Pessoas

Publicado em: 27/11/2025 às 16:10

Atualizado em: 27/11/2025 às 18:39

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Pinturas dos internos no Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, onde a Dra. Nise da Silveira (1905-1999), revolucionou o tratamento psiquiátrico.

Em muitos casos, a loucura não consiste na ausência da razão, e sim em querer levar a razão às últimas consequências. (Julio Ramón Ribeyro)

O instante é o mais solitário dos entes que fazem parte do mundo. Ele jamais usufrui da companhia de outro instante. Nasce quando o seu antecessor já se foi e vive  até outro ocupar o seu lugar. Nunca haverá dois ou mais instantes juntos, proseando na mesa de bar, ajudando-se mutuamente a esquecer das coisas ruins. Ele e todos os seus equivalentes no tempo estão sujeitos a mais profunda solidão.

Quando somos  alcançados pela nuvem que indica sofrimento mental ficamos tão isolados como os instantes. Pressentimos a sua chegada com a diminuição da energia que abastece a alma e mantém o princípio vital, a fluidez da vida psíquica.

“A depressão chega toda tarde como uma neblina venenosa obstruindo minha mente.” (William Styron)

É grande o impacto causado pelo sentimento de paralisia mental provocada pela depressão. As dificuldades para estruturar conduta no futuro nos prendem a modos repetitivos, na ilusão de  escapar das ameaças inerentes às situações que não controlamos mais. Emperra-se o movimento das mudanças, a busca de novas experiências e oportunidades, que significam ameaças. Deixamos de entender as pessoas, e elas também não nos compreendem mais. Tornamo-nos ilhas, rodeados de gente por todos os lados, mas como se fossem estrangeiros, falando outra língua. Exilados de nós, expulsos do próprio espaço interior, onde instala a desordem nos pensamentos, memórias, sentimentos, crenças e experiências. Agimos instintivamente, sem que as ações passem pela consciência e, portanto, não temos  noção do contexto.

Quando o conjunto das normas, obrigações e diretrizes que serviam de referência se desfaz, a mente cria outro padrão como mecanismo de defesa, que irá prevalecer durante os  momentos críticos. Oferece a neurose e paranoia como fuga de uma realidade ameaçadora. A angústia cria imagens em nossa cabeça. Clarice Lispector, respondendo à pergunta sobre a distinção entre paranóia e neurose:

Para o paranoico, 2+2=5. Para o neurótico, 2+2=4, mas não aguenta mais.”                                  

Assim como nas tempestades da natureza, as do sistema psíquico costumam passar e voltamos ao estado de normalidade, que imaginamos fazer parte. Mas é difícil delimitar o padrão de normalidade. Cada indivíduo é único e possui características próprias. E as soluções que a mente oferece  são as mesmas aos normais e aos  loucos, apenas em graus diferentes. A linha entre a normalidade e o transtorno psíquico é muito tênue. A diferença para os casos patológicos situa-se na intensidade dos efeitos, na frequência e impacto dessas manifestações no cotidiano. Algumas ações dos loucos acontecem conforme os padrões ”saudáveis”. Por outro lado,  a todo momento deparamos com maneiras  bizarras em pessoas que nunca frequentaram um hospício. Se estivessem dentro, certamente o mesmo comportamento seria descrito como coisa de doido.

Patrão convocou o empregado fora do horário de trabalho, em sua casa a léguas da fazenda, para pendurar a chave do paiol no prego na porta da cozinha, seu lugar durante 40 anos. Novo no emprego, ele não sabia deste dogma e deixou a chave em outro local. Cumpriu a vontade do patrão. Apeou do cavalo, pendurou no lugar disposto  e nunca mais voltou. O dono sistemático ficou sem o excelente vaqueiro.

Durante 35 anos saiu de Peçanha às 4:00 e andava até São Pedro do Suaçui. Dormia no quarto cedido por alguém de boa índole. No outro dia, o percurso inverso, em direção a sua casa, no mesmo horário. Nunca deixou de cumprir sua missão, sem que ninguém soubesse qual seria, talvez nem ele.

Vivia na barraca no final da rua e início da estrada, coberta por lona preta, na companhia de vários cachorros e gatos. Conseguira juntar uma enorme quantidade de latas, garrafas, jornais, bibelôs quebrados e objetos descartados. Era o seu patrimônio, motivo de orgulho, construído ao longo da vida, com muito trabalho.

