Na pré-história, grupos de humanos sentavam-se em torno de uma fogueira para compartilhar as experiências vividas durante o dia. Mesmo com poucos recursos de vocabulário e expressões, faziam-se entender porque o que era relatado, de alguma forma, era reconhecido pelos demais membros por terem provado ou testemunhado situações semelhantes.
Ao reconhecerem em si o relato alheio, os vizinhos se aproximam gerando coesão e confiança mútua ao perceberem que as informações recíprocas eram vitais para a sobrevivência de todos. A memória de cada indivíduo articulava-se como a dos demais integrantes da comunidade, sendo sucessivamente reelaborada e recontextualizada. Assim, formava-se um repositório de conhecimentos e noções que se incorporavam ao dia a dia e eram repassados de geração para geração.
Quando a necessidade de compartilhamento não se restringiu mais tão somente às artimanhas da caça, à defesa diante das inclemências da natureza e a outras atividades básicas, surge a arte –- sempre a arte — como uma primeira possibilidade de dar forma às percepções humanas mais sutis, tanto as de ordem racional quanto as do subconsciente. As pinturas rupestres são os primeiros registros de representação visual utilizados para narrar eventos, rituais, representar o cotidiano e transmitir conhecimentos, estabelecendo as bases da comunicação simbólica.
“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” (Cora Coralina)
Desde então, foi desenvolvida uma gama de modos e sistemas de manifestação e registro, de modo a promover e facilitar a exposição de ideias e a preservação da história. Por meio das artes, da filosofia e das ciências constituiu-se um acervo universal da capacidade criativa humana — que nos define como espécie —, consolidado por uma infinitude de sinais materiais e intangíveis de memória; em outras palavras, o Patrimônio da Humanidade.
“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos; sem memória, não existimos, e sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.” (José Saramago)
Milênios se passaram e muitas mudanças aconteceram, mas não mudou a necessidade de interação social. É da natureza humana – biológica e psíquica – sentir-se parte de algo que compreenda, identifique e valide – pertencimento – para o seu próprio benefício e saúde mental.
Contemporaneamente, fogueiras digitais resgatam o papel arquetípico do fogo ancestral ao possibilitar o espelhamento e a partilha de experiências, mesmo que de forma fragmentada e incompleta – sobretudo, pela ausência da presença física, das nuances da linguagem não verbal e pelos desafios de superar as armadilhas promovidas por algoritmos traiçoeiros –, reforçando a percepção de não estarmos sozinhos no mundo e mitigando o vazio existencial da super-modernidade.
Apesar dos riscos inerentes, a tecnologia nos proporciona reencontrar nossa “tribo”, embora separados pela geografia, e faz-nos reconectar com algumas das nossas lembranças mais significativas, mesmo as ruins, muitas vezes perdidas ou esquecidas. É notável e admirável como o empenho de cada um em preservar e partilhar as suas memórias pessoais soma-se às vivenciadas em conjunto. Ao revisitar o passado com os filtros da experiência, reforça-se a conformação de uma memória coletiva viva.
“Temos a arte para não morrer ou para não enlouquecer perante a verdade.” (Nietzsche)
Para finalizar, uma obra de arte. A estrofe seguinte sintetiza e expressa melhor o alcance e o sentido do que até aqui se tentou dizer.
Esplendor na Relva*
William Wordsworth
(tradução de Catarina Belo)
Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.
*O poema “Esplendor na Relva” é uma estrofe famosa da obra mais longa de William Wordsworth, “Ode: Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood”. Fica ainda mais interessante quando recitado por Natalie Wood, no filme “Splendor in the Grass”, de 1961, dirigido por Elia Kazan.










Respostas de 3
Oi Chicão, sou fã do “o echo da mata”. Me faz lembrar de minha juventude em Poços de Caldas. Meu irmão era linotipista (trabalhava na máquina de linotipo) do Diário de Poços. Meu pai, como lazarista, (estudou 5 anos no colégio Caraça) escrevia crônicas semanais. E, meu primeiro bico, com uns 15 pra 16 anos, era entregar o jornal na casa dos assinantes.
Estudei com o Aluísio no ICES – Instituto Champagnat de Estudos Superiores, na Serra, em 1981. Tinha uma turma de Peçanha estudando lá, e formamos um timaço de futebol de salão.
Eta mundo pequeno!
Grande Danilo
Parece que a vida daquela época ia pelo mesmo percurso, independente da cidade onde morávamos. Tempo bom, que lembramos sem nostalgia.
O João Vizzotto que escreve aqui trabalhou em Poços de Caldas.
Como v. disse, o mundo é pequeno.
Ficamos alegres de saber que v. gosta do jornal.
Abraço apertado.
Prezado Danilo,
Infelizmente, não tive o privilégio de estudar com você, pois nunca frequentei a instituição mencionada. Mas, mas o seu convívio com a turma de Peçanha, certamente, rendeu boas lembranças a ambas as partes. Abraço