Angelina Monteiro de Souza, mulher jovem, tem 39 anos e múltiplas responsabilidades. Formada no curso Normal Superior, especialização em supervisão e inspeção escolar, a proximidade com o ensino é constante. Iniciou carreira profissional em 2007, atuando em várias atividades, inclusive Supervisora Pedagógica. Em 2017 assumiu o cargo de Superintendente Regional de ensino na cidade de Guanhães, respondendo por 22 municípios e 74 escolas estaduais. Atualmente está à frente da Secretaria Municipal de Educação de Peçanha, cidade onde nasceu. Pelo segundo mandato consecutivo, sua gestão é pautada no diálogo, na escuta, no trabalho coletivo, desenvolvendo vários projetos pedagógicos voltados para valorização e aprendizagem significativa dos alunos.
Essa aprendizagem, hoje, está intimamente ligada ao avanço tecnológico e aos investimentos no uso de novas tecnologias e ferramentas adquiridas pela equipe docente a fim de “nos aproximar do mundo deles”, ou seja, entender o universo dos alunos. O objetivo é propiciar o engajamento deles, despertar maior interesse pelos estudos, criando oportunidades e acesso às inovações e melhorias nas unidades escolares.
Angelina destaca, entre os muitos desafios da Secretaria Municipal de Educação, o “relacionamento humano” como o principal. Neste cargo – “a gente lida diariamente com várias pessoas como pais, alunos, profissionais da educação, motoristas, e pessoas de outras áreas afins, e nem sempre a gente consegue atender a todos os anseios de forma satisfatória, o que muitas vezes traz dificuldade de relacionamento e dificuldades também no desempenho de atribuições de demais funcionários”.
O panorama geral do ensino no município é promissor, apontando a existência de 14 escolas municipais, sendo que 7 destas estão localizadas na zona rural e as outras 7 na zona urbana, onde trabalham 282 profissionais.
Somam 963 os alunos matriculados na rede. A prefeitura fornece material escolar, uniforme a todos eles, investindo na melhoria física e estrutural das escolas, com reformas e ampliação, e na construção do novo CMEI – Centro Municipal de Educação Infantil Aline Aparecida de Sousa, que além de ofertar novas vagas de creche e educação infantil para população, gera novas oportunidades de emprego.
Atualmente as parcerias firmadas com as demais secretarias têm gerado resultados promissores. Destaca-se o projeto de conscientização e preservação ambiental. -Recentemente fomos selecionados como um dos finalistas em concursos importantes com o projeto “Nascentes” desenvolvido por alunos da Escola Municipal Manoel Gomes da Silva. Também firmaram parcerias com as polícias militar e civil instituindo protocolos de segurança em todas as escolas.
A atuação como professora efetiva na rede municipal de educação por mais de 15 anos, percorrendo várias escolas municipais da zona rural do município de Peçanha, lhe permitiu vasto conhecimento do universo educacional. Por isso, consegue extrair vários melhoramentos através da Política Estadual de Educação do Campo em Minas Gerais. Esta política visa garantir uma educação de qualidade que atenda às especificidades do meio rural, promovendo a formação humana integral e a valorização dos saberes e as especificidades dos povos do campo. Um exemplo recente é a Lei 25.263/2025 que busca fortalecer as práticas pedagógicas, o reconhecimento das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) e o direito dos estudantes rurais às condições adequadas de infraestrutura e apoio, além de garantir cotas para egressos em universidades estaduais.
O município não possui política pública específica voltada à educação na área rural. Tem uma escola quilombola, entre outras, localizada na zona rural. Mas busca diariamente respeitar e incentivar a diversidade, valorizando a cultura local e dando voz e vez aos alunos e comunidades.
-Um dos exemplos que podemos destacar, elaborado e proposto pela SME, é a publicação do livro “Nossos Contos/Our Tales”, obra produzida pelos alunos da Escola Municipal Manoel Gomes da Silva, localizada na zona rural. Fruto do Projeto de leitura “Porque Ler Faz Bem”.
Os principais desafios das escolas rurais da região são os deslocamentos e a dificuldade de acompanhamento diário dos alunos. Na maioria delas o acesso é por estradas de terra, e mesmo que a prefeitura faça as devidas manutenções, no período das chuvas o rendimento fica aquém das escolas da zona urbana.
