Foi numa cafeteria que encontramos o compositor, violonista, guitarrista, produtor e arranjador Juarez Moreira, um dos grandes nomes da música brasileira, nascido no ano de 1954,em Guanhães bem pertinho de Peçanha.
Simpático e expansivo, Juarez nos recebeu com uma conversa franca e profundamente humana. Progressista, diz sentir um alívio ao perceber que o País começa a reencontrar caminhos mais esperançosos, depois de anos difíceis e divisivos que deixaram marcas em muitas famílias, inclusive na sua.
As raízes de Juarez são firmes. Do pai Rivadávia Moreira, do avô Guilherme Alves Moreira, dentista e de origem espanhola, herdou o respeito e a ética. Da mãe, aprendeu cedo o que é a perda — ela se foi quando ele tinha apenas cinco anos. E foi com a avó, Dona Otília Pereira da Silva “pessoa mais inteligente que já conheci”, figura central em sua trajetória, que lhe incentivou, até os 104 anos, seguir o dom que já pulsava dentro dele: a música.
Chegou a cursar Engenharia na UFMG, mas abandonou o curso no último período, faltando apenas uma disciplina para se formar. Fez isso de forma consciente, para “não correr o risco de um emprego clássico, com carteira assinada”. O apoio da avó foi essencial para que enfrentasse as dificuldades e os próprios conflitos, sempre com a convicção de que da música viria a construção de sua obra maior: uma vida com propósito.
Brasileiro, violonista, guitarrista e produtor, Juarez Moreira tem um trabalho marcado pela sutileza e pela força das cordas. Com composições próprias e arranjos, atua em diversas formações instrumentais: trios (baixo, bateria e violão/guitarra), quartetos (baixo, bateria, violão/guitarra e sopro/teclado), violão solo, duo com cantoras, quarteto de cordas e orquestra. Suas gravações e apresentações têm a marca da presença equilibrada entre guitarra elétrica e violão, com predominância deste último.
“A guitarra e o violão são duas entidades totalmente diferentes, são dois CPFs distintos. A única semelhança é que têm seis cordas. O violão é um instrumento de terra, ancestral, ibérico; a guitarra é um instrumento do asfalto, pós-revolução industrial. Eles geram atitudes comportamentais completamente diferentes.”
Conhecido como “Juarez” ou simplesmente “Juá” entre amigos e músicos, é uma das figuras centrais da música instrumental mineira e brasileira, considerado um dos pilares da chamada Escola Mineira de Violão, ao lado de Chiquito Braga e Toninho Horta.
Sempre se sentiu atraído pela bossa nova, pelo jazz e pelos clássicos, especialmente Johann Sebastian Bach, cuja influência é perceptível em suas composições e improvisações. Iniciou sua carreira profissional em 1978, ao lado do pianista e compositor Wagner Tiso, e desde então se consolidou como solista de prestígio. Trabalhou com nomes como Milton Nascimento, Maria Bethânia, Gal Costa, Lô Borges, Toninho Horta e Paulo Moura.
Nos anos 1980, integrou o grupo Vera Cruz, referência da música instrumental mineira, com Mauro Rodrigues, Esdras Ferreira, José Namen e Yuri Popoff. Ganhou, em 1989, o Prêmio Nacional Concorrência FIAT e, em 1991, foi convidado para o Free Jazz Festival, no Rio de Janeiro. Sua estreia internacional veio em 1998, nos Estados Unidos, com o álbum Good Morning, lançado no Brasil como Bom Dia.
Com 15 álbuns gravados, Juarez construiu uma discografia sólida. Entre os destaques estão:
– Nuvens Douradas (1995), interpretando músicas de Tom Jobim, com participação de Arthur Maia;
– Aquarelas (1996), com Nivaldo Ornelas e a Orquestra de Câmara Sesiminas, em homenagem a Ary Barroso;
– Cuerdas del Sur – gravado com Toninho Horta, Chiquito Braga, Luiz Salinas (Argentina) e Cristian Galvez (Chile);
– Cine Pathé – Letra & Música (2018), reunindo suas composições com letras interpretadas por grandes nomes da MPB;
– Andorinha – Juarez Moreira interpreta Tom Jobim (2024);
– Lavadeiras – com Peter Scharli e Hans Feigenwinter (2025) – lançado na Europa pelo selo Enja.
De 1978 a 2019, participou de 71 álbuns de diferentes artistas como instrumentista e arranjador, mantendo colaborações marcantes, como a feita com seu irmão Celso Moreira, registrada em DVD em 2014.
