No último dia 4, em mais uma das minhas inúmeras navegadas despretensiosas pelo Instagram, me deparei com uma reflexão linda que combinou bastante com o meu momento de vida atual e tem reverberado no meu pensamento desde então. Milly Lacombe, minha cronista preferida, postou um vídeo citando a escritora americana Rachel Corbett. Em tradução livre, recitou a fala da autora: “Solidão é apenas o espaço se expandindo em volta de você. Confie na incerteza. A tristeza é a vida te abraçando, pegando você pelas mãos e mudando você. Faça da solitude a sua casa”.
Assisti a esse vídeo precisamente em um dos momentos em que tenho me sentido mais sozinho na vida. E esse conceito de solidão caiu como uma luva para o que estou vivenciando. Pela primeira vez na vida estou morando longe da minha família, dos meus amigos e da minha cidade. Nunca o espaço se expandiu tanto em volta de mim. Espaços lindos do nosso país que eu nunca tinha conhecido e pude conhecer ao longo deste ano ao longo do litoral nordestino. Espaços terríveis, de realidades inimagináveis, que eu pude tangenciar em meio à minha recém-nascida carreira docente de 8 meses em uma escola integral em Caruaru. Tudo isso a quilômetros dos espaços e das pessoas que durante 30 anos da minha vida me trouxeram segurança e estabilidade. Coincidentemente, no texto que escrevi ao me despedir de Belo Horizonte em janeiro, disse que sempre tive medo do incerto, mas que as certezas trazidas pelas companhias dos meus entes queridos falam bem mais alto na minha vida. E concluí pedindo licença para colocá-las no modo silencioso, ciente do rumo imprevisível que minha trajetória tomaria a partir dali.
Pois bem, os efeitos dessa incerteza me atingiram com tudo nas últimas semanas. Uma sensação de abandono em meio à multidão, de invisibilidade. Para completar, nessas horas minha mente exerce o ingrato papel de me fazer revisitar memórias dolorosas, como gotas de álcool ressuscitando a ardência na pele de uma ferida nunca cicatrizada. Saudade do meu irmão, do meu avô, da minha avó, da minha infância e de tantas outras pessoas e momentos que não voltam mais. No meu cérebro, ironicamente, a solidão é uma tristeza que nunca aparece desacompanhada.
Mas essa relação antitética não é uma particularidade minha, claro. E é também sobre isso que tenho refletido nos últimos tempos. Muito se fala em “solitude” nos dias atuais, palavra que está mais na moda do que nunca. Virou praticamente um sinônimo de empoderamento, de estar bem consigo, de se valorizar, de curtir a própria companhia, etc. Porém nunca estivemos tão desacompanhados de nós mesmos. Passamos boa parte do nosso tempo tentando aplacar um sentimento de isolamento com uma presença patológica nas redes sociais, o que acaba por gerar muitas vezes um círculo vicioso. Entramos nesse território em que interagimos a todo momento, mas com interações completamente vazias de significado. Likes que não significam nada, elogios totalmente inócuos, conversas mais voláteis que acetona, etc. Estamos sempre acompanhados de não-companhias. Percebemos que aquilo não consegue suprir nossa demanda por afeto e contato humano, mas continuamos repetindo o mesmo erro dia pós dia, como se estivéssemos fadados a isso por uma espécie de determinismo sociológico.
Enquanto isso, perdemos a chance de nos fazer companhia de verdade como conseguíamos em outras épocas. De passar um tempo de qualidade com nós mesmos lendo um livro, apreciando uma refeição sem telas, assistindo a filmes instigantes em vez de vídeos fúteis em páginas de reels, visitando novos lugares sem a intenção de materializar a visita em likes no Instagram, etc. A vida digital nos impede de praticar a solitude ao nos impor uma solidão permanentemente acompanhada.
Como solucionar isso então? Bom, se eu soubesse responder a essa pergunta esse texto nem existiria. O que nos resta é seguir a recomendação de Corbett e confiar na incerteza. Principalmente quando sabemos que há um motivo digno por trás dela. Se os smartphones sequestraram a nossa rotina, é fundamental termos a consciência de que pelo menos a nossa essência permanece intacta. Para isso, é muito importante buscarmos uma vida coerente com aquilo que acreditamos e que somos. Um trabalho que faça sentido, um modo de se relacionar com o mundo que reflita os nossos ideais e convicções. Em um sistema neoliberal, que nos obriga a viver de forma extremamente pragmática, no entanto, é quase impossível manter essa coerência. E o mais cruel é que, para os que se esforçam de forma mais árdua para consegui-lo, o prêmio na maior parte dos casos é exatamente a solidão. O isolamento. É o que o sistema faz para nos desencorajar a problematizar esse script tosco a que somos submetidos nos dias atuais.
Nosso papel é resistir. É uma decisão dura, sofrida e ingrata. Mas ao mesmo tempo é dotada de uma força única porque torna as coisas verdadeiras. Quando agimos por convicção e não apenas por coerção social, nos sujeitamos a deixar marcas genuínas nos lugares por onde passamos. Talvez por isso esse caminho seja tão solitário, já que não há muito espaço para o genuíno em tempos de hegemonia do artificial. Paciência! Não precisamos ser hegemônicos, basta sermos humanos. Em meio à solidão dos algoritmos, uma consciência livre pode ser uma boa companhia.










Respostas de 2
Estamos com a preciosa companhia do Victor.
Que capacidade de traduzir com perfeição nossos próprios sentimentos, que parece conhecer melhor do que a gente.
Reflexão que ajuda a conhecer-nos, como se fosse espelho que reflete as imagens da alma.
Grande Victor Cordeiro
!!! Que textão! Que a gente resista, sempre!