
Mudei-me para São João Del Rei há dois anos e meio. Na verdade, eu sempre gostei de Tiradentes, mas os preços dos seus imóveis e aluguéis me fizeram desistir da cidade, mas não da ideia de morar na região. Gosto de igrejas e dos badalares de sinos, gosto do barroco e do rococó. E descobri que do centro de São João a Tiradentes são apenas 15 minutos de carro.
Eu gostava e gosto de passear de carro por São João com Andréa e sempre peço pra ir à rua Getúlio Vargas (ou rua direita).Ela tem início na igreja do Rosário, a mais antiga(1719), passa pela matriz do Pilar(1721), e termina na Igreja do Carmo(1761), tudo isso em apenas 380 metros.
Nessa belíssima rua, eu já observara, há algum tempo, um bar de portas azuis envelhecidas, de arco alongado e certo movimento interno. Bar com cara de boteco, com torresmo e cerveja gelada.
Apontei pra ele e perguntei a ela que bar era aquele, mas Andréa custou a responder. Ao final, disse apenas que não era bem frequentado e disse seu nome: bar do … .
Em tempos de desconfianças não convém correr o risco de magoar o dono do estabelecimento, que poderia se sentir diminuído com a história, quando na verdade o meu desejo é de homenageá-lo. Paciência. Substituirei seu nome pelo meu, Djalma, de modo a evitar mal entendidos. Bar do Djalma, portanto. Confesso que me soa muito bem.
Toda rua direita existente no Brasil e em Portugal é importante. Normalmente começam numa igreja e seguem seu rumo. Pois nesta, especificamente, junto a igrejas centenárias, restaurantes e lojas chiques, fica o bar do Djalma, de uma modéstia franciscana, sem decoração, sem mesas e com a idade do primeiro sapiens que quis conversar e beber com outros sapiens, esquecer um pouco os males do mundo e tentar rir ou apenas sorrir.
O fato é que os comentários sobre a freguesia do bar geraram em mim uma curiosidade insuperável, somado a minha identificação natural com os tipos que são “gauche” na vida.
Curto analisar certos preconceitos e sua conjugada de sempre, a tal da reputação. Digo isso porque ao comentar sobre o bar do Djalma, com uma fisioterapeuta da cidade, ela me disse que iria conversar com o pai a respeito e que ele certamente gostaria de ir lá comigo. Mas… na consulta seguinte, disse-me que o pai não indicava o lugar, pois não era adequado para a reputação etc.
Nessas situações, sempre me lembro de Diógenes, o cínico, esse mesmo que morava num tonel e que um dia pediu para Alexandre, o grande, sair da sua frente pois estava tapando-lhe o sol. Dizem que de vez em quando aparecia alguém querendo aprender algo com ele, apesar de sua péssima reputação. A tarefa dada ao futuro desistente era puxar por uma linha, pelas ruas de Atenas, a carcaça de um peixe morto. Para Diógenes, se você deseja aprender a pensar e a viver, deve se desfazer de certas noções escorregadias, que o impedem de sair do lugar, como a noção de ridículo, que nada mais é do que uma inadequação à moral de quem critica o ato, o gesto, a maneira de vestir ou o comportamento de outrem. Ou seja, quem é ridículo não tem boa reputação, mas muitas vezes quem é certinho também não tem, de modo que o melhor que se faz é não se importar com a opinião dos outros e viver a vida de forma plena.
Voltemos ao meu bar.
Pensando em lá encontrar Diógenes fora do seu tonel, pra lá eu fui com o Lucinho, amigo que fiz na cidade. Logo de cara pude provar, pela primeira vez na vida, um focinho de porco fantástico que eu nem sabia existir (um absurdo, pensei), uma cerveja gelada e fregueses autênticos, todos generosos, a oferecerem seus tira-gostos e bebidas. Os pobres dividem mais as coisas, Diógenes me disse, segurando uma tigela de torresmo e ofertando-a aos presentes, com o cotovelo no balcão, é claro, pois os calejados sabem que o equilíbrio está no balcão, não no cotovelo.
Ali, naquela rua de igrejas e de Nossas Senhoras, ao lado pessoas simples e boas, eu me senti feliz. Meu irmão, Osvaldo, me dizia que a felicidade deve ser testada com um beliscão, pra gente saber se tudo aquilo é de verdade mesmo e não um sonho. Eu saí do Djalma e fiz o teste, no passeio, contemplando as igrejas e as pessoas. Depois voltei para conversar um pouco mais com Diógenes e perguntar se ele não tinha um tonel sobrando pra me vender.










Respostas de 3
Djalma boa tarde. Suas cronicas inspiram. Parabéns. Sou um sortudo por ter você como amigo
Quero ir neste bar.
Djalma, como sempre bom de serviço. ❤️