Crisóstomo, um pescador de 40 anos que cresceu isolado da sociedade, sonha em ter um filho. Convencido de que “quando se sonha grande, a realidade aprende”, ele parte em busca de relações verdadeiras e inventa uma família. Entrelaçando histórias não lineares em uma trama múltipla e delicada – Crisóstomo desconstrói nossa visão de masculinidade.
O belíssimo Filho de Mil Homens, filme dirigido por Daniel Rezende e baseado no romance homônimo de Valter Hugo Mãe, chegou ao catálogo da Netflix. É possível que a história te pegue logo de início, especialmente para os espectadores que admiram poesia e cinema.
A narrativa é de rara delicadeza – aborda temas como : solidão, relações familiares, pertencimento, empatia, amor, preconceito, machismo, homofobia e carrega até o espectador a chance de pensar novos formatos de família.
Rodrigo Santoro é o centro desta narrativa. Crisóstomo é um homem de poucas palavras, mas cada silêncio carrega imenso significado. São suas pausas e ações que conduzem a obra cinematográfica.
O filme é de grande beleza poética, reafirmada na fotografia e na trilha sonora, que ajudam a dar o tom intimista, reflexivo – tornam a obra em uma fábula sensível. A estética do longa merece destaque – filmado em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA), cada quadro parece aconchegar e embrenhar o espectador no universo daqueles personagens.
O ritmo do filme é bem diferente de muitos outros, lento e contemplativo – a trama se revela aos poucos. A história é sobre amor em todas as suas formas, traz para a tela o lirismo.
A figura de Crisóstomo, interpretado brilhantemente por Rodrigo Santoro é central, o maior feito do filme é fazer navegar pelas emoções deste personagem. A masculinidade contemporânea está ali sendo debatida. Crisóstomo representa uma nova forma de ser homem – ou aparece ali como uma nova fórmula de inspirar a masculinidade – onde a sensibilidade e o afeto são os principais ingredientes de sua composição; Santoro descreveu o trabalho como “mágico e transformador”.
A obra é um manifesto, um sopro de esperança, revelando famílias não-convencionais, mostrando a capacidade de se conectar com a dor e o amor, o universo dos personagens se entrelaçam – um novo tratado sobre empatia e humanidade.
Destaco o bom desempenho do elenco como um todo, a jornada dos personagens explorando feridas, dores e amores – nos faz repensar um mundo barulhento e doente.
O elenco é muito especial – um time de peso e rara sensibilidade: Rodrigo Santoro,Johnny Massaro Miguel Martines, Rebeca Jamir, Grace Passô,Carlos Francisco, Juliana Caldas, Antonio Haddad, Lívia Silva, Inez Viana, Marcello Escorel, Tuna Dwek, Augusto Madeira.
A voz que conduz toda a história é de Zezé Motta, criando uma colcha de retalhos de memórias e emoções, voz única que nos convida a atravessar os universos poéticos dos personagens.
Rodrigo Santoro – em entrevistas sobre o filme afirmou – “Nós perdemos a capacidade de escuta, estamos cada vez mais individualistas, cada vez mais voltados para o nosso mundo, cada vez mais distraídos com tantas coisas, que a gente não se olha mais, não se vê. Eu acho que o Crisóstomo é uma grande inspiração neste sentido.”
Em entrevista ao Estadão em julho deste ano, Valter Hugo Mãe rasgou elogios à adaptação de sua obra – o escritor disse que a versão de Daniel Rezende “não só carrega meu livro, elogia meu livro, ele se emancipa (…), é verdadeiramente a obra de outro autor”. “Eu não podia estar mais feliz com o filme, mais orgulhoso ou mais grato. O filme é a melhor coisa que poderia ter acontecido ao meu livro”, disse ele.
Valter reconheceu ao afirmar: “Daniel Rezende conseguiu deixar o filme melhor do que o meu livro.”
Assistam! O filme é belo, delicado e sensível, uma obra para ser vista e revista.
2025
Netflix
(O filme é inspirado na obra de Valter Hugo Mãe)










Uma resposta
Sim, o filme é M. A. R. A. V. I. L. H. O. S. O. Sim, concordo, é para ser visto e revisto. Li o livro há muitos anos atrás. Lembro de ter gostado muito. Depois do filme decidi reler para então rever o filme.