Há filmes que nos causam certo incômodo pela abordagem temática, pela condução da câmera, pela perspicácia do roteiro ou pela beleza selvagem do ambiente. Ao tocar num assunto íntimo, delicado e violento como o incesto e a conivência do silêncio que naturaliza o abuso no seio da família “Manas” é capaz de provocar tudo isso.
Estamos talvez diante de uma nova retomada de produção do cinema brasileiro fora do eixo RJ-SP. A primeira se deu com o novo sistema de fomento (Lei do Audiovisual, década de 1990). Dois exemplos recentes: há 16 anos nascia a Filmes de Plástico, em Contagem (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte e, em Pernambuco, os filmes de Kleber Mendonça Filho premiados em vários festivais mundo afora.
Marianna Brennand, a cineasta brasiliense, fez de “Manas”, sua estreia na ficção, encantar plateias pelo mundo e ser agraciado com o prêmio de melhor direção da Jornada dos Autores no Festival de Veneza, em 2024. A diretora em entrevista à Folha de São Paulo (15/09/2025) diz que “ficção foi a única maneira possível de contar essa história com ética e respeito, sem estetizar a violência”.
E assim é. Nada é explícito. A natureza selvagem, as casas de palafitas, o trânsito do comércio e das pessoas pelo leito do rio, a violência levemente controlada pelo trabalho do aparato policial insuficiente, a educação precária aliada ao fanatismo religioso que replica coreografias de programas de auditório é o retrato de um país que não estamos habituados a enxergar.
Agora a sinopse do filme: Marcielle é uma jovem de 13 anos que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, no Pará, com o pai, a mãe e três irmãos. Instigada pelas falas maternas, ela cultua a imagem de Claudinha, sua irmã mais velha, que teria partido para bem longe após “arrumar um homem bom” nas balsas que passam pela região. Conforme amadurece, Marcielle vê ruírem muitas das suas idealizações e se percebe presa entre dois ambientes abusivos. Ciente de que o futuro não reserva muitas opções a ela, a garota decide confrontar a engrenagem violenta que rege a sua família e as mulheres da sua comunidade.
A acrescentar apenas, o trabalho primoroso do elenco formado por Jamilli Correa, Rômulo Braga, Fátima Macedo, Dira Paes. A destacar, Rômulo Braga, ator mineiro, nome que se firma por sua versatilidade e intensidade em performances dramáticas no cinema, teatro e televisão tais como: Carvão, O Rio do Desejo, DNA do Crime, Homem com H. Dira Paes, atriz de papéis memoráveis, dispensa comentários. Talento nato.
“Manas” é um filme importante. Joga luz sobre o assunto. Retrata muitas vezes a realidade de comunidades rurais e urbanas. Lugares que não tem lei, ou desconhecem lei que estabelece medidas de proteção à vítima a exemplo da Lei Maria da Penha (número 11.340/2006), que responsabiliza o agressor com penas severas. Os protagonistas de histórias assim, pai, tio, irmão, vizinho, estão em toda parte. Em lugares distantes, às vezes nem tão distantes assim.
Manas – Brasil 2024 Ficção cor 101 min, no Prime Video
Elenco: Jamilli Correa, Rômulo Braga, Fátima Macedo, Dira Paes
Direção: Marianna Brennand / Montagem: Isabela Monteiro de Castro
Roteiro: Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini, Carolina Benevides / Som: Valéria Ferro
Fotografia: Pierre de Kerchove / Direção de arte: Marcos Pedroso









