O Quarto ao Lado é uma adaptação do romance What Are You Going Through (O Que Você Está Enfrentando) de Sigrid Nunez. Este é o primeiro trabalho em língua inglesa de Pedro Almodóvar destacado com o Leão de Ouro de Melhor Filme no 81º Festival de Veneza. Deu também a Tilda Swinton a indicação ao Oscar 2025, de Melhor Atriz.
A morte no cinema sempre foi tratada como algo assustador, terrível e doloroso. Não por um cineasta solar, bem-humorado e de ironia elegante como Pedro Almodóvar. Ao considerar a morte como um fato inevitável e nos apontar a possibilidade de um mínimo controle sobre ela, desloca nossa certeza de um consolo que sempre nos é oferecido através da religião acrescido de um sofrimento inevitável.
Já em “Dor e Glória”, um dos seus filmes mais tocantes, ele perpassa o assunto com cuidado, delicadeza e poesia. Nesse O Quarto ao Lado o tema ganha abordagem mais direta e surpreendente. Estamos falando de eutanásia, termo cunhado pelo filósofo Francis Bacon, no Século XVII, que tem origem grega e significa boa morte. É semelhante ao suicídio assistido, ato de morrer sem dor e com assistência médica nos casos em que o paciente tem doença terminal ou incurável.
O Quarto ao Lado mostra duas jornalistas: Ingrid e Martha, que foram muito amigas quando jovens, trabalharam juntas e seguiram caminhos diversos. Bem-sucedidas em suas carreiras, uma tornou-se escritora e a outra correspondente de guerra. A filha de Martha nunca perdoou a ausência da mãe, que sempre preferiu se dedicar mais ao trabalho.
Com a descoberta de uma doença terminal, uma situação extrema, as personagens se veem diante de um dilema moral. Martha decide pela eutanásia (que é ilegal nos EUA, assim como no Brasil) através de uma pílula adquirida pela Internet, por meios escusos.
– “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade”, assim deixou escrito em carta de despedida o poeta brasileiro Antônio Cícero, que em 2024 optou por suicídio assistido, na Suiça, depois de conviver com a doença de Alzheimer. Em seu poema O Fim da Vida refere-se assim às marcas da nossa passagem pela vida:
Conheci da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.
Ao saber usar as cores como um mestre da pintura, Almodóvar dispõe do verde, do vermelho, do amarelo, do azul, tons que caracterizam sua assinatura visual no cinema, que sempre é extremamente elegante.
O trabalho da equipe de maquiagem, dos figurinos que valorizam as cores que marcam o trabalho do diretor e das locações dão leveza e suavidade aos quadros que se sucedem na tela e amenizam a seriedade do tema.
Faz referências diretas a literatura, a pintura (Edward Hopper) e ao cinema de Ingmar Bergman, Persona, ou ao cartaz de Viagem a Itália, de Roberto Rossellini, que se refere à força vulcânica do Vesúvio em Pompéia, e coloca em xeque a força do amor sobre a morte.
É um filme inspirador, mistura leveza e humor. A sobriedade e respeito com que são tratados temas tão atuais e espinhosos traz um grande conforto e surpreendente otimismo ao expectador. A porta está aberta.
O Quarto ao Lado (The Room Next Door – Espanha/EUA, 2024)
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Tilda Swinton, Julianne Moore, John Turturro.
Duração: 107 min. NETFLIX










Uma resposta
Muito bom Wilson!