1 – LUGARES DE PEÇANHA – LARGO DO ROSÁRIO
O Echo da Matta conversou com os Gomes da Silva: Judith, Teresinha e Fábio, filhos da Dona Generosa e do Sr. Romão, moradores do Largo do Rosário, que falaram sobre histórias vividas neste lugar icônico da nossa cidade.
Judith, professora de História, nascida e criada no Largo do Rosário, hoje Praça do Rosário: “Nos anos 50 do século passado, na década do bolero e do samba-canção, tive ali uma infância plena de sonhos, fantasias e esperança de um amanhã melhor.
Hoje, quando volto à minha terra natal, sinto aflorar em mim toda a poesia e os sonhos vividos naquele lugar tranquilo e aconchegante.
Brincávamos de pegador, pula-corda e, quando chovia, podíamos descer na enxurrada, numa correria.
Nossos vizinhos eram amigos e acolhedores. Dividíamos o que tínhamos com todos.
Foi neste Largo que ganhei amigas de infância e permanecemos unidas em todos os bons ou tristes momentos. São as queridas Lucília França e Marilac Caldeira. Não posso deixar de citar Zé Bolão, amigo do peito e companheiro dos jogos de buraco.
Minha casa tinha uma vista maravilhosa. Da porta de entrada se via a Igreja Santo Antônio, o prédio do Ginásio Municipal e a famosa mata, que ainda me encanta.
Como diz o ditado, saí de Peçanha, mas Peçanha não saiu de mim”.
Teresinha, enfermeira e percussionista amadora (timbau e tambor de mão):
“Do fundo do quintal ou da goiabeira, vigiava meu namorado na Praça da Igreja. Tenho também lembranças mais dolorosas, como a seca, que era responsável pelas filas enormes de mulheres com lata d’água na cabeça, a caminho da fonte na Rua do Cemitério, e das dificuldades financeiras.
Cito o poema de Pablo Neruda, que traduz os sentimentos que carrego comigo:
— “daquelas terras, daquele barro, daqueles silêncios, eu saí a andar, a cantar pelo mundo. Feliz”.
Fábio, técnico em telefonia:
“A Praça do Rosário é o melhor lugar da minha grande Peçanha. Os moradores maravilhosos como Dona Isaura Simões, Maria Pires, nossa casa, Dona Tuta, Dona Carmelita, tio Lúcio, Joaquim Jerônimo, suas duas irmãs, Pedro César, Dona Licinha, Dona Lita, Diolino Passos, Rosa do Senhor Cascalho, Dona Quife e toda a ‘molecada’ jovem faziam do lugar um espaço único.”
O Secretário da Cultura de Peçanha, Filipe Dama, diz que está sendo construído um Memorial em homenagem à trajetória histórica e à relevância da Praça de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos como sítio arqueológico de Peçanha. Ali existia a Igreja, uma irmandade do período colonial frequentada por pessoas negras, porque a Igreja da Matriz era frequentada somente pela população branca. Fazia parte também desse complexo um cemitério onde era enterrada a população que viveu em situação de escravidão em Peçanha.
A história da Praça do Rosário é forte. Todos que ali moraram ou ainda moram honram esse pedaço de terra da nossa Peçanha.
(JUDITH, TERESINHA E FÁBIO GOMES DA SILVA)
2 – PORTUGAL – A VIDA QUE ESCOLHEMOS VIVER

Em 2017 tomamos uma das decisões mais transformadoras das nossas vidas: mudar para Portugal. Tínhamos dois filhos pequenos. Eu vivia uma transição profissional e estava profundamente impactada pela maternidade. A vida já tinha mudado, e nós também. Portugal surgiu como uma escolha serena, estratégica e possível. Planejamos durante um ano inteiro. No final de 2017 atravessamos o oceano com duas crianças, algumas malas e uma mistura intensa de coragem e expectativa.
