Edvard Munch – Melancholy
DE QUE NOS ARREPENDEMOS
Há alguns anos, João Pereira Coutinho publicou na Folha de São Paulo uma crônica tocante que vale revisitar. Referia-se nela a uma entrevista realizada com um jovem português que sobreviveu a ato de terrorismo em Londres. Assediado pela mídia, ferido em cadeira de rodas, dizia que sentia ter agora uma segunda vida. E os jornalistas perguntaram o que ele iria fazer com essa segunda vida. Simplesmente respondeu: quer ir à Portugal, visitar a avó que não vê há anos e, no futuro, não devotar toda a sua existência ao trabalho.
Provocativo como lhe é peculiar, o colunista português relativiza o depoimento do sobrevivente profetizando que o tempo cura tudo: “até a lucidez”. E poderia ser que em breve o Francisco Lopes (nome do sobrevivente) volte ao mesmo adestramento que a vida nos impõe, a girar infinitas vezes a roda funcional que os hamsters pedalam, em experimentos científicos. Mas ele próprio se questiona: talvez não.
A partir desse singelo e sensível “talvez não”, o autor relaciona uma série de depoimentos de pessoas que estiveram perto da morte ou que estavam em estado terminal, colhidos por uma enfermeira australiana, especialista em cuidados paliativos que resolveu partilhar, em um livro, os cinco maiores arrependimentos daqueles que viu morrer. São esses arrependimentos que passo a citar.
O primeiro: Viver a vida que os outros esperavam que eles vivessem. E, assim, não se perdoavam a si próprios pela covardia, pela acomodação e pelo constante adiamento do dia em que a verdadeira vida começaria. Ou seja, raros são aqueles que têm a coragem de viver a vida que desejam.
O trabalho em excesso vinha em segundo lugar. Entre os doentes, havia uma difusa sensação de traição: por que investira tanto nas virtudes da responsabilidade, do esforço e da excelência? Para quem se sacrificaram tanto? Onde estava a justiça do “acordo” social segundo o qual teriam a merecida recompensa?
O terceiro arrependimento derivava das relações com o outro. Da incapacidade de expressar os sentimentos exatos – as palavras que não foram ditas, ou as palavras mal ditas.
O quarto arrependimento foi o de não ter mantido contato com os amigos e, assim, não ter usufruído das pessoas que realmente importam.
Finalmente, como consequência talvez dos anteriores, não terem se permitido ser mais felizes.
Pessoas entrevistadas em São Paulo acrescentaram outros arrependimentos: não ter ajudado alguém que precisava; ter sido injusto; não ter viajado o quanto gostaria; não ter se dedicado aos filhos.
O mais importante, no entanto, é que as pessoas fazem suas escolhas baseadas no que acreditam que os outros querem e, posteriormente, experimentam o ressentimento por não terem recebido o esperado reconhecimento ou reciprocidade. Mas… esperar por quê? Ninguém nunca lhes pediu que deixassem de fazer o que era importante para si.
Dessa forma, voltamos ao essencial: qual é a nossa escolha? Em nome de quem a fazemos? Que preço estamos dispostos a pagar? Por que permanecemos em situações que nos fazem infelizes?
A resposta não é fácil. Especialmente porque as responsabilidades coletivas muitas vezes se sobrepõem aos desejos e vontades individuais e particulares. Talvez o nosso trabalho muito nos recompense psicologicamente. Talvez sem ter engolido alguns sapos, não teríamos tido acesso a outras coisas importantes. Talvez os nossos amigos não seriam tão amigos assim. Talvez descobrir o cosmos na própria aldeia não tenha sido tão má ideia.
Mas talvez, quem sabe, possamos buscar mais equilíbrio e ser mais cuidadosos com as nossas escolhas diárias. Quem sabe possamos olhar também mais para os créditos do que para os débitos da vida. Quem sabe?
Autora: Georgina Alves Vieira da Silva
COMPLETOU UM ANO QUE MEU IRMÃO MORREU

Completou um ano que o meu irmão morreu. Resolvi aproveitar a data para finalmente escrever e publicar. Provavelmente foi o texto mais difícil da minha vida, mas eu tinha que escrevê-lo para esclarecer algumas questões que acho importantes em relação ao que aconteceu e trazer certas reflexões que esse episódio me proporcionou.
O Arthur era uma pessoa muito querida e tenho certeza de que a morte precoce dele impactou muita gente e pegou todo mundo de surpresa. Por ter marcado a trajetória de muitas pessoas, provavelmente nem todos aqueles que gostavam dele e sofreram com sua partida ficaram sabendo o que ocorreu. Pensando nisso, resolvi falar abertamente sobre o assunto. Ele morreu por uma parada respiratória ocasionada por uso indevido de remédios e outros fatores.
