O parto e a escolha informada / Nunca se falou tanto de saúde mental

Publicado em: 27/02/2026 às 18:52

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1 – O PARTO E A ESCOLHA INFORMADA

Nesta edição, a ginecologista e obstetra Dra. Ana Paula Mourão, neta da saudosa Professora Lulude Mourão, discute questões relativas ao atendimento humanizado, baseado na ciência e no respeito às escolhas de cada uma, que procura oferecer às mulheres de Peçanha, priorizando informação clara, consentimento e protagonismo feminino, especialmente no momento do parto, experiência única e significativa na vida da mulher.

1. Dra. Ana Paula, como é ser  médica ginecologista e mulher em uma cidade onde a maioria dos médicos são homens?

Resposta – É uma experiência muito significativa e muito bonita. Muitas mulheres chegam até mim trazendo histórias de silêncio, vergonha ou medo e sinto que minha presença representa um o  acolhimento que muitas nunca tiveram e aos poucos elas vão se abrindo. Ser ginecologista mulher aqui é, para mim, muito mais do que exercer uma profissão — é construir uma relação de confiança desenvolvida pelo cuidado.

2. Você percebe que as pacientes se sentem mais à vontade para falar sobre seus medos, dores e desejos quando são atendidas por outra mulher?

Resposta – Com certeza. Muitas dizem que sentem como se estivessem falando com alguém que realmente entende o que elas vivem. É realmente o que acontece. Existe uma identificação de mulher pra mulher, uma sensação de não precisar explicar tanto. Isso cria uma conexão entre médica e paciente e elas se sentem mais à vontade, com menos vergonha de se abrir.

3. Na sua experiência, o que muda quando a escuta é realmente levada a sério no atendimento?

Resposta – Muda tudo. Quando uma mulher se sente realmente ouvida, ela relaxa, confia, se sente respeitada e passa a participar mais do próprio cuidado. Muitas vezes, a escuta atenta já é uma forma poderosa de tratamento.

4. Em cidades onde a cesariana virou quase regra, o que se perde quando o parto deixa de ser uma escolha e vira um protocolo?

Resposta – Perde-se o mais importante nesse momento tão lindo na vida da mulher: a autonomia e a singularidade de cada uma. O parto deixa de ser uma experiência vivida e passa a ser algo conduzido de forma automática. E isso pode gerar sentimentos de frustração, de perda e até de culpa que muitas carregam por anos.

5. Quais informações você considera essenciais para que uma mulher possa decidir, de forma consciente, sobre o tipo de parto?

Resposta – Ela precisa entender que o corpo dela é capaz, precisa conhecer os riscos e benefícios de cada via, e entender como funciona o trabalho de parto. Deve principalmente saber que existem diferentes caminhos seguros e, acima de tudo, precisa saber que tem o direito de escolher e de ser respeitada.

6. Você acredita que muitas mulheres fazem cesariana por escolha ou por falta de alternativas reais?

Resposta – Muitas vezes, não é uma escolha livre. É uma escolha cercada de medo, de histórias negativas, de falta de apoio e principalmente de informação. Quando a mulher recebe orientação adequada, vemos que muitas passam a desejar e confiar mais no parto normal.

7. Por que ainda é tão difícil confiar que a mulher sabe ouvir o próprio corpo, especialmente na gestação e no parto?

Resposta – Porque, por muito tempo, ensinaram as mulheres a duvidarem de si mesmas. A medicina, a cultura e a sociedade acabaram tirando delas essa confiança. Resgatar isso, principalmente nesse momento é devolver às mulheres o que sempre foi delas: a sabedoria sobre o próprio corpo.

8. Você acha que as mulheres são, muitas vezes, tratadas como pacientes passivas e não como protagonistas do próprio cuidado?

Resposta – Infelizmente, sim. Ainda vemos mulheres que são apenas informadas do que será feito, sem serem incluídas nas decisões. Mas quando elas percebem que podem participar isso muda e elas se tornam mais seguras, mais conscientes e mais fortes.

9. Por que a dor feminina, principalmente de mulheres negras, ainda é tão minimizada na medicina?

Resposta – Pelas desigualdades e preconceitos que ainda atravessam o cuidado em saúde. A dor feminina ainda é subvalorizada e isso é ainda mais intenso quando somamos questões raciais Reconhecer isso é doloroso, mas é necessário para que possamos mudar e oferecer um cuidado mais justo e humano a essas mulheres.

10. Que tipo de abordagem você acredita que fortalece a mulher, em vez de deixá-la com medo ou culpa?

Resposta – Uma abordagem que acolhe, que explica, que respeita e que não julga. Quando a mulher se sente segura e compreendida, ela se fortalece naturalmente. Quando ela entende seu corpo e se sente apoiada, ela ganha segurança e confiança.”

