Pra algumas pessoas, ler é uma necessidade visceral, às vezes prazerosa, outras não. Como comer, por exemplo. Às vezes é muito bom, outras é só para aplacar a fome. Mas sempre uma necessidade.
Gosto de ler jornais, crônicas e livros. E, hoje, faço alguns poucos cursos em apps da internet.
Minha geração, só pra simplificar, passou da máquina de datilografia para o computador sem transição, como se dizia antigamente, sem ao menos ser indagada se desejava aquela pressa toda. Acho uma falta de educação tremenda essas mudanças impostas sem consultas prévias.
Na minha época, as pessoas fumavam no elevador, no ônibus e no trabalho. Hoje não fumam nem escondido no banheiro, porque o(a) filho(a) bate na porta e faz o discurso decorado e aprendido na escola. Mas livros continuam sendo vendidos, é verdade, menos lidos, pouco lidos, fadados às bibliotecas.
Há muitos anos, li uma crônica de Rachel de Queiroz na qual ela previa o fim do romance como gênero literário. Fiquei preocupado e indignado, na época. Ocorre que as estatísticas não mentem e as livrarias, nos últimos anos, rarearam muito. Ir a livrarias era um programa muito bacana, como ir ao cinema, comer pipocas e ter encantamentos.
Pode-se argumentar que as pessoas compram mais pela internet, compram livros digitais etc, mas será que as novas gerações se interessam por boa literatura?
Não sei, não tenho os dados em mãos.
Tergiversei muito, como sempre, mas o que gostaria de dizer é que alguns livros podem, sim, mudar vidas e destinos. Li “Os Maias”, de Eça de Queirós, três vezes. As últimas sessenta ou setenta páginas do livro, pra mim, são uma espécie de alegoria da vida, como filamentos de um fio grosso que vão se soltando devagarinho.
Todo fim, pra mim, é melancólico, sem rodeios ou meios termos. Fins felizes não são fins, portanto, e, em tal perspectiva, são etapas apenas, simulacros de algo que não queremos ver, a tal da rocha derradeira.
Eça nos impõe um ritmo musical ao final do livro, assim eu sinto, ao ler e ouvir a musicalidade das palavras, simultaneamente. Ritmo suave, triste e… real. Meu Deus! Ele conseguiu unir o tom suave-triste de uma Madame Batterflay, de Puccini, com La Traviata, de Verdi.
Nesta terceira leitura, ao término, senti uma angústia imensa que não cabia em mim, junto a uma vontade inefável de ver imediatamente o mundo, as ruas, árvores, coisas concretas, enfim. Eram 4:00 da manhã. Olhei meu tênis, reparei o tempo, eu estava com Eça na alma, sei tudo sobre ele e quis conversar …calcei o tênis, pus uma bermuda folgada e saí pra correr.
Eu tenho manias esquisitas: converso muito com esses caras que já se foram.
Pensei: se a polícia me parar na corrida eu digo a eles: “acabei de ler Os Maias, de Eça de Queirós, pela terceira vez.” Ocorre que não sou o mesmo das outras vezes, até porque um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Não, não, foi Heráclito quem disse isso, mas ele não tem nada a ver com o caso. Foi o senhor ou eu quem o trouxe para a conversa? Estou um pouco confuso. Mas esse livro, senhor policial, me gerou uma angústia meio alegre, difícil de entender, eu sei, como ao ouvir Puccini e Verdi, não ao mesmo tempo, é claro, o senhor entende, não cabe fazer isso com um fone de uma música de Puccini num ouvido e outro de Verdi no outro, não vai dar certo, a escalada de ambos se dá em sentido figurado, me compreende? E eu senti necessidade de correr, por isso estou aqui nesta situação.
Pensei mais: qualquer coisa, se me levarem pra delegacia de polícia, peço pra ligarem pro Chico França ou pro Vizzotto, ou para os dois de uma vez.









