Aquela cidade para ele, nos seus tempos de menino, alcançava contornos míticos quando sua mãe, que havia estudado lá, em um colégio interno, costuma dizer: “A gente ia a cavalo, atravessava o Suaçui na canoa e gastava três dias para chegar”. Ou então: “Lá tem a Mãe-d’Água, a Rua da Bomba e o Morro do Segredo”. Desde então Peçanha, antiga cidade do Vale do Rio Doce, à qual Governador Valadares pertenceu, tem povoado a sua imaginação. Mas ele nunca havia ido lá. A não ser em algumas ocasiões, por meio da leitura dos livros de Oscar Vieira da Silva, de Oswaldo Pimenta e do botânico francês August de Saint-Hilaire. Este andou por aquelas bandas nos idos de 1818 e, sobre o lugar, contou histórias fantásticas, como a de um certo “bicho da taquara”, que, depois de comido pelos indígenas, levava-os “a terem visões e sonhos maravilhosos.”
Pois não é que um dia desses, para assistir ao casamento de uma sobrinha – a advogada Ana Paula Sette, com o também advogado Flávio Almeida – ele acabou dando os costados por lá? “Quero conhecer o colégio onde minha mãe estudou, subir a Rua da Bomba, conhecer a Mãe-d’Água e o Morro do Segredo.” Durante toda a viagem, que durou mais de sete horas, ele ia repetindo isso para sua mulher, que apenas sorria, enquanto o ônibus rodava noite adentro. Mas no dia seguinte, lá pelas 9h da manhã (o casamento seria às 11 h), foi dela a iniciativa de falar ao noivo da vontade do seu marido de ir àqueles lugares. “Com prazer, Danne, nós iremos”, Flávio disse gentilmente.
E foi assim que, depois de terminadas as bodas e após um farto almoço, chegou a hora de darem umas voltas por Peçanha, ou melhor, pelos lugares da sua imaginação. “Este é o Morro do Segredo”, lhe disse o Flávio, enquanto o carro, valentemente, ia vencendo-o. Muito alto (a cidade fica aos seus pés), ele é contornado por dezenas de árvores e ali bate um vento forte, que vai em direção à Bancada, que é um outro morro, antes de finalmente chegar à Mãe-d’Água. Cantada em prosa e verso pelos filhos da terra, vem a ser uma reserva ecológica que, por sorte e cuidados dos peçanhenses, ainda está preservada. A mata continua quase intacta; as árvores são velhissimas e ali ainda se toma uma água de mina, que vem de longe, das entranhas da terra.
“Agora vamos ao campo de aviação”, lhes disse o anfitrião em seguida, após tomar um gole daquela água. “Ao campo… fazer o que lá?”, pensou consigo, mas não falou nada. Mas foi dali que viu ou julgou ver o mundo. Começava a escurecer. Um sol vermelho ia invadindo o céu. Sua mulher, em silêncio, lhe deu as mãos. Ana Paula e Flávio fizeram o mesmo. E então ele, que também é do Vale do Rio Doce, se pegou, do alto daquela serra, mirando outras que se perdiam longe: viu a serra dos Ambrósios, a do Rio Vermelho; a Negra, onde existem as sempre-vivas; a do Gavião, antiga rota dos tropeiros; a Tromba d’Anta, cantada por Guimarães Rosa e Richard Burton; a Maria Lopes, perto de Dores de Guanhães; a Coluninha, que deu nome à sua cidade de Coluna, e tantas outra, enquanto sua imaginação voava longe, com se ele também, como faziam os indígenas, antigos moradores do lugar, tivesse comido o “bicho da taquara”.
Minutos depois, já noite fechada, eles desceram a Rua da Bomba, passaram em frente ao antigo colégio onde sua mãe havia estudado e chegaram em casa. Estavam em paz.
(*) Publicada no Estado de Minas – 23/03/2004










Respostas de 2
Conheço o Carlos Herculano de longa data, ele é irmão da Laene, esposa do meu colega de Faculdade, Armando Freire, Desembargador do TJMG e amigo que guardo do lado esquerdo do peito..
Peçanha e seus encantos e cada morro, curvas e ladeiras onde a magia prevalece.