Quando o crochê entrou na minha vida, eu não sabia que ele havia ajudado famílias durante a Grande Fome que assolou a Irlanda no século XIX. Tampouco sabia que a rainha Vitória, pontualmente às 15 horas, se isolava para fazer crochê e aliviar a cabeça.
O crochê chegou até mim pelas portas do quarto de tecer da casa das minhas tias. Elas, professoras primárias, se reuniam após as aulas para trabalhos manuais que não só lhes “esfriavam” os pensamentos, como também garantiam uma renda extra. Porque, neste país, ensinar sempre precisou de um complemento para sobreviver.
Naquele quarto encantado, cercada por uma profusão de cores e texturas, aprendi meus primeiros pontos. Aprendi também que com a linha não se briga, assim como com a vida. Fiz sapatinhos e roupas para bonecas até chegar à adolescência e, depois, à vida adulta, quando as linhas e agulhas foram parar em um canto qualquer.
Nos anos 80, muitas mulheres — e eu entre elas — buscavam sua liberdade e sucesso profissional, deixando os trabalhos manuais para as avós, suas colchas e forrinhos de bandeja.
Até que, em 1987, minha filha Beatriz nasceu com uma rara e grave síndrome que virou a minha vida pelo avesso. Precisando tecer novos pensamentos e arrematar a tristeza, reencontrei o crochê.
Entre pontos e laçadas, aprendi com Beatriz a tecer novos caminhos e refiz o caminho de volta, me tornando crocheteira outra vez. Meus pontos não são perfeitos — às vezes são tortos, esburacados, fortes ou frágeis. Meus pontos sou eu.
Muitos anos depois, quando minha filha deu sinais de partida, senti que precisava mostrar ao mundo o que ela havia me ensinado. Intuitivamente, comecei a tecer flores de crochê e plantá-las em árvores.
Foi assim que nasceu o projeto Uma Flor Por Uma Dor, que há sete anos transforma flores de crochê em um símbolo de resistência ao capacitismo, ao racismo, aos preconceitos e à violência.
Se um dia você encontrar uma flor de crochê em uma árvore qualquer, saiba que ela lhe diz: resista!