No fim do ano passado, ele estava em um bom momento (tinha depressão desde 2012 e vivia de altos e baixos desde então) e decidiu viajar com um amigo para São Paulo. Gostava muito da cidade e dos nossos parentes que moram lá e estava numa expectativa muito grande para a viagem. Eles foram numa terça-feira. Ficariam hospedados em um hotel. Na quarta foi o primeiro dia de um torneio de pôquer que o amigo dele jogaria e eles foram juntos para o local onde ocorreria a disputa. Ele resolveu voltar mais cedo. Antes de dormir, enviou uma mensagem de áudio pedindo que o amigo trouxesse um salgado e o acordasse quando voltasse, pois ainda não havia comido naquele dia e queria saber como tinha sido a performance no torneio. Isso era no início da noite (ele estava com hábito de dormir muito cedo), e não sabemos ao certo o que aconteceu desse momento até o final da madrugada, quando o amigo chegou ao hotel e encontrou o Arthur já sem vida.
O momento em que o Arthur nos deixou foi completamente inesperado, mas diante da situação que vivíamos há vários anos, a partida dele acabou sendo tranquila. Aparentemente ele não sofreu, morreu enquanto dormia, e foi em paz com todos nós e consigo mesmo. Estava em uma fase boa, fazendo planos futuros de tentar voltar à faculdade, entusiasmado com o trabalho junto ao meu pai na empresa dele, animado para encontrar com nossos parentes de São Paulo no fim de semana seguinte… Tudo isso foi um consolo para nós de certa forma.
A verdade é que acompanhar de perto os últimos anos do Arthur foi uma experiência muito pesada para todos que eram próximos dele, e para mim de um modo mais intenso, por ter dividido não só a casa, mas o mesmo quarto com ele desde que nasci. Desde que ele foi diagnosticado com linfoma capilar, ainda em 2011, e começou a ter problemas de calvície em virtude disso, uma série de obstáculos que a vida o apresentou foi formando uma bola de neve na mente dele. Rompeu o ligamento do joelho jogando futebol no fim de 2012, tendo que fazer uma cirurgia e ficar afastado por vários meses de uma das suas atividades preferidas. Esse afastamento inicialmente seria temporário, mas acabou se tornando permanente, uma vez que, por ele não ter feito o tratamento de forma correta, nunca conseguiu se livrar das dores que sentia. Sem fazer atividades físicas de forma regular, começou a ganhar muito peso, o que prejudicou intensamente a sua autoestima e agravou o seu quadro depressivo.
Todo processo da doença, que antecedeu sua morte, serviu para me fazer refletir sobre o tanto que a relação da nossa sociedade com a vida não é saudável. Então queria usar essa tragédia para tentar impactar de alguma forma positiva pessoas que gostavam do Arthur e sofreram com a sua partida, como eu, ou até mesmo outras que não o conheceram mas se identificam com a história dele e da minha família.
Hoje em dia somos obcecados com as aparências. É muito pretensioso apontar um único culpado para isso, mas acredito que as redes sociais têm uma responsabilidade enorme nesse aspecto. Vivemos com a necessidade de saber o que os outros pensam a nosso respeito, de tentar nos adequar às expectativas alheias em relação à nossa própria vida, ainda que tudo aquilo que elas mostram publicamente das suas vidas nessas redes seja apenas um teatro tosco e repetitivo. Imaginem tudo isso para uma pessoa com depressão. Que nasceu em uma família de classe média alta, estudou a vida inteira em um colégio particular, teve todo um cenário favorável para o seu desenvolvimento pessoal e profissional e, após ser aprovada em Direito na UFMG, resolveu largar a faculdade e nunca mais conseguiu dar continuidade em nenhum outro curso ou emprego. Como a sociedade se pergunta, um jovem que atingiu o ponto alto de sua vida perde o rumo dela de forma tão avassaladora e rápida? Sim, porque para essa mentalidade infame e reducionista que infelizmente é reproduzida por muitas escolas “de ponta” e sob a qual somos educados, passar em um “bom curso” em uma faculdade renomada é o ápice da vida de um jovem. E quando alguém consegue alcançar esse grande feito, as pessoas, do alto da sua insaciabilidade, se sentem no direito de continuar cobrando dessa pessoa que siga um caminho engessado para a sua vida.
Mas quem definiu que tem que ser assim? A vida cospe na cara de todos esses roteiros. Ela não conhece o conceito de linearidade. É extremamente arrogante da nossa parte achar que temos o controle do que vai nos acontecer, que temos o direito de definir um mapa comum que deve ser seguido por todos que quiserem ser bem-sucedidos na vida.
A nossa própria noção de sucesso é completamente distorcida. Pode ser clichê, mas todos os títulos que temos, todos os diplomas, dinheiro e afins não significam nada perto das relações que desenvolvemos uns com os outros. E pra mim toda relação que almeja ser saudável obrigatoriamente deve perpassar por duas questões indispensáveis: respeito e empatia. Muitas vezes ignoramos esses pilares sem perceber. Quando julgamos alguém por levar a vida de uma forma diferente da nossa, por exemplo. Por ter gostos diferentes, crenças diferentes, etc. E não precisa de muito, porque pra quem sabe ler um pingo é letra. E se tem alguém que sabe ler muito bem são as pessoas em um estado de vulnerabilidade maior.
