Como a própria autora, Martha Batalha, diz ao apresentar o livro para o leitor, “Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós.” Isso com certeza já serve de aviso importante para se preparar para a leitura: afinal, vó é uma entidade sagrada.
A avó é a referência da família, a matriarca e, se o mundo segue os caminhos corretos, é a detentora do carinho, do colo, do cheiro de afeto. Mas, na mesma medida em que é sagrada, muitas vezes é também invisível. Ao passar de tantas gerações, era a avó que resolvia todo e qualquer problema em casa – seja com bronca ou com bolo -, mas muitas vezes era também a avó que abria mão da carreira, dos desejos, das vontades, para cuidar da família e do lar.
É esse o pano de fundo de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha: a mulher tão única, tão talentosa, tão capaz, que nunca foi. Não confunda isso com personagens frágeis, que as protagonistas, as irmãs Eurídice e Guida, de frágeis, não têm nada. Muito pelo contrário: “era uma espécie peculiar de João Bobo. De boba ela não tinha nada, mas podia bater que voltava. E voltava com mais força, e com mais sorrisos, e com mais crença em seu destino de vencedora.”
A forma de descrever uma das personagens, inclusive, ressalta outro grande valor do livro: em um contexto de tantas desigualdades do Rio de Janeiro entre os anos 20 e 50, o mais interessante é que as críticas da autora aparecem revestidas de uma arma poderosa, que as torna ainda mais potentes: o humor. Martha escancara os problemas não com um sermão, ou uma linguagem rebuscada e melodramática, mas com uma escrita afiada, precisa, provocante, que torna as situações ainda mais absurdas.O resultado não poderia ser outro: um livro envolvente e delicioso, que você não quer largar e ao mesmo tempo não quer que acabe. Uma escrita simples, e ainda assim tão bem trabalhada, com palavras quase que esculpidas no lugar. E uma história que, não bastasse ser poderosa por si só, ainda resgata essa lembrança tão particular de cada um – a lembrança da avó.
A história então sabiamente ganhou asas, ou melhor, ganhou as telas, e foi adaptada para o cinema em 2019. O filme contou com a participação de ninguém mais, ninguém menos, que Fernanda Montenegro dando vida a Eurídice e fez história ao se tornar o primeiro filme brasileiro a receber o prêmio do júri no festival de Cannes daquele ano. E não foi só o cinema mundial que reverenciou a história de Eurídice: o livro rapidamente foi comprado por dez editoras internacionais, de países como Alemanha, França, Itália, Noruega, Holanda e Portugal. O curioso, ou talvez inacreditável? Todas essas editoras compraram os direitos da obra antes que qualquer editora brasileira fechasse com a autora. Os editores brasileiros só apostaram no livro depois de ver o sucesso estrondoso nas feiras literárias internacionais.
Mas se essa é uma história tão cativante, a ponto de virar filme premiado que alcançou um marco histórico no cinema brasileiro e conquistou editores ao redor do mundo, por que esse livro não fincou os pés entre os mais vendidos da literatura nacional? Por que houve tanta dificuldade para que uma editora nacional sequer apostasse no potencial da obra? Por que hoje, em um momento em que nossa literatura tanto brilha, ninguém fala desse livro?
Seria ele mesmo vítima da sua própria história de invisibilidade?










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