Rua da Fonte Grande – Uma vida, muitas lembranças

Publicado em: 30/08/2025 às 14:25

Atualizado em: 31/08/2025 às 12:06

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Raimundo Costa - Óleo sobre tela

Em 10/11/1931, ali nasci, cresci, brinquei, estudei, casei e, também ali, na Rua Fonte Grande, nasceram meus três primeiros filhos: Sincero, Luís Alberto e Ana Maria.

Era uma rua nossa; poucas casas, pouca gente… Tudo amigo… uma dor de dente do vizinho era um alarme! Todos queriam medicar, já trazendo um molho de folhas.

A nossa rua era larga, sem canteiros, mas cheia de árvores altas que nos dava sombra e servia de poste para amarrar os animais dos fazendeiros que vinham para as Missas aos domingos ou fazer seus negócios. As árvores também davam uma frutinha redonda, chamada tibi que a criançada aproveitava para jogar buraquinho.

Eu era muito moleca, brincava de tudo que os meninos brincavam pois meus irmãos mais velhos eram meninos: Carlos e Sebastião.

Levei duas grandes quedas nessa minha rua: a primeira, brincando em madeira de entulho, na construção da casa do Ismar Claudino, (antes morava a Rosa Baiana, senhora alta, criatura prestativa, curava a gente quando estávamos de quebranto ou ventre virado); aí um prego enferrujado rasgou a minha perna, deixando cicatriz ainda hoje. A segunda queda foi bem assustadora: no terreno em construção da casa do João Gomes, hoje do Lili do Zilinho, caí do alto de uma goiabeira sobre monte de pedras. 

Moravamos entre duas casas antigas: a da Verônica, (quando mamãe não dava conta do almoço, no horário de ir para a escola, apelava para a Verônica) e a do meu avô João Cardoso, onde ficavam seus netos, meus primos, para estudar. Na porta da casa havia uma pedra grandona onde nos sentávamos para contar estórias.

Principiando a “Rua Fonte Grande”, lá estava, majestosamente erguida, a casa Paroquial, construída pelo Padre José Pereira do Amaral. Foi o seu primeiro morador; me batizou dia 25/12/1931. Que casa! Eu me perdia lá dentro. Como eram deliciosos os biscoitos e docinhos da Dona Mariinha, irmã do Padre Amaral. Eu achava esquisito era ver o Neve, o cachorrinho muito branco, comendo na mesa com eles.

Bem no meio da rua, em frente à casa da Banda de Música, naquela época casa das Moreiras, havia um chafariz, onde buscávamos água para tudo: banho, fazer comida, beber, lavar roupa; vinha do parque Mãe d’Água. Quando meus filhos eram pequenos, a Dulce Padilha me sustentava com água para lavar as fraldas. Lembro-me, hoje achando graça, nós apressados deveriamos esperar Jura (Juraci Vieira). Sempre chegava antes, levando um saco de sapatos, e enquanto não lavava o último não cedia a torneira; azar de quem tinha pressa!

Em frente, em um casarão morava uma família muito grande: muitos meninos e muitas meninas, pouco brincávamos juntos, o pai nunca deixava. Eu só saía junto delesem dias de “Circo” na cidade, com autorização da mamãe . Era a família do Padre Paulo Generoso, que hoje, aposentado, mora no Seminário de Diamantina.

E aquele cruzeiro! Enorme! A gente via tudo muito grande, braços abertos, abençoando todos da Rua “Fonte Grande” e os que passavam por ali. Quando a coisa apertava, de joelhos, levando flores, lá fazíamos nossas orações, nossas penitências.

Minha casa era a penúltima da rua, à direita. De frente baixa, no nível da rua, e fundo alto; eu dizia que morava num sobrado; e era mesmo; eu acreditava, pois das janelas do fundo, eu via muitos quintais lá embaixo: do Senhor João Pinto avô do Tãozinho Pinto; do Dr. Antônio da Cunha, hoje Hotel Avenida; do Professor Aureliano Araújo, da Dona Vina, o quintal da antiga Prefeitura, hoje Casa da Cultura Minervina Vieira da Silva onde escondida da mamãe eu colhia  tomatinhos e mexericas verdes, muito ácidas, de fazer cara feia. Certa vez, estava tão distraída colhendo meus tomatinhos (vendia para a dona Ambrosina do Hotel Lili) quando ouvi, de repente, um som alto e estridente, a voz do Padre Amaral, do alto falante externo da Igreja, cantando Ave, Ave, Ave Maria… Que susto! Era a Oração do Angelus.

Via também, da minha janela alta, tantas ruas do outro lado, tantos campos, o horizonte, a Serra “Tromba D’anta”, o Monte “Vê Oito” que  batizamos por ter a forma do carro da época; o “Morro do Segredo“, as “Bancadas“, o “Morro Redondo”. Era fascinante!

