É curioso o uso da palavra “clássico” no futebol. Ela evoca todo um conjunto de tradições constituídas ao longo de muitos anos, que formam um repertório sólido, mas muitas vezes silencioso no imaginário popular dos torcedores. Isso é perfeitamente natural, afinal ninguém precisa ser praticamente um historiador da bola para apreciar esses jogos que mexem com as emoções de milhões e alteram profundamente a dinâmica de metrópoles, estados e até mesmo países. Ainda assim, para os que apreciam a investigação das histórias do mundo futebolístico, esses embates ganham um valor ainda maior.
Em Minas Gerais não é diferente quando falamos de Atlético x Cruzeiro. Desde os tempos de Palestra Itália esse confronto já tinha uma aura diferente para o torcedor mineiro. As décadas foram cozinhando essa iguaria da nossa cultura esportiva e, assim como um bom prato da nossa inigualável culinária, o tempero do clássico foi ficando cada vez mais saboroso durante esse cozimento. A Era Mineirão veio então para sacramentar de vez a força dessa partida na vida dos mineiros.
Apesar da expressiva vantagem atleticana no número total de vitórias, ao longo da história os clubes foram se revezando em períodos mais curtos de uma certa “hegemonia temporária”. Foi o que aconteceu do lado azul entre o final da década de 60 e boa parte da década de 70, com o timaço de Tostão, Dirceu Lopes e companhia, assim como no final dos anos 2000, com a equipe treinada por Adilson Batista. Do mesmo modo, foi o que aconteceu do lado alvinegro durante a década de 80, com aquela seleção formada por Reinaldo, Éder, João Leite e tantos outros, e em boa parte dos anos 10 e da década atual, com as equipes treinadas por Levir Culpi e Cuca principalmente, protagonizadas por Diego Tardelli, Hulk e outros.
Como tudo no futebol, no entanto, os clássicos também recebem o peso da modernidade, termo que nesse esporte traz uma carga muito amarga para muitos fãs, entre os quais me incluo. Com isso, o torcedor foi afastado dos estádios nos tempos de Arena Mineirão. O Gigante da Pampulha, que se acostumou a passar os domingos enfeitado de preto e azul, se viu obrigado a aderir à tendência monocromática que infectou a moda futebolística dos últimos anos. Não pretendo me aprofundar muito aqui no debate sobre a violência entre as torcidas e as medidas claramente ineficazes do Poder Público para coibi-la, entre as quais se encontra a presença de torcida única (ou de apenas 10% dos visitantes) em clássicos. Apenas ressalto que parte do tempero que aderiu a essa deliciosa receita do nosso futebol após tantos anos de cozimento veio perdendo seu sabor nos últimos tempos.
E não foram apenas a elitização do esporte ou a ausência da torcida visitante os responsáveis por isso. A gestão criminosa de Wagner Pires de Sá e Itair Machado por pouco não concretizou sua tentativa de homicídio do Cruzeiro, arrastando também para o túmulo o clássico mineiro. Como um paciente que se recupera na UTI, o time celeste teve um processo doloroso de convalescência, o que criou um abismo entre os dois clubes no estado, em um contexto em que o Atlético se consolidou como uma das grandes potências do futebol nacional e continental.
Foi então que entrou outro grande personagem do futebol moderno para, ironicamente, começar a resgatar um pouco do nosso querido clássico estadual: as SAFs. Mais especificamente, os bilhões de Pedro Lourenço e Rubens Menin. Desde que Pedrinho assumiu o comando do Cruzeiro, os investimentos no departamento de futebol do clube subiram exponencialmente, trazendo consigo equipes mais competitivas que aos poucos estão devolvendo o clube ao seu lugar tradicional de protagonismo no esporte nacional. Já o rival, que vem dominando de forma absoluta o futebol mineiro, tem demonstrado dificuldade para apresentar em campo nas últimas temporadas a consistência que lhe rendeu respeito internacional e uma ampla coleção de títulos nos últimos 12 anos.
