A contracultura foi um movimento social, cultural e artístico, com auge nos anos 1960 e 1970 (principalmente nos EUA e na Europa), que questionou e rejeitou os valores, normas e comportamentos da cultura dominante. Liderado por jovens, promoveu a liberdade sexual, o pacifismo, o naturalismo e a experimentação artística, impactando a música (rock), a moda e o comportamento. Entretanto, em relação às mulheres, esse movimento, principalmente no Rock and Roll, continuou, e continua, sendo machista.
No livro Rock: o Grito e o Mito (1973), o autor Roberto Muggiati escreveu:
“A relação John Lennon/Yoko Ono, e a tentativa do ex-Beatle de estabelecer uma ligação com uma mulher, surge como um dado novo na cultura do rock, considerada predominantemente machista. Foi a nova consciência feminista que conduziu à segregação das mulheres dentro do Superstar System da música pop, onde 99% do setor são músicos homens: Janis Joplin, Melanie, Carole King, Grace Slick são as exceções que confirmam a regra.”
E mesmo uma Janis Joplin, por exemplo, insegura de sua condição de mulher numa sociedade hostil, acabou assumindo ao mesmo tempo o papel de vítima e algoz. Apegou-se ao modelo antigo da mulher-mulher do blues, aquela criatura sofredora, capaz de suportar tudo do seu homem, sem queixas nem exigências. Talvez o ponto mais vulnerável da contracultura se encontre justamente aí: apesar de se assumirem intelectualmente, na música e em novas atitudes, os jovens do rock pouco mudaram nas relações humanas e, principalmente, na relação homem/mulher, insistindo em repetir, sob formas disfarçadas ou pseudo liberais, o comportamento de seus pais.
A jornalista Marion Meade conta como se desencantou com o rock: ‘Stokely Carmichael, o líder negro, lembra que quando garoto adorava westerns e sempre vibrava e torcia para que os mocinhos triunfassem sobre os indígenas, até que um dia se deu conta de que ele era um indígena. Torcia o tempo todo pelo lado errado. Mais e mais, as fãs de rock estão se descobrindo na mesma e curiosamente estranha posição. Para aquelas que se deram ao trabalho de ouvir com atenção, a mensagem do rock não podia ser mais clara. É um mundo de homens, baby, e as mulheres só têm um lugar nele. Debaixo dos lençóis (Rolling Stones: Let It Bleed) ou, se forem talentosas como a Alice de Arlo Guthrie, na cozinha’.”
Outra mulher, escrevendo no jornal underground feminista Rat (“Cock Rock: Men Always Seem to End up on Top”), diz que “toda aquela energia sexual que parece ser a essência do rock é realmente uma energia que atinge o clímax envolta num sentimento antimulher, encarando-a como coisa, mostrando atitudes de dominação, ameaça, orgulho, gozação, trapaça e um milhão de diferentes formas de ódio às mulheres”.
Outro artigo de jornal underground, depois de citar Psicologia de Massa do Fascismo, de Wilhelm Reich, diz que “em Woodstock ou Altamont, uma mulher que não quisesse se deixar violar corria o risco de ser tratada como careta ou chata”. E outra feminista afirma: “Não basta ser objeto sexual: é preciso ainda ser bonita. E mais, é preciso ser pra frente, nem careta, nem exigente, nem agarrada, nem forte, nem inteligente; é preciso amar o cara sem atentar contra a liberdade dele. As mulheres permanecem como a última forma de propriedade que os irmãos compartilham num mundo comunitário”.
No esquema das superestrelas do rock, a figura da groupie , a fã obcecada, surge como um subproduto da “revolução sexual”. É a fã que não se satisfaz mais com o autógrafo: o que ela quer é possuir fisicamente o seu ídolo. Nesse donjuanismo às avessas, o objetivo da groupie é a conquista pela conquista. Quanto mais famoso o músico que ela conseguir levar para a cama, mais alto ela galgará na hierarquia das groupies.
Nos primeiros tempos do rock, os músicos adoravam a facilidade das groupies. O clima é mais ou menos descrito na canção “Stray Cat Blues”, dos Rolling Stones: “Venha coçar minhas costas / Você é uma gata vadia, vadia / Aposto que mamãe não sabe que você coça assim tão bem / Você diz que tem uma amiga mais gata do que você? / Por que não a traz cá pra cima?”.
No fundo, a groupie é uma redução ao absurdo da mulher-objeto, uma caricatura da condição de todas as mulheres. Foi isso que deixou de agradar os músicos, quando perceberam o alcance da jogada e começaram a se ressentir do que chamaram “agressão sexual” das groupies. Na verdade, elas estavam devolvendo a bola, tratando os músicos como objetos num mundo árido, sem amor, em que o sexo aparecia como uma relação mecânica de troca.
A falência do Superstar System a partir de 1969 e a nova consciência desencadeada por movimentos como o Women ‘s Lib parecem ter trazido o que se considera a ascensão da mulher na música pop. Carole King teve o seu LP Tapestry muitos meses em primeiro lugar na parada de sucessos. Grace Slick chefiou o grupo mais importante da Califórnia, o Jefferson Airplane. Melanie, com sua maneira nova de cantar e compor, mostra a profundidade que a contribuição original da mulher pode trazer ao rock.
