As Casas

Publicado em: 30/08/2025 às 14:35

Atualizado em: 30/08/2025 às 17:41

Compartilhe

A casa e seus moradores

Para Humberto Marinho

Outra noite, outro sono, como se eu sonhasse o sonho de outro dono.
(Chico Buarque – Outra Noite)

A casa antes da subida que vai até ao Cruzeiro continua lá. E na extensa área do território do sonho, com as ideias, imagens e pensamentos reconstruídos dos escombros da realidade que desabou há muito. Permanece no formato original, inclusive as duas colunas do alpendre, depois da cancela de tinta amarela descorada. Nem mesmo as noites intranquilas lhe fizeram estragos. Nas altas horas ela se mantém como a última fortaleza que ainda nos oferece abrigo e protege do esquecimento. 

O clima de véspera da festa predomina durante as noites, quando todos chegam no tempo que não existe, à espera das coisas pequenas que emocionarão logo mais. Não importa se terminarem como orvalho da manhã porque, antes, a noite transbordará pelas ruas pavimentadas de recordações, até que o sol, atravessando a vidraça, interrompa o sono. 

No ambiente onde a realidade não alcança, a chave pendurada no batente da porta desapareceu e teremos de esperar alguém para abri-la. Mais um capítulo perdido do Sheik de Agadir. A tela da TV mostra o formigueiro, nada de imagens, apesar do Bom Bril na antena sobre o telhado. O canivete corneta emprestado a contragosto pelo avô caiu na boca de lobo e não foi encontrado. A tecla “a” da Olivetti soltou, Seu Agenor dará jeito, como sempre. Ninguém se lembrou de comprar as lâminas Gillette, chamadas dupla face, pois cortavam dos dois lados. Nosso pai não vai gostar. A tia recusa a canjica de amendoim temperada com canela e cravo, está cumprindo a promessa para o curar o cobreiro no marido. Também conta com ajuda da simpatia ensinada pela amiga. Pintou quatro cruzes azuis em volta da cama do doente, três dias seguidos. Até agora não funcionaram, mas dizem que importante é ter fé. A pouca chuva atrasará o milho pendoar e talvez não teremos curau no começo das férias.                                              

Magia se envolver nos acontecimentos que voltam como milagre, noite após noite. Compartilhados pelos outros participantes do sonho, também seus donos, tratados sem distinção, mesmo aqueles que seguiram por caminhos que bifurcaram muitas vezes. O requisito seria retomar as aptidões do menino e da menina que ainda persistem em nós. Os sentimentos de quando éramos crianças, antes de crescermos e ser encolhidos, de forma contrária ao tamanho físico, para caber dentro do modelo formatado pelos adultos. Quando todos os caminhos ainda estavam à frente, podíamos seguir as ilusões, se orientar pelas referências oriundas das expectativas quase infinitas. Éramos parte da natureza, parte daquele mundo. 

Através dos sonhos é possível reviver momentos inesquecíveis, como se assistíssemos a um filme em que também fôssemos atores. Familiarizados aos bichos, ajudando-os nas suas atividades. Acompanhando as formigas em fila com as folhas da roseira. Levando o balde para aguar a horta. Jogando galhos no rio e correndo na margem para acompanhá-los até sumir na curva, de onde não poderíamos continuar. Disputando campeonato de cuspe à distância. Enrolando o pente no papel celofane para tocar música. Colocando jornal no sapato para tapar o furo no solado. Posicionando arapuca na rota dos canarinhos. Mantendo o rosto inclinado enquanto procurávamos o Fracasso debaixo do assoalho. Este era o nome do gato das nossas irmãs pois tinha medo dos ratos. Examinando as gotas nas teias de aranha. Subindo na árvore para mexer com os filhotes do joão de barro. Pulando o muro para apanhar goiabas. Catando pedras redondas que soltaram do calçamento e foram parar na cerca do curral que prendia o gado de xuxu.  Atividades que julgávamos corriqueiras e hoje percebemos que não eram.                                                                                        

Regressamos às coisas que pareciam sem importância. Junto às pessoas que estão em nós, como se nossos rostos refletissem os seus. Que significado poderíamos extrair das conversas? Por que nos reunimos às noites? Esperança de acontecer algo importante? Nada aconteceria que já não fora relatado. Faríamos tudo como sempre. Alguém traz a notícia de um casamento, outro fala sobre viagem, comenta como o frio deste ano está mais forte. Ou o que falta para o time ganhar o campeonato. Reportagem do jornal mostra fotos do desastre de trem na Índia. No frio, nos acomodamos em volta da mesa da copa, provando lentamente as quitandas e o café com leite. No calor, alojamos nas cadeiras de vime na varanda, leve brisa vinda da Mata do Froes. Se não há pautas estabelecidas, se passou a época das lições indispensáveis, então, o que procuramos nos encontros?  Qual o sentido deles?

“O sentido da vida é a própria vida. Isso pode parecer uma total trivialidade – mas para a maioria das pessoas, é um escândalo. Pouquíssimas pessoas conseguem viver pensando que o sentido da vida está na vida e, vou dizer mais, é a própria vida”. 
(Contardo Calligaris) 

O sentido da vida não há. A vida é isso. Apenas segue… Ainda segue, nos encontros pela casa, com os seus moradores.

Nossos lábios recitavam
como se, numa língua desconhecida, 
sem querer, falassem
da Brevidade 
e da
Eternidade da vida.
(Mário Quintana sobre Cecília Meireles.)

Autor: Francisco França

A casa

A casa mudou de dono. Na verdade, a nova dona é uma Dona muito querida e a casa vai recebê-la com um abraço apertado.

Na última ronda por lá, meu olho grudou no azulejo do banheiro do quarto dos meus pais.

E não é que azulejos contam histórias?

Contam, sim — e ainda mostram as imagens em ótima resolução!

Então eu vi mamãe fazendo a cama com uma perfeição que nenhum hotel, em tempo algum, seria capaz de fazer. Suas mãos finas, com esmalte vermelho, alisavam a colcha azul como se alisa a cabeça de neto.

Então eu vi papai escutando rádio até a pilha acabar. Silêncio.

Então eu vi os banquinhos do alpendre com cheiro de amor adolescente.

Então eu vi Dona Tati na janela, chamando os meninos pra dentro.

Então eu vi a Ica apreciando Terezinha Cardoso e Dona Carmelita fazendo crochê.

 Então eu vi — e chorei — o Deca dando banho de mangueira nas meninas.

Então eu vi o Zilinho mostrando o celular novo pro Coló, que logo chamou a Déia pra ver também.

Então eu vi a Indinha e a turma toda na porta de casa, me esperando.

Então eu vi meu amigo de infância, Nonato, me empurrando no balanço do barracão, sob os olhares da Mãe Vina.

Então eu fiz a foto do azulejo encantado pra que a casa nunca perca o encanto.

Autora: Odette Castro

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

Compartilhe

Respostas de 3

  1. Que lindo, Odette. Detalhes que evocam memórias que foram alicerçadas nas pertenças do viver. Seguem conosco pela eternidade.

  2. Este é um dos mais belos poemas que já vi. Exato. Amplo. A vida acontecendo como em quadro de Portinari. A vida, simplesmente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *