Foto: André Massahud. Acervo do projeto de pesquisa “Facilitando a troca de conhecimento entre cidadãos e formuladores de políticas através de mapeamento participativo dialógico” desenvolvido pelo Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Escola de Administração de Empresa de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP/CEAPG) em parceria com a Universidade de Warwick (Inglaterra).
Esses dias tive uma conversa interessante com amigos que trabalham no campo da tecnologia. Eles me diziam como a inteligência artificial será relevante na construção de soluções para problemas sociais. Não tenho dúvida de que isso pode acontecer e que pode ser um benefício enorme. Mas e quando a barreira é mais do que o simples acesso à serviços, qualidade da informação, desburocratização, etc, e sim a participação enquanto parte legítima no diálogo social?
Explico melhor. Em diversos territórios periféricos do nosso país, a inteligência artificial jamais seria capaz de priorizar e organizar processos e projetos de forma justa. Isso porque o conflito social e a negação de direitos são tão profundos que apenas a mediação humana é capaz de diagnosticar fielmente os problemas. Não somos acostumados a qualificar dados quando dizem respeito às populações periféricas. E aqui está o ponto central: apenas o ser humano, a partir da escuta e do diálogo, é capaz de qualificar dados que revelam desigualdades e subjetividades “invisíveis”.
Softwares trabalham com sistemáticas quantitativas que, embora relevantes, nunca foram e nunca serão capazes de colocar a periferia como centro das políticas públicas. O mapa de dados que aponta uma comunidade como “área de risco” não diz nada sobre os afetos, os sonhos e os modos de viver daquele território. O gráfico que mede evasão escolar não revela as histórias de jovens que abandonam a escola porque precisam trabalhar para sustentar a família. O indicador de saneamento não traduz a experiência cotidiana de conviver com a falta de água limpa.
É justamente aí que entra a participação social. Pela minha própria experiência, pude constatar que a priorização das demandas junto às comunidades garante uma efetividade muito maior do produto final, seja ele uma política pública, um projeto social ou uma simples intervenção cultural. Isso porque não basta entregar algo para as pessoas; é preciso construir com elas. Quando esse movimento acontece, o impacto não é apenas mensurável em indicadores, mas também perceptível no cotidiano e na autoestima coletiva.
Metodologias de escuta e mediação participativa têm um papel decisivo nesse processo. Os mapeamentos afetivos, por exemplo, permitem que moradores apontem, em um mesmo território, os lugares de dor e de afeto, revelando como a cidade é vivida e não apenas como é planejada, ou não planejada. Os diagnósticos socioterritoriais ampliam essa perspectiva ao sistematizar, em conjunto, os problemas mais urgentes e as potencialidades locais. Já as rodas de conversa, oficinas participativas e assembleias comunitárias são espaços em que dados se transformam em narrativas, e narrativas se transformam em força política.
Essas metodologias não substituem indicadores técnicos, mas os qualificam. Onde o dado oficial enxerga apenas um bairro com alto índice de desemprego, a escuta comunitária pode mostrar que há jovens com enorme potencial criativo em busca de oportunidade. Onde a estatística fala em déficit habitacional, a participação revela que há famílias que, mais do que uma casa, reivindicam acesso à infraestrutura básica e reconhecimento de sua história.
Esses métodos não apenas produzem dados, mas também fortalecem vínculos de confiança e ampliam a sensação de pertencimento. Um dado produzido coletivamente não é apenas informação: é também um convite para que os próprios moradores se reconheçam como protagonistas da transformação de seu território.
Por isso, considero perigoso acreditar que a tecnologia (sozinha) dará conta do desafio. Ela pode ser uma aliada importante, claro, especialmente quando facilita o acesso à informação e melhora a gestão de processos. Mas sem o componente humano da escuta, da mediação e da construção coletiva, qualquer política ou ação corre o risco de nascer distante da realidade e, portanto, ineficaz.
A inteligência artificial pode automatizar tarefas, mas só a inteligência coletiva pode legitimar decisões. E a inteligência coletiva só existe quando há espaço para participação social real, onde a comunidade não é apenas “objeto de estudo”, mas sujeito ativo da transformação.
Se quisermos cidades mais justas e políticas públicas mais eficazes, precisamos aceitar uma verdade simples: não existe dado neutro. Existe dado qualificado pela experiência humana ou reduzido à frieza das estatísticas. E é na capacidade de articular esses dois mundos: tecnologia e participação que reside a chance de construirmos soluções que realmente transformem a vida de quem está à margem. Precisamos garantir que a voz desses territórios seja não apenas ouvida, mas incorporada como parte do centro das decisões. A inteligência artificial pode automatizar, mas só a inteligência coletiva pode humanizar.










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Excelente texto.