Uma das grandes tendências do novo rock, que começa a se delinear na década de 1970, é a presença da voz feminina — e não só da voz, pois já está caindo o tabu de que mulher só deve tocar instrumentos “femininos”, como o violão, a harpa etc. É nesse novo cenário que o talento de Janis Joplin se destaca. Ela sai da sua banda Big Brother and The Holding Company e inicia sua bem-sucedida — e curta — carreira solo.
No filme Quase Famosos (Almost Famous), de Cameron Crowe, descreve-se como agiam as groupies junto aos astros do rock. A canção “Stray Cat Blues”, dos Rolling Stones (no álbum Beggars Banquet, de 1968), é narrada por um homem mais velho dando em cima de uma garota menor de idade. A letra diz: “I can see that you’re 15 years old / No, I don’t want your ID” (“Dá para ver que você tem 15 anos; não quero ver sua identidade”). Não faz mais parte do repertório de shows dos Rolling Stones.
No disco Rubber Soul (1965), dos Beatles, a canção “Run for Your Life” é narrada por um sujeito ciumento e controlador que chega a verbalizar a ameaça: “I’d rather see you dead, little girl, than to be with another man” (“Eu preferia te ver morta do que com outro”). John Lennon dizia que odiava essa música.
Assim, a história da mulher no rock revela a mesma contradição vivida fora dos palcos: liberdade proclamada, mas limites impostos; revolução anunciada, mas hierarquias mantidas. A mulher que sobe ao palco precisa provar talento; a que está na plateia é reduzida a corpo; a que compõe enfrenta desconfiança; a que ousa, paga o preço. O rock gritou contra o sistema, mas muitas vezes silenciou suas mulheres. E talvez a verdadeira revolução, tanto no rock como na vida, ainda seja aquela em que a mulher não precise ser exceção e sim sujeito de sua criação.
(JUAREZ VIEIRA)
2 – NOEL

Eu sempre assisto ao programa Bazar Maravilha, do Tutti Maravilha, na Rádio Inconfidência.
E foi lá que, enquanto tecia flores, ouvi Noel de Oliveira Rosa — o fabuloso Noel — cantar Três Apitos, a meu ver sua música mais bonita.
Foi então que passei a pensar nesse grande nome da música brasileira, um verdadeiro mestre do samba urbano.
Noel Rosa nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1910, e morreu muito jovem, em 4 de maio de 1937, aos 26 anos.
Uma má formação maxilar, causada pelo uso de fórceps no parto, marcou profundamente sua vida. O bullying sofrido com frequência gerou insegurança e complexo de inferioridade e acabou por moldar um humor irônico, sensível e inteligente, marca registrada de suas letras.
O bairro Vila Isabel, onde morava, tornou-se seu território poético. Ali retratou um cotidiano simples, boêmio e popular, que lhe rendeu o codinome de Poeta da Vila.
O samba de Noel traz críticas sociais refinadas, sem perder o lirismo urbano. Em 1930, esse gênero musical ainda era visto com desconfiança e racismo pelas elites sociais, e Noel foi um dos grandes responsáveis por levá-lo à classe média e intelectual, mostrando que o samba também é cultura e pode, sim, ser muito sofisticado.
Noel viveu um amor turbulento com Ceci, uma dançarina de cabaré. A relação intensa, ciumenta e conflituosa inspirou várias de suas composições, nas quais o amor não é romantizado: aparece o orgulho ferido, o desejo, a dor e as contradições humanas escancaradas.
Ele tinha tuberculose, uma doença grave e muito comum na época. Ciente de que sua vida seria curta, viveu intensamente: noites em bares, rodas de samba, composições feitas às pressas sem jamais perder a poesia.
Viveu pouco, mas deixou um legado imenso. Seu samba, uma crônica social musicada, influenciou gerações e se mantém atual até hoje.
Noel escreveu sobre um Brasil que pensa, sente e ironiza a dor.
Em Três Apitos, minha música preferida, ele revela um lado especialmente sensível, no qual amor, cotidiano e desigualdade social convivem com rara sutileza.
O eu lírico observa a mulher amada, uma operária de uma fábrica de tecidos, trabalhar duro, com horários rígidos, provavelmente em uma escala 6×1, bem diferente dele, um boêmio livre, à margem do trabalho formal. Por isso, o amor não se apresenta pleno nem idealizado: é atravessado pelo tempo, pelo trabalho e pelas diferenças sociais. Ainda assim, a letra preserva a ternura e a delicadeza.
Em meus pensamentos, a fábrica de tecidos se transforma em um pequeno quarto de costura, perto da cozinha da casa da avó, onde três meninas tentam costurar roupas para bonecas — e só uma delas consegue.
É com essas doces lembranças e com toda a singeleza de Noel que dedico à Mãe das Dores, dona da fábrica de sabedoria, a frase mais bonita de Três Apitos:
“Enquanto você faz pano, faço junto do piano estes versos pra você.”
TRÊS APITOS
(Noel Rosa)
Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Pois, você anda
Sem dúvida, bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito, tão aflito
Da buzina do meu carro?
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe porque
Mas só não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto de um piano
Estes versos pra você
(ODETTE CASTRO)










