MEMÓRIA É PRESENÇA
Prosadora de ofício não sou, mas aceitei o convite. Mesmo sabendo que , além da história, minha alma também se revelaria.
Logo, a mão canhota começou a se agitar para um voo de ré, como fazem os pássaros saudosos. E pouso com os pés descalços, para pisar de mansinho,onde meu espírito repousa e se recompõe: Quenta Sol, a rua que começa um pouco depois de uma lateral da Igreja e que termina no Largo do Rosário. Bem aventurada!
Quem consegue esquecer a rua da sua infância, enorme de histórias e de afetividade?
Lá estão as casas…
aquela onde nasci, a da avó e o Sobrado de todos, de cada um a seu tempo.Tudo num único quintal,sem cercas e muros.Uma família grande ali, todos juntos,companheiros, fraternos.
E o quintal?Um paraíso com água própria,árvores, frutos, flores.
A Igreja,quase no início da rua, com seu sino,era um convite diário para contemplar o sagrado. Os ritos,muitas vezes,eram enriquecidos pelo som do harmônio(uma espécie de órgão), comandado pelas mãos da Maria “Claudina”. Maravilha!
E o mês de maio chegava, trazendo as coroações à Nossa Senhora, que enchiam de anjos os nossos dias.
Junho era e é dele, Santo Antônio, tão importante, que merece um texto “solo”.
Palavra puxa palavra e ideias e a importância lembra os vizinhos: amigos, solidários, confiáveis.
Quenta Sol foi palco das brincadeiras, inúmeras, com bola, corda, anel, até com enxurrada. Mas o destaque deixo aqui para uma gangorra infantil, improvisada,num espaço de grama rala, em frente ao Sobrado. Ali, lições nos foram passadas: equilíbrio, dualidade da vida(estar em cima e por baixo), parceria…
Outra atração da rua eram os ladrilhos que revestiam a fachada de uma das casas: eram patos ou cisnes(?) bem dispostos e delineados, que o tempo substituiu por uma pintura comum. Vi, desapontada, a novidade.
A vida era devagar, no sobe e desce dos caminhos, mas poderia ter sido mais devagar ainda, já que me esperavam perdas enormes. Ela, com sua escrita torta, distanciou-me das árvores que me deram sombra e tanto acolhimento.
Grande hiato! Até que as linhas retas me indicaram um retorno físico, que aconteceu uma vez, duas, setenta vezes sete. Mas uma nostalgia transbordava: onde a família enorme e completa? Onde estão as fachadas das casas?onde eu mesma,aquela pessoinha, perdida em tantas ausências?
Lembrei-me da minha casa cor de sol e sorri ao rever como foram os começos. E me alegraria ainda mais: soube que a rua dos meus amores passou a ser chamada oficialmente de prefeito Antônio Vítor, através de um decreto do prefeito da época, Odilon Caldeira.
Se até aqui tanto afago já me bastava, o “tal do Vivite”, esse que vive o seu tempo para dedicar às causas de Peçanha e de seus conterrâneos, recebeu uma homenagem do poder executivo local, o prefeito Fabrício Alvarenga,a vice Aline França e os vereadores – um marco com sabor de eternidade,afixado no início da rua do Quenta Sol.Atualmente, esse espaço é uma graciosa pracinha.
Tantas expressões de reconhecimento e de afeto me impedem de partir de novo. E me levam a cantar a antiga canção popular assim: essa rua , essa rua é minha…
Junto, ouço o ruído dos primeiros passos , abençoando a minha caminhada de pés descalços da pressa e do supérfluo.
Contei histórias, brinquei, cantei e continuo cantando a canção de apreço e de gratidão pelas experiências que vivi na rua mais querida de Peçanha.
Você também acha?
“Então, somos um par.”
Ps: Essa frase entre aspas é da escritora norte americana Emily Dickinson.
A foto que ilustra o texto foi cedida pela Cesá, irmã do Zé da Mi, da Gagaça e do Fernando.
Minha foto foi tirada pela Isabela, minha sobrinha.
Escrevo de mãos dadas com a minha família. Parcerias…










Respostas de 7
Maravilhoso o texto. Um verdadeiro poema em prosa!
E eu que nos longínquo caminhares de Governador Valadares à Guanhães, quando trabalhava na ACAR/EMATER-MG, passava por Peçanha apressada sem sentir a beleza da Rua do Quenta Sol, nome mais que propício para o calor que tem feito.
No Instagram dissemos que o texto era um sublime poema em prosa, que a Heloisa gentilmente nos brindou.
Que texto lindo! Eu que não conheço a Rua do Quenta Sol, consegui ver e sentir toda a alegria e afago ali vividos! Que delícia de leitura! 🥰
Heloísa nos presenteou com um texto magnífico. Muito obrigada!
Suposto, em falar da lendária Rua do Quenta Sol,por razões super afetivas,porém respirei e emocionei com o relato tão real,da Prima Ló
É um poema em forma de prosa , uma declaração de amor à rua em que nascemos . Parabéns, Heloísa!
Não sou de Peçanha nem vivi as histórias aqui contadas. Aliás, as vivi no imaginário ouvindo meu sogro e o Antônio Augusto contá-las muitas e vezes. Esse texto é incrível e esse nome de rua é apaixonante. O vi pela primeira vez no livro “Rua do Quenta Sol”. Lendo o texto o coração ganha, por tabela, um quentinho solar e memorial.