Seu talento também figura em várias compilações, como Violões do Horizonte (1999), Brazil 500 – Bossa, Samba and Beyond (2001), Violão Ibérico (2013) e Motéma Music Decade One (2014). Além disso, está imortalizado em vídeo no registro Juarez Moreira: Ao Vivo no Palácio das Artes (2011).
Em 2026 será lançado Dedicatória, fazendo jus ao nome, dedicado a pessoas e lugares que lhe são importantes.
“Eu vivo de tocar, de tocar e gravar. Dou masterclasses, mas minha atividade é tocar. Estudo todo dia, muito, e componho. Tenho sempre planos de novos trabalhos e turnês. Vejo esse trabalho como uma coisa de dedicação, todo dia.”
Em 1985, Toninho Horta gravou sua música Diamantina, abrindo as portas do exterior para Juarez. No ano seguinte, ele viveu nos Estados Unidos, trabalhando com Steve Sacks e Cláudio Roditi. Desde então, construiu uma trajetória que percorre os palcos do mundo — de Belo Horizonte ao Lincoln Center, em Nova York, passando por Finlândia, França, Itália e outros países.
Intenso, Juarez Moreira segue movido pela mesma força que aprendeu ainda menino, ao lado da avó: o poder transformador da música. Depois da conversa amena e agradável, ficamos pensando na frase, não por acaso de outro músico soberbo que seguiu o seu caminho peculiar, sem deixar as pressões lhe desviarem do seu objetivo.
“Um gênio é aquele que mais se parece consigo mesmo.” (Thelonius Monk)
Juarez fala como toca: em improviso elaborado. As frases se atropelam, uma ideia puxa outra antes que a anterior termine, e as palavras saem em blocos ritmados. É falante e inquieto, como se a cabeça girasse mais rápido do que o mundo, Há algo de exaustivo nessa inteligência que ora desarma, ora pede cuidado.
O estilo acompanha o compasso: roupas escolhidas com cuidado para compor a estética peculiar. Um jeito natural de quem vive da liberdade. Juarez tem a presença de quem não cabe em moldes: curioso, imprevisível. Único.











Respostas de 5
Incrível o texto! 👏 Um talento de Minas Gerais, daqui de pertinho -Guanhães. Que trajetória fantástica… que parcerias musicais sensacionais, viva a arte de Juarez Moreira!
O amigo Chico escreveu um texto brilhante mostrando a genialidade e competência do músico e amigo comum Juarez Moreira. A sua versatilidade é representada nos versos, nas cordas, nos arranjos e na sua prosa que como a música brilham em harmonia, profundidade e conteúdo. Parabéns🍷🍷
Juarez Moreira, a quem chamamos carinhosamente de Juá, é um fenônemo. Seu show nesta quarta-feira no Clube de Jazz ao lado dos craques Kiko Mitre e André Quiroz “Limão”em Belo Horizonte me fez lembrar o óbvio: temos aqui em Minas um dos maiores vilononistas e guitarristas do mundo, embora fora da nossa bolha pouca gente saiba disso. Ele é um dos músicos que mais me emociona pela fluidez e naturalidade com que toca. Ée como se o instrumento fosse uma extensão do corpo num amálgama perfeito, tamanha a integração que se opera ali. Os arranjos são um capítulo à parte, seja desconstruindo clássicos do jazz ou da música brasileira, as inversões, as citações, os comentários, os contrapontos, tudo é feito de uma forma tão elegante e eximia que dá a impressão que aqule grau de dificuldade é acessivivel para simples mortais. Mas não se prenda à complexidade, Juzrez faz uma música sublime, que pode satisfazeer tanto o ouvinte mais sofisticado e exigente como também aquele, digamos assim, menso equipado. Seeu “Baião Barroco”que o diga, um clássico que consegue condensar a simplicidade do baião e a complexidade do barroco numa canção atemporal que encanta qualquer ouvinte minimamente aberto e sensível à escuta. O mineiro de Guanhães – terra do meu tio-avô com quem já jogou bloa – se tivesse ficado nos EUA provavelmente seira reonhecido hoje como um dos grandes do jazz. Mas resolveu voltar e travar aqui a batalha nossa de cada dia. Vida longa ao grande Juá.
(Comentário de Makely Ka que recebemos e completa com mérito a nossa matéria, que tivemos a honra de publicar – Makely Oliveira Soares Gomes, mais conhecido como Makely Ka (Valença do Piauí, 26/6/ 1975), é poeta, cantor, violonista, produtor cultural e compositor brasileiro. Um dos principais compositores de sua geração, tem mais de oitenta canções gravadas intérpretes no Brasil e no exterior.)
Salve Juarez Moreira!
Salve Juarez Moreira!