O Dia em Que o Céu Desceu em Colina

Publicado em: 28/12/2025 às 14:49

Atualizado em: 29/12/2025 às 12:19

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“Olha lá, um helicóptero parado no ar! Será que acabou a gasolina?”

Era ainda menino, e cursava o Grupo Escolar, quando anunciaram a chegada do Governador de São Paulo, Carvalho Pinto em Colina. Diziam que fazia uma peregrinação pelo Estado — palavra bonita para quem viajava de cidade em cidade, como se fosse santo em romaria. Na cidade a notícia caiu como um raio em céu azul: nunca uma autoridade tão alta havia aportado por aquelas bandas.

E não era só o governador que vinha — vinha de helicóptero. Um bólido alado, um pássaro de fogo, como diziam os mais poéticos. Para nós, crianças, era como se o próprio céu fosse pousar no campo de futebol.

Por razões que só os adultos entendem, o Grupo Escolar Coronel José Venâncio havia se transferido para o prédio do Colégio Dr. Lamounier de Andrade. O Coronel, fazendeiro de café, era dono da imensa Fazenda Colina, onde hoje é a cidade. Os imigrantes italianos se instalaram no Monte Belo e trabalhavam na lavoura do Coronel. Sua filha, Dona Alice Dias, casou-se com o Dr. Lamounier, médico respeitado. Dona Alice, única herdeira, não teve filhos — e assim, a dinastia do Coronel findou nela. A Fazenda Colina, sem herdeiros, passou ao Estado, sendo dividida em duas: a Fazenda Colina e a Fazenda do Governo.

Ponte Dona Alice Dias

Hoje, Colina tem a Escola de Primeiro Grau José Venâncio Dias, o antigo Ginásio e Colégio Dr. Lamounier de Andrade, e uma ponte com o nome de Dona Alice Dias — que, por ironia do destino, também deu nome a uma maternidade. Quando inauguraram outra escola, meu pai, então vereador, sugeriu o nome de Dona Dadinha, a primeira professora da cidade. Mas foi voto vencido. Nem sei qual nome deram à escola. Democracia tem dessas coisas.

Mas voltemos ao Governador. A cidade entrou em polvorosa. Todos os alunos foram “presenteados” com duas bandeirinhas de papel: uma do Brasil e outra do Estado de São Paulo. Fomos perfilados, junto aos demais cidadãos colinenses, ao redor do campo de futebol do ginásio, ensaiados como soldados em desfile. A ordem era clara: quando o helicóptero aterrissasse, deveríamos levantar as bandeirinhas e acenar com entusiasmo. Um gesto patriótico, quase coreografado. E então, ouvimos o ronco. Um som metálico, crescente, que parecia vir do além. O helicóptero surgiu no céu como um milagre mecânico e pousou no meio do campo.

 Fomos orientados a não nos aproximar até que as pás do helicóptero parassem de girar — diziam que havia risco de decapitação. Olha que horror! Para uma criança, isso era mais assustador que o filme do Zé do Caixão. Quando o motor finalmente silenciou, todos foram em direção à aeronave. À primeira vista, parecia que os alunos e a multidão que lá estava, queriam ver o governador. Que prestígio!

Mas a verdade era outra.

Quando a comitiva se dirigiu aos carros que os levariam à Prefeitura, os presentes continuaram andando, não atrás dos políticos, mas do helicóptero. Queríamos vê-lo de perto, tocar sua lataria, sentir o cheiro do metal. Eu, particularmente, queria passar a mão naquela máquina e guardar na pele a lembrança do dia em que o céu pousou em Colina.

A primeira vez, dizem, a gente nunca esquece. E eu não esqueci.

JOÃO ALBERTO VIZZOTTO

A ZONA ESTAVA PARADA (*)

Henri de Toulouse-Lautrec

A coisa mais complicada na campanha política é a logística de transporte. O helicóptero, que não anda tão depressa, mas desce em qualquer lugar, tem sido o jeito mais prático de correr o Estado.

Em Peçanha, tem gente que chama de avião de rosca. E foi em um que lá desceu há alguns anos, um famoso político em campanha. Ao apertar a mão do prefeito, foi com intimidade que perguntou como é que estava a zona. O chefe do executivo, sincero, disse que, depois da saída da Ciganinha, tirada de lá para casar com um funcionário federal, a zona estava muito parada. O político visitante, constrangido, corrigiu: é da rural que eu tô falando, sô! Mais que depressa, o prefeito consertou: Tá parada também, sô. Com o diferencial quebrado e o motor fundido, como é que ia andar?

(*) Parágrafo acima foi transcrito da crônica “Contramão”, publicada por Bianca Alves, em 5/9/98 no jornal “Pampulha”.

João Aberto Vizzotto

João Vizzotto nasceu em Colina, São Paulo. Depois de formado em Direito, um concurso público o levou para as Minas Gerais, ha mais de 40 anos. Casado com Ana Maria, têm 3 filhos. Curte a vida de aposentado viajando e lendo os livros dos meus amigos escritores.

Bianca Alves

A autora nasceu em Pedro Leopoldo, escreveu em jornais como “O Tempo” e “Pampulha". Foi vencedora do concurso literário em comemoração dos 100 anos da cidade. É uma grande honra ela ter abordado Peçanha em suas crônicas.

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Respostas de 3

  1. Como percebemos nos belos textos, Helicóptero dá boas histórias, além de transportar os politicos.

  2. Chico. Sem dúvida. E para os que como eu, nunca tinha visto um, e emoção pura!!!

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