Todo final de ano é a mesma coisa. Pelo menos desde que comecei a perder pessoas amadas.
Sim! Quanto mais tempo vivemos, mais perdas colecionamos.
No meu caso, tudo aconteceu meio que precocemente, já que fiquei viúva aos 41 anos. Logo depois, perdi meu pai, meu sogro, minha sogra, alguns tios queridos e até um irmão que já nem era mais presente na família. De qualquer forma, cada morte nos impacta de um jeito diferente.
E não é só a morte que nos causa desconforto no Natal, não. Uma separação, uma perda de emprego, uma mudança de cidade, um desentendimento com alguém ou até mesmo a lembrança de que já não temos mais aquele número de amigos de antigamente, e muito menos toda a nossa família reunida.
Muitos, na verdade, nunca tiveram. E estar nesse contexto cultural, onde somos quase que forçados a estarmos felizes, e o tal “espírito natalino”, pode nos conduzir a uma tristeza profunda.
Não há como se programar para estar feliz em função de uma data. Somos seres bem mais complexos do que isso.
Se você não se sentir bem nesse dia, está tudo bem. Você não está sozinho. Na verdade, nesse período é muito comum se sentir assim. Respeite seu tempo e você mesmo. E se você se sentir alegre apesar de uma perda ou outra amolação qualquer, também está tudo bem. Aproveite!
Não há regras. Só você sabe o que se passa com você.
Você pode participar de alguma comemoração e sair cedo. Pode ficar em casa e ter um dia ou uma noite absolutamente normais: dormir cedo, assistir a um filme, tomar um chocolate quente, encontrar um amigo apenas, enfim… não há protocolos a serem seguidos.
Não há certo ou errado.
Não se cobre por não estar no clima.
Faça o que te faz bem. Evite quem e o que te faz mal.
Às vezes, esse dia é chato mesmo. E, para muitos, é cheio de obrigações e recordações: boas ou ruins. E essas memórias podem causar dor.
A boa notícia é que tudo passa, até o Natal também!
Um beijo e HOHOHO!
LUCIANA ROCHA
A ALEGRIA IMPOSTA

O Natal desperta emoções. As luzes, as decorações das lojas, as festas de congraçamento induzem um sentimento de alegria genuíno, na maioria das vezes. No entanto, as mesmas condições podem sugerir reflexões diferentes. Neste caso, a data seria uma marcação do tempo, própria de um balanço do que fizemos no ano.
Manuel Bandeira, no poema “Versos de Natal” (abaixo) oferece esta perspectiva. Não há presépio, árvore com bolas coloridas, Jingle Bells. Não há alegria imposta, exigência de estarmos felizes. Pelo contrário, usa a data para voltar-se para dentro, numa introspecção solitária. O acolhimento não está nas festas, está em nós, e isso não é necessariamente ruim.
(FRANCISCO FRANÇA)
VERSOS DE NATAL
(Manuel Bandeira)
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

MANUEL BANDEIRA (1886-1968) usa sua genialidade para refletir sem ironia ou dureza sobre as imposições a que estamos sujeitos nesta época. A necessidade de se mostrar alegre. Afinal, a vida é complexa e há várias maneiras de senti-la.









