Sá Maria e Seu Januário eram casados há anos. Uns cinquenta. Já bem velhos, nunca vi um sem ver o outro. Trabalhavam uma vez por semana na casa da minha avó. Ele cortava lenha e cuidava da horta. Ela lavava as roupas.Não tiveram filhos. Se bastavam. Eu revezava entre os dois. Primeiro ficava com ela enquanto lavava as roupas. Ela abria a trouxa e tirava as peças, uma por uma. Mergulhava na água, ensaboava com sabão preto, de barra, um sabão de cheiro ruim, que, depois que D. Maria esfregava e batia as roupas numa pedra, colocava pra “cuarar” e depois enxaguava. O resultado ficava de dar gosto. Enquanto trabalhava, me contava histórias. A que eu mais gostava era da mula sem cabeça, que aparecia na casa dela toda Sexta-Feira da Paixão. Nunca faltava. Ela, então, amarrava alho numa corda e batia na cabeça da mula sem cabeça, que saía correndo, prá só voltar no ano seguinte. Eu tinha muita vontade de ver a tal da mula, mas ela nunca me levou.
Seu Januário não usava sapatos, nem sequer chinelos. Tinha pés enormes e calcanhares rachados, que às vezes sangravam. Eu tinha pena dos pés dele. Cuidava da horta da minha tia com um cuidado de quase amor. Revirava a terra já molhada e depois plantava couve, tomates e alface. E me contava a história do Zé da Pinga. Esse Zé tomou pinga numa Sexta-Feira da Paixão e ficou em pecado. Então,nas sextas-feiras santas, a mula sem cabeça vinha atormentar o Zé. Ele tinha que dar um copo de pinga prá ela se acalmar. Ficava pensando se a mula sem cabeça do alho era a mesma mula da pinga. Mas nunca descobri esse mistério.
Anos depois, já moça, encontrei Sá Maria na procissão do Calvário de Cristo. Estava triste e me contou que Seu Januário tinha morrido. Numa Sexta-Feira da Paixão.
O folclore brasileiro tem um papel de grande importância para a infância, porque desperta a imaginação, preserva a cultura além de ser um auxílio para que as crianças entendam o mundo por meio de histórias ricas em fantasia. Personagens como a Mula Sem Cabeça, aqui contada sob o olhar do casal Seu Januário e Sá Maria, mais do que lendas assustadoras, trazem de quem cresceu ouvindo essas lendas, como aconteceu comigo quando menina e seeternizou com o correr do tempo.
A Mula Sem Cabeça é uma figura misteriosa do folclore. Segundo a lenda, ela seria o espírito de uma mulher que foi amaldiçoada por se envolver com um padre. Como castigo, passou a vagar pelos campos, transformada em uma mula com fogo no lugar da cabeça. Uma imagem carregada de símbolos e medos, que ao mesmo tempo assusta e fascina.
Hoje, ao reler essas histórias no livro Lendas Brasileiras, de Maurício de Sousa,encontro uma ponte entre o passado e o presente, entre a minha infância e a da minha neta Ana Catarina. Através do livro, ela explora o faz de conta, dá asas à imaginação e aprende a lidar com emoções e com o medo de forma leve e até divertida. Assim como aconteceu comigo, desejo que essas memórias afetivas a acompanhem pela vida afora.









