Nunca mais o entusiasmo produziu fagulha. Se esgotou de tanto remexer os escaninhos da memória sem encontrar as sensações que deveriam ser usadas no futuro. Elas simplesmente desapareceram como a fumaça no ar. Não juntamos a fumaça que se espalhou, assim como os sentimentos que se foram.
As palavras que lhes traduziam ficaram secas, esturricadas, incapazes de transmitir mensagem que ajudasse. Restava sonhar com a volta dos sonhos e suas imagens antigas. Um sonho que resgatasse aqueles momentos.
A casa, os móveis, as árvores no quintal, os bichos, ainda podem ser vistos pelo menino atrás do vidro da janela, mas não preservaram as suas essências. E o menino há muito se foi. Os sinais trocados, as conexões que nos guiavam ao mundo das coisas extinguiram-se por falta de uso.
Éramos companheiros das pedras, do riacho que corria sobre elas, das árvores que deixavam suas folhas cair e serem levadas, dos bichos que mexiam o nariz antes de atravessar. Agora não identificamos a música que o riozinho toca. E as árvores, tristes, parecem cansadas.
O ambiente continua, nós continuamos. Mas porções dele e nossas morreram. Não conseguimos estabelecer contatos com o que deixou de existir. Quando nos relacionamos através das vontades. Depois da longa ausência desconhecemos o ambiente que outrora era a nossa extensão. Agora, somos recebidos como qualquer outro que não morou lá e juntou histórias. Chegando pela primeira vez.
A escada que vai da cozinha até ao quintal continua, mas não conduz ao jardim, outrora uma lasca do infinito. Pensávamos que ele se manteria assim, para sempre, mas não chegamos até lá.
Difícil saber o momento em que os significados antigos se romperam. Quando deterioraram os fatores que lhes mantinham funcionando e produziram a perda da linguagem, que entendíamos bem. Podemos lembrar dos fatos, mas eles estão despojados dos elementos que impulsionavam as emoções. É como se as lembranças se tornassem cicatrizes.
O coração, ocupado demais em bater, perdeu a sua outra função, a de reconhecer os afetos que tinham importância. Por isso andamos lado a lado com o outro de nós, alguém que perambulava por lá e não temos mais identidade. É como se não conhecêssemos o nosso outro, na penumbra formada quando a noite chegou. Perdemos a antiga sombra, que necessitava da terra para se projetar. Foi preciso reconstruir novas, pacientemente. Outras sombras, depois que tornamos a nascer. Nascer de nós.
A noite sem vagalumes, as antigas estrelas ofuscadas pelas novas luzes.
Mesmo longe, as mães continuavam a pentear nossos cabelos, remendar as camisas, esquentar o leite no frio de junho. Na despedida disseram para respeitar os mais velhos, ter educação, não se envolver em brigas. E arrumar uma boa moça para casar-se.
Deixamos no guarda-roupas o distintivo e a foto da turma do colégio, o canivete suíço, presente do avô, a folhinha mariana pregada com grude. Pedimos ao pai e à mãe que guardassem a nossa infância para quando voltássemos. Foi assim que a deixamos, em direção ao futuro que não existia. A enxurrada continuava escorrendo no meio da rua, depois da chuva ter parado. Um dia voltaríamos.
A infância levada pela enxurrada não voltou. Mas o passado continua dentro de nós, para ser usado na única viagem que não termina: a viagem em direção ao nosso interior.
Desde quando nos mudamos a primeira vez tornamo-nos estrangeiros no mundo. Difícil entender o seu metabolismo. Vivemos de ouvido. O novo mundo jamais será nosso, como foi aquele que abandonamos.
As pessoas, apressadas, não acenam e nem dizem “bom dia”. Mulheres carregam suas bolsas com nomes estrangeiros e os homens tomam café no balcão, em pé. Todos parecem estar nos seus lugares, mas não estão. Permanecem em espaços que parecem não existir. O que chamam de lugar foi construído a partir do nada, uma casa sobre a outra, como se fossem verdadeiras.
Onde está sua mão para eu segurar?
O mundo exige esforço cotidiano para ser compreendido. A falta de reconhecimento ao nosso esforço provoca insatisfação. Sem alternativa, instala-se um sentimento de vingança. Conduzida pela imaginação a vingança é o caminho mais curto que pensamos para solucionar as questões complicadas. Acreditar que a vingança irá desatar o rolo só é possível com ajuda da fantasia. O desejo elabora acontecimentos fictícios que parecem verdadeiros. Os fatos do mundo real se juntam aos outros, nascidos da criatividade insana, e se transformam em algo que concebemos ser a própria realidade. Os vendedores de soluções milagrosas trabalham com este material. Como o pastor, trocando a palavra “desejo” pela palavra “fé”. Se tivermos fé verdadeiramente conseguiremos tudo. Mas a fé está em nós e o mundo efetivo não a conhece. Este método foi tentado pelos despirocados e não funcionou.
A vingança é estéril, porque não traz de volta o que se perdeu. E para resolver uma aflição é necessário criar uma situação nova, diferente da que estamos mergulhados. O conflito com o mal, (palavra usada pelos impostores) não cria soluções. Da mesma forma que o pêndulo de um relógio, que jamais sai da sua trajetória, a vingança está impossibilitada de percorrer caminhos diferenciados no seu eterno vai e vem. Assim, estaríamos presos à situação que pretendemos se ver livres.
Sem possibilidade de alterar o presente, e tampouco refugiar no passado, resta seguir em frente.
“Para fora deste mundo não podemos cair. Simplesmente estamos nele.”
(Christian Dietrich Grabbe)