11. O que precisa mudar na formação médica para que o cuidado com a mulher seja mais humano e menos automático?

Resposta – Precisamos ensinar futuros médicos a enxergar a mulher além do diagnóstico. É fundamental valorizar a escuta, a empatia e a compreensão do contexto emocional e social de cada paciente.

12. Que impacto você acha que médicas mulheres têm na transformação da saúde feminina, especialmente em cidades pequenas?

Resposta – Acredito que temos um papel muito transformador. Muitas vezes somos a primeira profissional que escuta sem julgar, que explica com calma e que valida sentimentos. Em cidades pequenas, isso pode mudar não só a vida de uma mulher, mas a forma como toda uma comunidade passa a enxergar o cuidado com a saúde feminina.

(ANA PAULA MOURÃO – ODETTE CASTRO)

2 – NUNCA SE FALOU TANTO DE SAÚDE MENTAL — E AINDA ASSIM SEGUIMOS SEM SABER NOMEAR O QUE SENTIMOS

Vergonha, autocobrança e dificuldade de reconhecimento ainda afastam pessoas do cuidado psicológico, mesmo em um cenário de ampla informação

Depressão – Adamovich Janna

Você já se sentiu cansado de um jeito que o descanso não resolve? Já percebeu a vida perdendo um pouco de sentido, mesmo quando tudo parece estar no lugar? Ou aquela dificuldade de se concentrar, de sustentar o dia, de estar de fato presente?

O debate sobre saúde mental nunca foi tão amplo. Ainda assim, o sofrimento emocional continua sendo vivido em silêncio. Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria mostram que os transtornos mentais seguem pouco diagnosticados, especialmente a depressão, que costuma se instalar sem alarde. Informação existe. Reconhecimento, nem sempre.

Existe um imaginário persistente de que sofrer emocionalmente é sinal de fragilidade. A depressão ainda é confundida com falta de força ou incapacidade de reagir. Isso produz vergonha. E a vergonha paralisa. Paralisa a fala, o pedido de ajuda, o movimento de cuidado. Mantém a pessoa em um sofrimento que se prolonga no silêncio. Quantas vezes você já evitou falar do que sente por medo de julgamento?

Na clínica, o que mais aparece não é só o preconceito externo. É a dificuldade de reconhecer o que está acontecendo por dentro. Dar nome ao que se sente exige contato com limites, frustrações, histórias que nem sempre foram elaboradas. O julgamento do outro pesa. O próprio costuma pesar mais.

O contexto atual não ajuda. Há uma exigência constante de desempenho, produtividade e exposição. As redes ampliam comparações e criam a sensação de que todos estão dando conta. Publicações do Hospital Israelita Albert Einstein já apontam a relação entre esse ritmo e o aumento de ansiedade, esgotamento e depressão. O sofrimento passa a ser interpretado como falha individual, quando muitas vezes é um sinal de sobrecarga.

No meio disso, surge a frase conhecida: “é só cansaço”. Às vezes é. Mas nem sempre. O cansaço tende a passar. O sofrimento emocional fica. Se atravessa dias, interfere no trabalho, nas relações, no sono, já não é algo para ignorar. Desânimo constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, sensação de vazio, perda de interesse. São sinais que pedem atenção.

Buscar ajuda ainda é visto como fraqueza. Não é. Exige responsabilidade e disposição para olhar para si. Insistir em dar conta sozinho costuma ter um custo alto.

Quando a pessoa se permite pedir ajuda, algo se desloca. Surge um espaço de escuta, de elaboração, de construção de sentido. Não para eliminar a vida real, mas para conseguir atravessá-la com mais recursos.

Tem chegado cada vez mais gente já no limite. Esgotada, ansiosa, com dificuldades nas relações. O sofrimento acompanha o tempo em que vivemos, marcado por pressão, instabilidade e vínculos mais frágeis.

Também chama atenção o discurso de positividade constante. Como se houvesse pouco espaço para tristeza, frustração, angústia. Você já tentou minimizar o que sente para parecer bem? Esse movimento silencia experiências importantes e adia o cuidado.

Nem todo sofrimento exige intervenção imediata. Mas quando ele persiste e começa a comprometer a vida, é hora de olhar para isso com mais seriedade.

Até quando você vai sustentar sozinho algo que já está te atravessando?

Se algo não vai bem, não ignore. Sofrimento emocional não se resolve no silêncio. Procurar ajuda é interromper um processo que tende a se intensificar quando negligenciado. É uma decisão que muda a forma como você vive — e não apenas como você sofre.

(MIRIAM LIMA)

Ana Paula Mourão

Ana Paula Mourão é ginecologista e obstetra, especialista em pré natal, assistência ao parto humanizado e estética íntima. Casada com Davi e mãe do Raul e do Antônio.

Miriam Lima

Miriam Lima é psicanalista com experiência clínica. Mineira, vive em Belo Horizonte. É formada em Terapia Ocupacional pela UFMG, com pós-graduação em Saúde Mental e Psicologia Hospitalar, e atuação em Experiência do Paciente.

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