Marcelo Lopes de Souza é um geógrafo brasileiro, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reconhecido por sua atuação nas áreas de geografia política, geografia urbana, teoria dos movimentos sociais e planejamento participativo. No livro A prisão e a ágora: reflexões em torno da democratização do planejamento e da gestão das cidades (2006), Souza propõe que um movimento social eficaz e coerente precisa atuar de forma simultânea e dialética em três frentes: “contra o Estado, junto com o Estado e apesar do Estado”.
A primeira vez que ouvi essa conceituação foi quando minha companheira, Ana Laura – uma urbanista de mão cheia, estava escrevendo sua dissertação de Mestrado e fiquei encantado com tamanha sensibilidade de perceber e traduzir o simples, ou o que pelo menos deveria ser simples.
Minha vida profissional é uma salada de frutas no campo do impacto e do desenvolvimento social, já estive em projetos e organizações sem fins lucrativos, na iniciativa privada, em projetos acadêmicos, em trabalhos articulados com políticas públicas, nas mais diferentes pautas: educação, planejamento territorial e urbano, cultura, desenvolvimento social, empregabilidade… Ao longo desses anos atuando nestes campos ficou evidente para mim nossa maior lacuna: entender essa tríade dialética proposta por Marcelo Lopes de Souza. Aqui, passo a estender a visão e trazer minha interpretação sobre seu trabalho que, como dito anteriormente, se concentra nos movimentos sociais e na sua relação com o Estado.
Se pararmos para pensar, essa lógica da tríade proposta por Marcelo Lopes de Souza deveria ser o norte para começarmos a construir soluções coletivas que façam sentido. Mais do que um conceito restrito ao universo dos movimentos sociais, trata-se de um horizonte ético e prático que pode nos orientar em diferentes campos da vida social e econômica.
Quando pensamos na iniciativa privada, por exemplo, a tríade se revela igualmente útil. Há momentos em que é necessário tensionar e agir contra a empresa, contra o mercado, denunciando práticas predatórias, desumanizantes ou contrárias ao interesse coletivo. Em outros, é preciso reconhecer a possibilidade de caminhar junto com a empresa, estabelecendo parcerias que potencializam políticas públicas, que ampliem o alcance de ações sociais ou que abram espaço para inovações sustentáveis. E há, ainda, o agir apesar da empresa, criando alternativas comunitárias, cooperativas, autônomas, que demonstrem que o mercado definitivamente não é o único caminho para responder às necessidades coletivas.
Essa flexão das tensões – entre o público e o privado, entre o institucional e o comunitário – é talvez o grande desafio da nossa época. O caminho para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária não será linear nem simples; ele passará pela capacidade de compreender quando se aproveitar ou não das institucionalidades, quando é hora de se insurgir contra, quando é hora de construir alianças estratégicas e quando é hora de seguir apesar, criando as brechas e alternativas que mantêm viva a esperança de transformação.
No campo do impacto social, isso significa que soluções coletivas só existirão se soubermos nos organizar nas lacunas – justamente nos espaços que o Estado e o mercado deixam abertos, seja por incapacidade, por falta de interesse ou por escolha política. É ali que nascem movimentos autênticos, práticas solidárias e tecnologias sociais que podem ser absorvidas ou replicadas. Mas é também fundamental reconhecer os espaços de convergência: aqueles em que caminhar junto é não apenas possível, mas estratégico, como nos exemplos de políticas públicas construídas a várias mãos, fundos sociais de empresas que se abrem ao diálogo real com comunidades, ou experiências de autogestão reconhecidas e fortalecidas pelo poder público.
O mais difícil, talvez, seja assumir a contradição como método. Não se trata de escolher um lado fixo nessa tríade, mas de manter a sensibilidade política e a coragem coletiva para transitar entre os lados conforme a conjuntura exigir. O risco, quando abandonamos essa postura dialética, é cairmos na ingenuidade de achar que só a institucionalidade resolverá os problemas, ou na armadilha de acreditar que apenas a negação absoluta do Estado e do mercado nos levará a algum lugar.
Um dos desafios que dificulta essa investigação dialética é o evidente desconhecimento da agenda política e, sobretudo, a doença contemporânea de acreditar que nossas posições precisam ser imutáveis, como se fôssemos obrigados a nos alistar em cartilhas ideológicas fixas.
Nesse ponto, Paulo Freire nos dá pistas fundamentais: o aprendizado acontece no conflito, não na convergência. Não aprendemos apenas com aquilo que confirma nossas crenças, mas sobretudo com os encontros incômodos, com as experiências que tensionam nossas certezas e nos obrigam a reposicionar nossas práticas. Mesmo quando o aprendizado vem em formatos que não idealizamos, ele ainda é aprendizado — e ignorá-lo é desperdiçar potência transformadora.
Assumir a contradição como método não é apenas uma escolha teórica, mas um ato de urgência. Precisamos de coalizões reais que nos levem para frente, e isso exige coragem de lidar com ambiguidades. Não podemos nos dar ao luxo de esperar por consensos perfeitos: nossa conta com o planeta está prestes a fechar e precisamos agir para ontem.
Em última instância, a tríade de Marcelo Lopes de Souza é um convite à maturidade política: saber quando tensionar, quando compor e quando criar alternativas. É o reconhecimento de que a luta por uma sociedade mais justa e sustentável não será linear, mas feita de idas e vindas, de parcerias improváveis, de confrontos necessários e de reinvenções permanentes.
Trata-se, enfim, de um chamado à coragem coletiva: coragem de não se acomodar, de não se prender a cartilhas, de aprender no conflito e de se lançar à contradição como método. Porque só assim poderemos dar passos firmes em direção às coalizões capazes de enfrentar a urgência do nosso tempo — a urgência de garantir futuro para a vida no planeta.










Respostas de 2
As reflexões do André inspiram uma forma de ação social que pode usar, dentre outras contribuições, algumas propostas defendidas por Gilles Deleuze.
Ele celebrava a utilidade da diferença como motor de criação, oposta a qualquer tipo de pensamento rígido ou dogmático.
A meu ver, André pensa em soluções flexíveis, adaptadas a cada situação específica.
Excelente análise que engrandece o Echo.