Poltrona 27

Publicado em: 30/08/2025 às 14:20

Atualizado em: 30/08/2025 às 17:40

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Carlos Herculano Lopes  Natural de Coluna, leste de Minas, escreveu sobre a viagem de ônibus que fazia frequentemente. Com seu enorme talento, retrata as viagens que todos nós, daquelas bandas, fazíamos. A nossa Odisseia e o seu grande teor de vida. Abaixo, reproduzimos as partes do romance notável que falam de Peçanha. 

“…Durante a viagem, mas calmos e tentando nos esquecer do que havia acontecido, minha mãe prosseguiu com a história da família e me contou como era que o seu pai a levava a cavalo para Peçanha, onde, durante oito anos, estudou em um colégio interno até se formar no magistério, para depois volta a viver em Santa Marta, começar a dar aulas e se casar com o meu pai. Ele que em seguida, já dono de uma pequena farmácia – onde passou a maior parte da sua vida – e metido de vez na política, se candidataria a prefeito da cidade. Com atenção, às de olhos fechados para guardar tudo, escutei o relato da minha mãe que, como os outros, vou tentar transcrever aqui.” (Capítulo 31)

“Dias antes da viagem, que era um acontecimento, seu pai começava os preparativos. Cuidava de tudo, se ocupando de todos os detalhes. Havia comprado um cavalo pequeno, o qual recebeu o nome de Andorinho. Deu de presente para minha mãe Também mandou fazer uma sela no Rio Vermelho, encomendou um pelego branco e capas Ramenzoni para protegê-los da chuva. Um alforje bordado, no qual levavam biscoitos, goiabada com queijo e farofa, que comiam na beira de algum córrego quando paravam para descansar, umas quatro horas depois de terem começado a viagem, que até Peçanha, sem exigir muito dos animais, durava três dias, numa marcha lenta, sem pressa.      

Para minha mãe, era sempre uma aventura, apesar da tristeza em estar deixando sua casa, à qual só voltaria nas férias, seis meses depois, ou, dependendo das circunstâncias, apenas no ano seguinte. Sempre chorava na hora de ir embora. Para distraí-la, como se ainda fosse uma criança, seu pai ia repetindo histórias. Mas as contava como se fosse a primeira vez e estivessem todos os irmãos ao seu redor nas noites frias de junho, em volta da fornalha: da Moura Torta, de Joãozinho e o pé de feijão, dos três cachorros encantados: Rompe Ferro, Corta-Vento e Acode com Tempo. Da Rapunzel. Da família – e dele próprio – que também gostava de ler. Uma vez, indo para Diamantina numa das únicas viagens que fez acompanhando uma tropa, escreveu uma poesia para a minha avó quando passavam pela Serra do Gavião. Ainda a tenho e guardo, com algumas cartas dele, disse minha mãe, que adorava ouvir aquelas histórias. Para ela, ainda são como um acalanto, principalmente nas noites de solidão, quando, sozinha no seu quarto, se deixa levar pelas lembranças. Tanto que uma vez foi ao Sebo do Amadeu, no centro de Belo Horizonte, e pedi a ele que desse um jeito e conseguisse para ela um livro no qual pudesse encontrá-las de novo, pois de algumas daquelas histórias havia se esquecido. Como sinto falta do meu pai!, e a minha tristeza é de vocês não o terem conhecido. Há pouco tempo, nos 50 anos da sua morte, meus irmãos e eu mandamos celebrar uma missa em sua intenção. Parece até que ele não morreu e que continuo a criança que nunca deixei de ser, prosseguiu, com lágrimas nos olhos.

Mas para a minha mãe, que pensava no pai todos os dias, era como se ainda estivessem indo para Peçanha, passando na casa do seu Duca Machado, em Jacuri, onde dormiam a primeira noite. Fazenda grande, assobradada, com uma cozinha imensa e tantas frutas no quintal: jabuticabas, laranjas, pêssegos, ameixas. A quantidade de trabalhadores, os enormes currais cheios de gado, Dona Adelina, dona Rosa. A sua amizade com Merania, uma das filhas do fazendeiro. Depois atravessavam o Suaçui na canoa; cruzando a serra das Araras, onde sopra um vento forte que parecia cortar a pele. Paravam em alguma venda, onde seu pai pedia bala doce, senão iam entender que estava querendo era munição. Em seguida, vinha a chegada a Cantagalo, e só mais uma marcha até Peçanha, de onde ela disse guardar algumas das suas melhores lembranças.” (Capítulo 32)

Tudo isso naquela viagem de volta para Belo Horizonte, depois de tantas coisas tristes que tinham acontecido em Santa Marta, minha mãe ia contando, enquanto o ônibus, lotado, avançava estrada afora. Ela falou também da Rua da Bomba, a mais alta de Peçanha, de onde se avistavam os vales do Rio Doce e Jequitinhonha. Da Mãe-d’água, um lugar, no seu tempo, de se fazer piquenique com as irmãs, que jamais tiravam seus hábitos, nem nos dias de mais calor. As internas ficavam em fila, de cabeça baixa, pois eram proibidas de olhar para os lados, onde podia estar algum desses rapazes, que sempre as seguiam de longe, enviando bilhetes ou então acenando para elas, que davam um jeito de retribuir, nem que fosse com um sorriso ou um balançar de dedos.

Minha mãe contou ainda sobre o morro do Segredo, do porquê daquele nome, das Bancadas, de onde se avistava toda a cidade. Da rigidez do internato, dos banhos tomados de camisola, pois não era permitido ver o próprio corpo, para não cair em tentações. Das amizades que fez por lá, dos rapazes que se apaixonaram por ela. Das cartas recebidas, muitas das quais ainda guarda. Da sua formatura, da qual meu pai, com quem já estava namorando, não chegou a participar, pois houve um desencontro e ele não teve como assistir à cerimônia, que foi realizada com todas as pompas, porque tornar-se professora naquele tempo era uma glória, feito conseguido por poucas famílias. O discurso da paraninfa, convidada meses antes por carta, com todas as deferências. As formandas em fila, recebendo com orgulho seus diplomas. Muitas temiam de emoção e choravam. O baile, e depois a volta para Santa Marta, o amadurecimento do namoro, e o pedido de casamento, feito com todas as formalidades, como mandavam as regras.” (Capítulo 33)

Carlos Herculano de Oliveira Lopes

Carlos Herculano de Oliveira Lopes nasceu em Coluna, Vale do Rio Doce, Minas Gerais e vive em Belo Horizonte desde a adolescência. Jornalista e membro da Academia Mineira de Letras tem vários livros publicados e inúmeros prêmios. (*) Editora Record - 2011 - Copyright Carlos Herculano Lopes, 2010

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