uns documentos, coisa simples, mas importante. Com o tempo correndo, fez uma breve parada na loja do Sr. Carlos Amantino,  comprou uma butina nova e um par de roupas que havia reservado. Estava satisfeito com a compra e sentia-se renovado, pronto para enfrentar o dia.

A barba já começava a incomodar, então ele decidiu passar na barbearia do Zé Madeira. O ambiente cheirava a loção pós-barba e o som das tesouras era quase hipnótico. Ali, entre um corte e outro, ouviu as últimas histórias da cidade. O Zé sempre sabia de tudo, desde o novo casal que havia se formado até as melhorias que planejavam fazer na praça.

Quando João finalmente voltou ao Antônio Camilo para pegar o dinheiro dos queijos, decidiu que faria mais uma parada antes de voltar para casa. Foi até a selaria do Virgilinho, amigo de longa data, e comprou dois cabrestos novos para seus cavalos. Enquanto caminhava de volta para o Jeep, avistou a casa do Dr. José Rocha e lembrou-se de uma consulta que estava adiando há semanas.

Bateu à porta e foi logo atendido. O doutor, sempre meticuloso, lhe deu uma receita simples, algo para a dor nas costas que tanto o incomodava. No caminho de volta, não resistiu à tentação de parar no Bar do Ponto, do Chico Zeferino, e comprar um picolé de groselha. Gosto de infância, trazia de volta memórias de verões passados, quando corria pelas ruas sem preocupação alguma.

Depois de saborear o picolé, João passou na farmácia do Seu Zeca para comprar os remédios da receita que o Dr. José Rocha havia prescrito. Seu Zeca o atendeu com aquele jeito amistoso de sempre, comentando sobre a eficácia dos medicamentos e ainda recomendando algumas vitaminas para ajudar na indisposição.

Com a sacola da farmácia nas mãos, se dirigiu ao Banco da Lavoura para depositar o dinheiro dos queijos. Dirceu Garcia, sempre cortês, atendeu com um sorriso no rosto. “Como vai, João?”, perguntou ele. “Mais um dia de trabalho”, respondeu enquanto entregava o envelope.

Antes de partir, lembrou-se de seu relógio que há tempos não marcava mais as horas corretamente. Deixou-o na relojoaria do  Expedito, para conserto. Era o último compromisso do dia, ou pelo menos assim ele pensava.

Ainda com o queijo que havia reservado para o Monsenhor Amaral no carro, passou na casa do padre para entregar o presente. Monsenhor recebeu o queijo com gratidão, agradecendo com um sorriso. João se despediu, prometendo voltar na semana seguinte com mais.

De volta ao Jeep, suspirou satisfeito. O dia havia sido cheio, mas recompensador. Já se imaginava na rotina novamente, na próxima segunda-feira. Novos queijos, novas histórias e, quem sabe, mais um picolé de groselha para refrescar o espírito.

Wellington Braga

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