Nesse contexto, naturalmente o primeiro confronto entre Cruzeiro x Atlético em um mata-mata nacional em tempos de Pedrinho, Menin e Arena MRV veio cercado de expectativas. Mas esses não são os únicos elementos que aproximaram as noções de clássico e moderno e conferiram um sabor diferente a essas quartas de final.
Para o torcedor alvinegro, a rivalidade contra o Cruzeiro está longe de ser a única responsável por escrever momentos significativos de sua história. Desde as acirradas disputas entre os timaços de Zico e Reinaldo no início da década de 80, as vestes rubro-negras sempre despertaram sentimentos fortes nos corações atleticanos. Na Copa do Brasil, em especial, os confrontos com o Flamengo se fizeram bem marcantes nos últimos anos, com a reviravolta histórica em 2014 e o título rubro-negro no ano passado. O Galo de Hulk inclusive se acostumou a rivalizar bem mais com os cariocas no cenário nacional do que com o lado celeste belo-horizontino. Diante disso, a classificação heroica nos pênaltis nas oitavas de final, na mesma Arena MRV que lamentou o vice-campeonato para os flamenguistas no ano passado, teve um gosto especial para a massa atleticana. Eliminar o Flamengo sempre traz um sentimento de reparação histórica para quem nunca se esqueceu dos absurdos cometidos por José Roberto Wright há 40 e poucos anos.
Para o torcedor celeste, por sua vez, o encontro com o rival nas quartas também veio com um tempero diferenciado. Pela primeira vez desde 2019 o Cruzeiro reassumiu uma posição de destaque no futebol nacional. Após a frustração com o vice na Sul-Americana do ano passado, os cruzeirenses desta vez têm motivos de sobra para criar expectativas quanto a um resgate da alma copeira do clube, que se consolidou ao longo dos anos 90 e reapareceu na década passada. O futebol do time treinado por Leonardo Jardim tem chamado a atenção de todo o país, fazendo a equipe superar adversários favoritos, que surpreenderam o mundo competindo de igual para igual com os europeus na Copa do Mundo de Clubes, como Palmeiras, Fluminense, Botafogo e o próprio Flamengo. Além disso, o técnico português conseguiu implementar uma filosofia de jogo caracterizada por contra-ataques intensos, com trocas de passes rápidos e progressão com poucos toques em direção ao gol adversário. Com isso, Kaio Jorge, Matheus Pereira, Christian e companhia têm conseguido resgatar um ditado popular em Minas Gerais, que há muito tempo não fazia tanto sentido como nos dias atuais: “Rápido e rasteiro, que nem o ataque do Cruzeiro”.
Com esses ingredientes, o confronto das quartas da Copa do Brasil veio cercado de expectativas. Galo e Raposa chegam para a disputa se recuperando de ferimentos causados por motivos bem diferentes. Alguns mais recentes, como os da instabilidade atleticana na temporada. Outros mais antigos, como a ainda impactante herança nefasta de gestões corruptas do Cruzeiro. Mas se tem uma coisa que a modernidade não mudou foi o poder curativo (ou destrutivo) de um clássico. Quando ele vem num torneio com essa importância, nem se fala. A partida pode ser de uma fase relativamente intermediária na competição, mas seus resultados podem salvar ou arruinar os planos para o resto da temporada. A largada já foi dada na última quarta e o Cruzeiro construiu uma vantagem bastante sólida. Ainda assim, seria muito presunçoso para qualquer um afirmar que o confronto já está definido. Do clássico ao moderno, uma coisa é certa: mais uma página histórica do futebol mineiro será escrita no próximo dia 11. Resta sabermos se será outra heróica e imortal ou se teremos mais um desfecho forte e vingador.










Respostas de 4
Textos sempre impecáveis. Sua sensibilidade ao tratar dos aspectos sociais e culturais do futebol é uma qualidade rara, Victor (Sid). É como dizem: não é apenas futebol.
Parabéns! Texto muito leve e verdadeiro! Nota mil.
Não há o que acrescentar.
Excelente conteúdo. Parabéns Victor.
Texto excelente!