A criançada da Rua Fonte Grande  aproveitava muito o espaço calmo que lhe era oferecido. Brincávamos de “Pular Corda”, “Passar Anel”, “Cantigas de Roda”, “Pegadô” Para cadenciar as brincadeiras usávamos um ritmo próprio, não era bem um canto, nem poesias, sem entender o que dizia:
                     

Um noni de lá pá politana
Um vapor que passou pela Espanha
Bela, bela, im – bela, bela, im
Foi o boi que matou o Tim
Lá na porta do butiquim
Com um galho de alecrim

Com o dedo apontado anunciava o pegadô. E ainda outras contagens misteriosas:
                    

Una, duna, tena, catena
Rabo de pena Maria Gondó
Tá certo senhor

Também:                    

Fui no mato buscar cipó
Pra tecer meu palitó
Encontrei uma curuja
Ela me xingou de cara suja

Pena que as crianças de hoje não vivam esse folclore de sílabas sem nexo, mas com muito ritmo.

Quando fazia muito frio, mamãe montava fogueira na porta e lá ficávamos, nos esquentando antes de dormir. Foi aí que meu irmão caçula, o Pedrinho, adoeceu com pneumonia; mamãe dizia: “é porque fica tomando calor no peito e frio nas costas”.

Não poderia deixar de citar: da porta da minha casa, “Rua Fonte Grande”, eu namorava Hormínio Simões – o Dodoca, meu esposo por 51 anos, que estudava interno no Ginásio Municipal. Do Ginásio como ainda é hoje, localizado no alto da Rua Dr. Alfredo Marinho Falcão, não havia distância, prédios, nem árvores altas para impedir o namoro. Eu, com 14 para 15 anos, ele com 18 para 19 anos. Com um pano branco, bem grande, abanávamos um para o outro, na surdina; era uma emoção; o coração acelerava…

E o por que Rua da Fonte Grande?

Numa pedreira, em frente e mais adiante do Comércio do Geraldinho Pinto, brotava água, muita água; eram bicas e mais bicas; a gente passava e gostava de sentir as gotinhas, água batendo no chão e respingando em quem passava.

Muitas vezes, mamãe levava a roupa para lavar ali nas bicas, porque era mais prático que buscar água no chafariz. Uma vez, levantando-se cedo, escuro ainda, fomos para as bicas de água e, a certa distância, não muito longe, ouvimos uns gemidos, uns gritos, uns grunhidos: lá estava o velho conhecido Zeferino, tomando banho na bica, no frio do amanhecer.

Citei várias vezes o nome mamãe, Maria Carmelita Vieira Nunes. E papai? Joaquim Cardoso Nunes; quando faleceu eu tinha apenas 7 aninhos, poucas recordações. Meus irmãos todos viveram na Rua Fonte Grande. Quatro já falecidos: Carlos, Sebastião, Totonho e Pedrinho. Restamos três: o Paulinho, que reside em São Paulo, Teresinha e eu.

As raízes são tão grandes, alastradas à Rua Fonte Grande, que andei, andei e fui morar na rua vizinha, Rua Monsenhor Amaral, n° 130, com toda minha família, marido Hormínio Simões, e os sete filhos: Sincero, Luís, Ana, Neida, César, Solange e Silvana.

Minha saudosa Rua Fonte Grande mudou de nome por merecida homenagem em 1965. Hoje nos sentimos muito orgulhosos por nossa rua ter o nome que tem: Avenida Deputado Simão da Cunha.

Ratcliff Maria do Patrocínio

Ratcliff Maria do Patrocínio, conhecida carinhosamente como Tati, foi professora do ensino fundamental, dedicando-se por anos à alfabetização de crianças. Foi diretora da Escola Estadual Senador Simão da Cunha, em Peçanha, de março de 1970 até dezembro de 1984. Viúva do saudoso Dodoca, vive cercada de amor e cuidados pela grande família construída com abnegação e carinho.

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Respostas de 7

  1. Parabéns Tia Tati! Bela narrativa da rua da Fonte Grande. Eu rememorei muitos momentos lá vividos . Saudades!

  2. meu amigo Sincero enviou-me esse belo texto. Gostei muito, principalmente porque revi a parlenda do no-ni poli poli politana, que marcou minha infância e quase ninguém sabe hoje o que é hoje. Pude reencontrar essa parlenda num romance contemporâneo, Morte em V., do grande escritor capixaba Reinaldo Santos Neves. Parabéns, dona Tati!

  3. Tati, lindo texto,com ótimas lembranças. Nos transportou p o tempo passado… e só um parêntese: você via o quintal do sobrado do vovó Agenario Batista,e não do dr Antônio da Cunha. Bjo

  4. Parabens D.Tati, além deste presente maravilhoso da Rua da Fonte Grande uma leitura jovem e altamente instrutiva, fala também de seus filhos estes seres maravilhosos e amigos do coração e de alma por muitos anos..A de.Tati e simplesmente genial.

  5. 3/11/25,Eliana e eu estamos por muitos minutos percorrendo algumas matérias deste jornal:Tati Geise Juarez e deparei-me com a imagem registrada em minha memória daquele astronauta saltitante lá na lua.Como seria o meu encontro com aquela figura que flutuava sobre um mundo quase que somente imaginável?
    E não é que no dia de hoje sinto idêntica sensação ao ler o texto do Wilson sobre a trajetória do Fernando Rangel. Parece-me que o astronauta bate à minha porta:vivemos mundos distintos.

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