Estudante de Medicina, um dia percebeu que muitos pombos possuíam os pés mutilados. A partir da descoberta, jamais deixou de conferir os pezinhos dos bichos. Possivelmente, se formasse em Veterinária também faria sucesso, especializada em Ornitologia, é claro.

Vestido de fazendeiro, que nunca foi, seguia para o sítio nos arredores da cidade. Deitava-se à sombra da gameleira e assim permanecia até 11:00, sem ao menos jogar milho para as galinhas. Então, suas irmãs chegavam com a marmita, almoçava e imediatamente voltavam para cidade. Com o sentimento do dever cumprido.

Os planos do seu casamento com o Presidente Fernando Collor estavam prontos há muito tempo, só esperando a chegada do noivo. Depois da lua de mel em Guarapari mudariam para Brasília, onde a vida tomaria o rumo certo.

Se resguardou da iminente guerra nuclear. O balcão frigorífico do seu bar foi desligado para se tornar dormitório porque a radiação não atravessaria as paredes de aço e chumbo. Durante o dia usava terno forrado de pilhas Ray-O-Vac e Eveready. A guerra não aconteceu. Mas, se acontecesse estaria são e salvo.

Chegou ao Pará no início da invasão do Iraque, quando terminou o sossego. A fazenda situava-se na rota dos aviões e, sem conhecer aquele país, imaginava que ele seria bombardeado. Não pagou para ver: acomodou a família no caminhão da mudança e voltou para o Brasil, onde já havia morado e não havia guerra.

Além de beber religiosamente, se gabava de ser poliglota e matemático. Dominava vários idiomas e a quem lhe pedisse para falar, respondia prontamente: inglês – scotch whisky, francês – champagne, espanhol – cuba libre, japonês – saquê, árabe – araki, russo – vodka, alemão – steinhaeger, italiano – brunello di montalcino. Como era do ramo, candidatou-se à vaga de gerente do Bar do Ponto, mas não foi aceito. Talvez injustamente.

O gerente do Banco da Lavoura sabia de cor todas as placas dos veículos da cidade. A do nosso Jeep era Peçanha MG – 1-17-48-54. Fizemos um teste quando as placas mudaram para  letras e números. Respondeu sem pestanejar: HEF-2940.

“Tão frágil é a razão e, no entanto, é tudo o que temos. Uma crença generalizada é mais propensa a ser tola do que sensata. O problema todo com o mundo é que tolos e fanáticos sempre têm muita certeza de si mesmos.” (Bertrand Russel)

As pessoas lembradas acima eram consideradas piradas, mas eram donas das suas vidas. Coerentes com seus destinos, ao invés de resistir, sem resultados. Controlavam suas vontades com autonomia para tomar as decisões, por mais esquisitas que fossem para os outros. Decidiam sobre os objetivos, seus planos e o rumo das suas vidas, as escolhas que julgavam mais adequadas. Desconsiderando o contexto, não se prendiam aos obstáculos. Para elas o presente era sempre presente, não se tornava passado. Será que estas pessoas não estariam protegendo a sua personalidade, evitando que se dissolvesse na vidinha cinzenta do lugar?  

Assim como os malucos, os grandes inventores e os poetas encontram soluções exatamente porque não temeram os problemas que poderiam impedi-las. Ultrapassam a realidade, levando a razão às últimas consequências. Quem utiliza melhor a sua parcela de razão? Os malucos, inventores e poetas ou os considerados  normais, seguidores de crenças rasas, militantes dos  grupos que substituem as ideias próprias pelas ideias exóticas dos gurus e influencers?

“Onde todos pensam do mesmo jeito, ninguém pensa muito.” (Autor Desconhecido)

Talvez porque não façam parte das massas e seu pensamento uniforme, os tipos considerados malucos não são compreendidos. Paulatinamente se tornam reclusos do seu jeito de ser. Vivem só, como os instantes. No caso deles, o instante dura para sempre.

Acordo de noite subitamente – XLIV

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu…
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez…
E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite
Com a sua pequenez…

(Alberto Caieiro – um dos heterônimos com quem Fernando Pessoa vivia).

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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