Barquinho de papel (*)

Publicado em: 31/10/2025 às 10:38

Atualizado em: 31/10/2025 às 13:02

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O passado não é lugar de permanência.
O passado é lugar de referência.
 (Escola de Frankfurt)

“Marcha soldado/Cabeça de papel/Se não marchar direito/Vai preso no quartel.”

Montávamos em nosso cavalo de cabo de vassoura, com uma corda amarrada na ponta. Querendo sofisticar, adicionava um rabo de piaçava. E um chapéu feito com os classificados do jornal.

O barquinho, ao contrário do chapéu, não podia ser feito de jornal, pois no contato com a água desmancharia antes de chegar ao primeiro porto. Usávamos  folhas do meio do caderno, retiradas cuidadosamente para não rasgar. Depois de pronto começava a viagem no lago formado pela enxurrada, empoçada com o barro que buscamos no quintal. Parecendo real, balançava  ao sabor do movimento da água enchendo a lagoa. As ruas eram excelentes para formar lagoas, pois afunilam no centro, onde as águas das chuvas corriam livremente. Talvez pela topografia, as lagoas do Cláudio sempre eram maiores que as do Fernando e as minhas. Não havia jeito… tínhamos de lidar com a decepção. Anos mais tarde iremos perceber que tudo aquilo era preparo para a vida. Aprender que nem sempre sua lagoa será a maior. E o mundo não acabava por isto.

Evidentemente, a mãe não poderia saber que folhas do caderno construíram o barquinho, porque caderno era para estudar e não ser desperdiçado como brinquedo. Ainda mais se fosse daqueles de 80 folhas, desenho dos escoteiros, vestindo uniforme cáqui, meias três quartos e um lenço no pescoço. Um deles seguia em frente com a Bandeira Nacional. No pé da capa a palavra “Avante”, escrita em vermelho. Na contracapa, letras dos Hinos Nacional, da Independência e da Bandeira. Lidas somente quando o assunto da aula era monótono demais. Decorar os hinos era menos enfadonho do que prestar atenção à aula.

Além do caderno Avante, havia as Cartilhas. Dona Olga Renan apresentou-nos a primeira – “Método ABC – Ensino Prático para Aprender a Ler”, com o desenho de uma família na capa: pai, mãe, irmão, irmã, todos com a cartilha na mão. Ficava pensando qual a razão do pai e a mãe também terem cartilhas, se já liam há muitos anos… Aos poucos as palavras tornavam-se mais familiares. E foi através delas que o Ivo viu a uva, a vovó também e o vovô viu o ovo.Mas, agora, devo interromper porque o Seu Manoel Lalanda está batendo a sineta indicando a hora do recreio. Estou na varanda, indo para o pátio encontrar os amigos e as amigas. Como alguns fazem até hoje, tantos anos depois.

(*) Esta crônica está no livro “Trilha Sonora das pequenas coisas grandes” à venda nas livrarias da Savassi ou pelo site www.editoraramalhete.com.br

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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Respostas de 4

  1. Dr Chico Msgo França, eu ja havia navegado neste barco contigo, anteriormente ,mas navegarem muitas vezes naux, porque estar contigo e um presente de Deus para nossa bente. Voce e um iluminado

    1. Obrigado, Humberto – Nosso irmão. Resolvemos publicar aqui no mês das crianças. Que você e eu, de alguma forma, ainda somos.
      Um abraço pra lá de apertado.

    2. Muito obrigado, Humberto Irmão
      Resolvemos publicar aqui pelo mês das crianças. Que de certa forma ainda somos, né?
      Abraço apertado.

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