Edvard Munch – O Grito
Na obra “Fundamentação da Metafísica da Moral”, Kant apresentou um dos principais conceitos da Metafísica, extremamente válido na construção de uma Ética que se aplica a todos indivíduos. Denominado “Imperativo Categórico” oferece método para conduzir-se eticamente:
“Aja como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.”
Ou seja, devemos agir da forma que todos possam agir. Ele não faz um manual de regras mas oferece algo que possa ser elaborado por cada um, dentro de parâmetros que orientam a todos. A fórmula do Imperativo seguramente pouparia-nos da enorme carga de culpa que carregamos muitas vezes. A poesia do mês, de outro gênio – Victor Hugo – usando a figura bíblica de Caim, escancara com maestria a dificuldade de se livrar da culpa.
A CONSCIÊNCIA
(Tradução de Mário Faccini)
Caim, fugindo de Deus, carregando seus filhos,
lívido, desgrenhado, após mil empecilhos,
certa noite alcançou a paragem estranha
de uma enorme planície, ao pé de uma montanha.
A mulher fatigada e seus filhos exaustos
pararam a sorver o ar em largos haustos.
“É melhor que se durma aqui” – disse ele, então,
e, apenas, não dormiu o assassino do irmão
que, sob o jugo atroz de temores cruciantes,
viu surgirem no céu dois olhos vigilantes,
que o fitavam por entre a escuridão noturna.
“É demasiado perto” – acordou, com soturna
voz, filhos e mulher, já mortos de cansaço,
e a fuga continuou, sinistra, pelo espaço.
Trinta vezes andou a vagar, noite e dia,
Pálido, a estremecer quando um ruído ouvia,
sem sono, sem descanso, emudecido e triste.
Até que viu, por fim, uma praia que existe
em longínquo país. “É seguro este abrigo.”
“Fiquemos” – disse – “Aqui não pode haver perigo,
pois os confins do mundo alcançamos agora!”
E, ofegante, parou. Porém, na mesma hora,
Idêntica visão viu no céu desenhada…
Um temor sacudiu-lhe a carne amaldiçoada!
“Escondam-me” – gritou; e, ao formidável brado,
o bando circundou o avô alucinado.
Esse disse a Jabel, cuja estirpe ainda agora
Nômade caminha pelo deserto em fora:
“Estende deste lado o pano de uma tenda!”
E, enquanto procurava encontrar qualquer fenda
na muralha de lona, a meiga Tsila, linda,
como a aurora, inquiriu-lhe: “Ó meu avô, ainda,
vês qualquer coisa agora?” E apontando com a mão,
respondeu-lhe Caim – “Sim! Os olhos lá estão!”
Foi aí que Jubal, pai dos soldados, vendo
a angústia do infeliz, acalmou-o dizendo:
“É melhor se fazer uma muralha”. E, assim,
um brônzeo muro ergueu-se em torno de Caim.
“Inda os vejo! Inda os vejo!” – este, porém, lhe disse…
Depois falou Enoc: “E se alguém erigisse
um abrigo perfeito e dispusesse em volta
compacta multidão de torres como escolta?
Façamos uma forte e grande cidadela
e encerremos Caim conosco dentro dela!”
Então Tubalcaim, o ancestral dos ferreiros,
empregou nessa empresa os seus dias inteiros,
ao passo que os irmãos, pela planície em frente
vigiavam. E, ao encontrar alguém, barbaramente
atacaram , com raiva os olhos lhe vazando;
Levando toda a noite o céu trevoso olhando,
e, assim que viam nele uma estrela brilhar,
Lançavam-lhe uma seta, ansiosos de a cegar!
E a lona deu lugar a moles de granito
Presas com nós de ferro. O recinto maldito
ficou sendo um primor de cidade infernal,
desenrolando a sombra, além, de um modo tal
que em derredor reinava uma noite infinita;
da rígida muralha a grossura inaudita
somente uma montanha a podia igualar;
Na porta alguém gravou: “Vedado a Deus entrar”.
E a torre mais central, a mais fortificada,
Foi que elegeu Caim para sua morada.
“Ó meu pai! – disse Tsila – Agora certamente
te sentirás seguro!” E Caim, já descrente
e a tremer de pavor, respondeu: – “Maldição!
Ainda me persegue a maldita visão!…
Só me resta tentar o negro insulamento
de um tétrico sepulcro! O meu padecimento
há de acabar então! Nessa nova morada
ninguém mais me verá e não verei mais nada!”
E ei-lo, então, encerrado em um fosso, por fim.
… mas os olhos lá estão, a interrogarem Caim! …
Victor-Marie Hugo (1802 – 1885) foi um grande intelectual e lutador pelos direitos humanos. Dentre suas grandes obras, está Os Miseráveis, atual, como os clássicos, e que foi até musical da Brodway.









Uma resposta
Muito bom !