O Arthur era uma delas. Ele também cresceu com todos esses conceitos distorcidos, assim como eu, afinal de contas nenhum de nós foi criado numa bolha à parte da sociedade. Portanto, a autocobrança dele por si só já era algo completamente sufocante. Via os amigos seguindo a “estrada real” da vida e se dava conta de que em algum momento ele desviara dela, mesmo que não tenha sido de forma voluntária, mesmo que não tenha sido por sua culpa. Via as pessoas com as quais ele cresceu se formando na faculdade, arrumando empregos promissores, engatando namoros sólidos, enquanto a luta dele era simplesmente pela sobrevivência. A pior coisa pra uma pessoa nessa situação de autocobrança excessiva é sentir uma cobrança alheia que acabe legitimando toda essa visão terrível que muitas vezes ela tem de si mesma. Isso é o combustível ideal para o indivíduo se colocar em uma situação de isolamento, a fim de se expor o mínimo possível, esperando, assim, estar longe dos holofotes. Eu vi isso no meu dia a dia. Incontáveis vezes. Festas de amigos que eu ia sozinho porque ele não queria aparecer por não se sentir confortável em um ambiente no qual as pessoas viriam perguntar sobre a sua vida, o que estava fazendo, faculdade, trabalho e etc. Quantas vezes tive que inventar alguma desculpa ou enrolar para não falar a verdade a respeito da situação em que ele se encontrava! Nesses momentos, percebemos o quão crítica é a situação. Porque uma simples pergunta despretensiosa, que muitas vezes faz parte de um esforço para sermos simpáticos, pode ser um fardo gigantesco para o nosso interlocutor. E não fazemos ideia disso. É como a fala memorável do Coringa, personagem tão querido pelo Arthur, que infelizmente não teve a oportunidade de assistir ao seu último filme, mas sem dúvidas teria amado a obra e se identificado com esse raciocínio: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.
Um dos momentos mais marcantes pra mim em relação à morte do Arthur foi quando minha mãe me pediu pra dar a notícia ao meu avô. Eu sentei ele no sofá e, como não sabia como abordar o assunto, simplesmente falei na lata: “Vovô, o Arthur morreu”. Ele respirou fundo e me disse que era uma pena, mas que a vida que ele estava levando era muito complicada. Fiquei espantado com essa “frieza” a princípio, mas depois fui entender melhor. Meu avô estava com 84 anos. Nesse tempo, já teve que lidar com a morte de tantos entes queridos, que, pra ele, por mais trágica que fosse a partida do meu irmão, aquilo era um episódio natural da vida. Depois, com os meses passando, eu vi que realmente a gente só começa a conhecer a vida de verdade depois que lida de perto com a morte. Já tinha vivenciado a morte de parentes mais velhos, mas era algo “esperado”. Só mesmo quando foi a vez do irmão de 25 anos que eu fui entender. Não temos a noção de finitude; sempre esperamos uma segunda chance, uma continuidade, algo temporário. O permanente acaba sendo inconcebível. Principalmente em uma sociedade em que tudo está em transformação o tempo todo. Mas ele existe, e a melhor forma de nos preparar para enfrentá-lo é administrar bem o agora, o temporário.
Agradeço a Deus por ter levado o meu irmão em um momento de paz, quando já estávamos há muito tempo sem brigar, quando ele estava com uma relação boa com toda a minha família, amigos e, principalmente, consigo mesmo. E vejo hoje que ele entendia como poucos a importância dos pontos que citei, às vezes até mais do que seria saudável para ele entender. Sabia cultivar o seu relacionamento com o próximo, se interessar de verdade pela vida dos outros, enxergar quem precisava de ajuda, e queria resolver tudo no mesmo instante. O Arthur era uma pessoa imediatista por natureza; esse era um dos seus maiores defeitos. Tinha pressa pra fazer tudo. Queria enriquecer rápido, comer rápido, dormir rápido… O presente era tudo que ele tinha, parecia que sabia o que estava por vir. Ironicamente a passagem dele por aqui, assim como todo o resto, também foi muito rápida.
Pra nós que ficamos, no entanto, o maior legado que ele deixou foi exatamente o fruto da sua relação tão intensa com o agora: a necessidade de demonstrar seus sentimentos para as pessoas. De falar com elas de amor, de gratidão, de depressão, de suicídio e de tudo o que contemplasse o carrossel de emoções que era a sua vida. Ver o impacto bonito que ele deixou em tanta gente que conviveu com ele por muito ou por pouco tempo é a maior inspiração que eu posso ter para fazer o exercício diário de tentar aplicar tudo isso na minha vida. E se este texto conseguir despertar pelo menos um pouco disso em ao menos uma pessoa que tenha lido até aqui, já vai ter valido a pena toda a espera de um ano para finalmente escrevê-lo.
Autor: Victor Cordeiro










