Filho de Zé Câncio e dona Ica, irmão de Zé Carlos, o empresário José Eustáquio Rodrigues dos Santos abriu o coração para o Echo da Matta, numa conversa para se guardar.
Na infância, morava na fazenda com a família, às margens do rio Suaçuí Pequeno. Tinha por volta de dez anos quando começou a fazer suas primeiras “negociações”. Nas férias escolares ajudava o pai trazendo laticínios e frutas para a cidade. Saía da fazenda montado no lombo de um burro, levando balaios cheios de limão, laranja e requeijão para vender em Peçanha. A viagem levava 2 horas e 20 minutos e ele ia sozinho, com a alma leve e sonhos grandes.
Os produtos eram entregues no armazém do Antônio Camilo, mas ele também deixava algumas laranjas para vender de casa em casa. Sem saber, já criava sua primeira rede de clientes. À tarde, voltava com os balaios vazios, os bolsos cheios de dinheiro e uma Fanta laranja quente na mão, sua recompensa preferida.
Quando a família se mudou para a cidade, foram morar primeiro no bairro da Bomba, na Rua Saldanha Marinho, e depois na rua Monsenhor Amaral. Estudou na Escola Estadual Senador Simão da Cunha, em Peçanha e concluiu o segundo grau no Colégio Ibituruna, em Governador Valadares, onde morou de 1972 a 1974.
Inquieto e com vontade de “arranjar uns trocados”, começou a trabalhar numa loja de móveis — seu primeiro emprego. Depois disso, passou pelo Banco Real em Acesita e pelo Bradesco, em Belo Horizonte, onde chegou ao cargo de subgerente. Em 1976 interrompeu os estudos formais. Boa comunicação e habilidade para “conversar e convencer” eram seus pontos fortes. Foi justamente por saber conversar que uma nova porta se abriu. Um cliente comentou sobre o promissor mercado de cosméticos. A ideia acendeu uma luz. Pediu demissão do banco e decidiu empreender e nem o choro preocupado da mãe o fez mudar de ideia.
O conterrâneo Francisco França lembra de um bate papo durante uma parada do ônibus Peçanha-BH: entre um gole de café e jogando “conversa fora”, José Eustáquio revelou seu plano de criar uma marca de cosméticos. Já tinha até nome: PODANGE, inspirado na expressão francesa Peau d’Ange — “pele de anjo”. E, como se não bastasse, o nome ainda lembrava os produtos da famosa marca Monange, anunciada por Silvio Santos. Jogada de marketing certeira. Não foram tempos muito fáceis. Como todo início, vieram as dificuldades: fabricação artesanal, pouca divulgação e até uma sociedade desfeita. Mas ele persistiu.
Em 1989, já casado e pai, morando em Ribeirão Preto, resolveu tocar o negócio e apostar tudo no sonho. Mudou-se para Franca (SP), onde tudo prosperou, modernizou. Consolidou a empresa que administra com os filhos. Surgia a DUETTO Cosméticos, que hoje atua em três frentes: varejo, atacado e linha profissional. A empresa oferece mais de 320 itens, entregues através de 58 distribuidores que direcionam esses produtos de São Paulo ao norte do país.
O negócio se mantém firme, mesmo com a concorrência pesada, graças à gestão financeira responsável, ao uso inteligente da internet, à capacidade de manter bons relacionamentos e uma carteira de clientes diversificada e, principalmente, à participação da família.
A trajetória do Zé Eustáquio parece confirmar a tese de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung:
“As crianças que crescem no campo, levam uma certa vantagem inicial sobre as crianças da cidade, por terem desde muito cedo, as mais variadas oportunidades de encararem a vida como ela é, tanto em seu lado sombrio quanto em sua luz. (Bárbara Hannah – Jung Vida e Obra)
Apesar da vida atribulada, José Eustáquio não abre mão do lazer com a esposa, os três filhos e os sete netos. Cultiva 3 mil pés de pitaia em seu sítio, onde se divertem nos fins de semana ao som de sertanejo raiz, gauchadas e muitas gargalhadas.
O menino, que a princípio sonhava em seguir os passos do pai, conhecido em Peçanha pelo bom humor e pelo gosto pelas danças, virou um empresário de sucesso. Como a casca da pitaia, que esconde um miolo doce, sua trajetória mostra que os caminhos tortuosos da vida podem levar a colheitas generosas — quando se planta com coragem e raiz firme na terra.










Respostas de 3
Grande amigo. Frequentei muito sua fábrica e cheguei a usar seus perfumes. Parabéns José.
Que história ótima, Wilsinho!!! Que menino danado!!! Adorei ler.
Amei o texto!!! História admirável