Escolhemos viver perto do mar. Intuitivamente, sabíamos que ele nos faria bem. A adaptação não foi cinematográfica. Foi real. Dois filhos pequenos, rotina exigente, trabalho, escola, noites mal dormidas. Durante muito tempo, nossa vida se resumia basicamente aos filhos e ao trabalho. Construção silenciosa, diária e constante. No meio desse processo, descobri que poderia exercer a advocacia em Portugal. Foi um renascimento profissional. Um novo sistema jurídico, novas regras, novos desafios, e uma motivação imensa. Não era apenas continuar a carreira. Era reconstruí-la em outro país. Isso me transformou por dentro.
Aos poucos, fomos criando nosso círculo de amigos. Relações que começaram tímidas e se tornaram profundas. Muitos permanecem até hoje. São nossa família fora do Brasil. Porque quem imigra aprende que amizade deixa de ser algo complementar e passa a ser estrutura.
Mas, junto com as conquistas, existe a saudade.
Saudade de coisas simples: do cheiro da comida da infância, do tempero que não se reproduz igual, da música que toca sem precisar explicar, do humor espontâneo, da leveza brasileira, das conversas que começam com intimidade imediata. Saudade de ser compreendida sem esforço. A imigração ensina que identidade não é apenas nacionalidade, é sensorial. É memória. É pertencimento.
Descobrimos um novo eu. Mas também descobrimos que aquilo que sempre fomos continua ali. Mudamos, mas repetimos padrões. Nossos vínculos seguem fortes. A forma como amamos continua intensa. A amizade, para mim, continua sendo essencial. Isso não muda com a geografia.
Portugal nos deu uma nova lente para enxergar o mundo. Passamos a olhar as relações com mais consciência. A valorizar mais aquilo que realmente importa. Porque sabemos o que significa deixar para trás o que amamos por escolha. Sabemos o peso e o privilégio dessa decisão. Nunca seremos totalmente de cá. E já não somos do Brasil exatamente como antes. Vivemos nesse lugar do meio. E ele nos transformou.
Ver-me como imigrante, mesmo sendo portuguesa também, mudou profundamente a forma como enxergo o mundo. Passei a perceber com mais clareza as vulnerabilidades invisíveis, as dificuldades burocráticas, os medos silenciosos e o esforço diário de quem tenta recomeçar. Foi aí que tomei uma decisão muito consciente: parte do meu trabalho seria dedicada a ajudar quem precisa. Usar minha profissão não apenas como carreira, mas como instrumento de impacto. Auxiliar imigrantes que buscam regularização, dignidade e estabilidade. Oferecer a mesma seriedade e cuidado tanto a grandes clientes quanto àqueles que chegam apenas com esperança.
E foi também nesse processo de reconstrução que reencontrei algo antigo dentro de mim. Perto do mar que escolhemos quase por intuição, aprendi a surfar. Não foi apenas um esporte. Foi um reencontro com uma versão mais corajosa, mais leve e mais presente de mim mesma. O mar me ensinou sobre equilíbrio, sobre cair e levantar, sobre respeitar o tempo das ondas, e o meu próprio tempo. Aprender a surfar, já adulta, em outro país, foi uma metáfora silenciosa da imigração: você não controla o movimento, mas aprende a se posicionar dentro dele. Passamos a valorizar os dias de sol como quem valoriza pequenas vitórias. Aprendemos a celebrar o tempo bom, literal e simbolicamente, porque entendemos que ele não é garantido. A imigração nos ensinou isso: nada é permanente, tudo é construção.
Nosso núcleo familiar se fortaleceu. Quando tudo ao redor é novo, a família se torna âncora. Tornamos mais unidos, mais conscientes, mais presentes uns para os outros. Portugal não foi apenas uma mudança de país. Foi um processo de amadurecimento. Uma travessia que nos expandiu, nos responsabilizou e nos aproximou daquilo que realmente somos.
No fim, descobri que mudar de país não transforma nossa essência. Mas revela, com clareza, o que realmente importa, e quem escolhemos ser.
(FERNANDA BESSA)