-”Atualmente melhorou muito, hoje temos transporte para os professores, antigamente não havia, cada um ia por conta própria. Sabemos que, no Brasil todo, muitas escolas do campo têm sido fechadas ou nucleadas. É uma grande preocupação. O número de alunos tem reduzido bastante devido ao êxodo rural, ao índice de natalidade e outros fatores. Tentamos adequar o atendimento de acordo com o número de alunos, fazendo investimentos diversos na infraestrutura escolar, além de busca ativa dos alunos evadidos ou não matriculados”.
Três questões importantes que perpassam a convivência no ambiente escolar são a diversidade, a deficiência e o bullying.
Diversidade é a base da pluralidade. Seria a variedade de características, identidades, origens e perspectivas presentes num grupo, comunidade ou sociedade. Abrange as diferenças e semelhanças que tornam cada indivíduo único, em relação à etnia, orientação sexual, cultura, gênero etc. Sendo a escola um espaço importante de convivência, a Secretaria não tem ainda ações muito claras para lidar com a questão, mas apenas um “acompanhamento feito pelas equipes pedagógicas que verifica se o professor tem contemplado essa valorização e respeito por parte dos alunos”.
Quanto à Deficiência, desenvolvem em todas escolas do município ação efetiva para garantir a todas às crianças, inclusive com deficiência, acesso de fato à aprendizagem, convivência e participação na comunidade escolar.
-“Hoje na nossa rede temos uma equipe multidisciplinar composta por psicólogo, assistente social e psicopedagoga que atua diretamente nas escolas com os demais profissionais, tendo como foco principal o atendimento a crianças com deficiência, vulnerabilidade social, dificuldades de aprendizagem e/ou fatores correlatos. Temos também contratação de profissionais como professor de apoio, monitores, de acordo com a necessidade dos alunos e laudos médicos. Vale ressaltar, nossas propostas pedagógicas para inserção e participação destes alunos. A preocupação não é simplesmente receber o aluno, mas incluir e inserir”.
O Bullying escolar é outra questão delicada. Definido como um conjunto de violências e agressões (físicas, verbais, psicológicas, sexuais ou virtuais) intencionais e repetidas, numa relação de desequilíbrio de poder, que ocorrem no ambiente escolar entre alunos, é primordial uma ação efetiva das escolas para seu combate. A rede municipal se ampara em “parcerias firmadas com a polícia civil e militar, psicólogos e outros parceiros afins com palestras, diálogos com os alunos e intervenção imediata da equipe multidisciplinar quando for o caso”.
No ano passado, o MEC Selo de Ouro 2024 – distinção às secretarias de Educação Estaduais e Municipais que mostram bom trabalho na garantia do direito à alfabetização de crianças na idade certa, concedeu a Peçanha o reconhecimento pelos seus resultados de excelência.
A Secretária Angelina enumera os fatores que mais contribuíram para essa escolha:
-“Podemos destacar vários pontos, mas acho que o principal é o trabalho em equipe, além do comprometimento, responsabilidade e desempenho daqueles que estão à frente da educação pública municipal, quando você tem um gestor (prefeito) que acredita na educação e confia no nosso trabalho, fica mais fácil alcançar as metas propostas”.
Destaca também que –“é preciso saber se posicionar diante dos problemas, promover o trabalho em equipe, porque precisamos que as pessoas acreditem no que estamos fazendo, pra isso precisamos engajar a todos em prol de um objetivo ou bem comum, afinal não fazemos nada sozinhos”.
Seu objetivo principal é“ofertar uma educação pública de qualidade, justa e igualitária a todos os alunos e comunidades escolares pertencentes à rede municipal de ensino”.
Após esta conversa com a Secretária Angelina, uma conclusão se mostrou inevitável: há necessidade dos órgãos governamentais trabalharem de forma sistêmica e entrosada, os recursos serem considerados investimentos e não custos, e maior atenção a esta área fundamental para o país o futuro enfim chegar. Mas nada importa mais do que o fator humano. Se mais pessoas tiverem o espírito da Angelina o sucesso é inevitável. Os nossos jovens merecem esta postura.









