O que fazer quando a dor é demais? Tem hora que o sentimento pede um escape e, no caso do livro deste mês, o escape veio justamente na forma da escrita.
Rosa Montero perdeu seu marido, Pablo, para o câncer e, em seu luto, encontrou o diário da cientista Marie Curie – que o escreveu quando ela mesma enfrentava o luto pela perda do seu marido, Pierre Curie. Nessa triste semelhança Rosa encontrou um reflexo da sua própria dor, motivando-a a pesquisar sobre a vida de Marie.
E desse encontro nasceu A ridícula ideia de nunca mais te ver. Nesse livro, a identificação da autora com a tragédia semelhante que acometeu Marie Curie foi o ponto de partida. A partir dele, a obra costura reflexões e fatos, pintando um retrato de Curie com pinceladas que trazem as cores das próprias vivências de Rosa.
“A arte é uma ferida feita de luz, dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz, não apenas quem escreve, pinta ou compõe músicas, mas também aqueles que leem, veem quadros ou ouvem um concerto. Todos precisamos da beleza para que a vida nos seja suportável. Fernando Pessoa expressou isso muito bem: ‘A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta’. Não, não basta. Por isso estou escrevendo este livro. Por isso você o está lendo.”
Na construção desse paralelo entre sua própria dor e a de Maria Curie, Rosa compartilha fatos sobre a vida e a trajetória da cientista: que Madame Curie foi brilhante não é mistério para ninguém, mas muita gente ignora o quanto o seu feito foi gigante, considerado que ela foi laureada com o Nobel duas vezes, em duas categorias distintas – primeiro com o prêmio de física, junto de Pierre, e depois com o prêmio de química, sozinha. Isso em uma época em que esse tipo de reconhecimento era negado às mulheres, como o livro bem ilustra com os exemplos de Lise Meitner e Rosalind Franklin, que não foram premiadas apesar de contribuir substancialmente com pesquisas ganhadoras do Nobel.
No fim das contas, o luto acabou sendo o elo que uniu essas duas mulheres, mas a obra vai muito mais longe. Ambas, cientista e autora, conseguiram, cada uma com seu talento, se destacar em um mundo que, querendo ou não, ainda hoje insiste em reservar os melhores lugares para os homens. E assim o processo de cura se mistura com o questionamento, a crítica e o enfrentamento dessa realidade.
Essa leitura não promete um final feliz, mas traz consigo a oportunidade de conhecer mais a fundo a figura incrível que foi Marie Curie, em uma narrativa que se trata de um verdadeiro exercício de cura. Pouco a pouco, Rosa Montero compartilha suas dores com o leitor, de um jeito que nós passamos a compreender pelo menos um pouquinho do que foi o seu luto. E não seria esse o maior trunfo da literatura, ensinar a sentir a partir do viver de alguém?
“Para viver, temos de nos narrar; somos um produto da nossa imaginação. Nossa memória é, na verdade, um invento, uma história que reescrevemos a cada dia (o que lembro hoje da minha infância não é o que eu lembrava há vinte anos); o que significa que nossa identidade também é fictícia, já que se baseia na memória. Sem essa imaginação que completa e reconstrói nosso passado e que outorga ao caos da vida uma aparência de sentido, a existência seria enlouquecedora e insuportável, puro ruído e fúria. Por isso, quando alguém morre, como bem diz a dra. Hearth, é preciso escrever o final. O final da vida de quem morre, mas também o final da vida em comum. Contar o que fomos um para o outro, dizer-nos todas as palavras belas e necessárias, construir pontes sobre as fissuras, livrar a paisagem das ervas daninhas. E é preciso esculpir esse relato redondo na pedra sepulcral da nossa memória.”









