Série: Quem ama não mata

Publicado em: 27/02/2026 às 18:48

Atualizado em: 28/02/2026 às 09:37

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Atriz Marjorie Estiano como Ângela Diniz

ÂNGELA DINIZ: QUEM AMA NÃO MATA

Existem pessoas que permanecem em nossa lembrança, mesmo depois que se vão, por suas obras ligadas às artes, a filantropia, a política. E, por suas vidas intensas. Assistir à série “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” é mergulhar numa história já muito conhecida, mas poucas vezes retratada com tanta beleza e esmero.

Como na tragédia grega, o spoiler já está dado. A personagem entra numa espiral de acontecimentos incontornáveis, movidos por pulsões humanas intensas, pressionada por convenções sociais rígidas das quais tenta se livrar inutilmente com coragem, vulnerabilidade, intensidade e determinação.

Roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares, baseado no podcast “Praia dos Ossos” (2023), a série em questão tem direção de Andrucha Waddington e conta com um elenco excepcional. A direção de arte e figurinos dão um retrato impecável da época (Década de 1970), onde cada objeto de cena e cada plano servem à dramaturgia, assim como a trilha sonora que acompanha cada evolução dramática da personagem em direção a seu destino fatal.

Marjorie Estiano, tem aqui um de seus grandes desempenhos. O corpo dela em movimento pelos mais variados cenários é de elegância e beleza intensas. Tudo nela é liberdade e brilho. Como a imagem que ficou da “Pantera de Minas”, apelido carinhoso dado à socialite mineira, por Ibrahim Sued, único dos namorados retratados com respeito e admiração. Os demais são vistos como conservadores e reacionários ao extremo. Talvez, por isso, a ironia da personagem Ângela, ao dizer que “o homem mineiro é igual pão de forma: chato, quadrado, casca grossa e fácil de dobrar”, pareça ainda tão comicamente atual.

Depois de romper, por um acordo judicial de desquite, um casamento de nove anos e, ao lutar pela guarda compartilhada da filha, Ângela Diniz se depara com uma estrutura social rígida. Na nova condição civil, percebe rapidamente que não é “livre para viver em seus próprios termos”. Deixa São Paulo e transfere-se para o Rio de Janeiro. O novo ambiente ensolarado e vibrante parece retratar a sua personalidade sedutora. Mas os embates com a lei por acusações de sequestro, assassinato e tráfico de drogas, deixa poucas alternativas a uma mulher, que além da própria beleza só podia contar com sua própria astúcia para garantir a liberdade sonhada.

Rui Fernando do Amaral Street, deixou esposa e filhos prá viver com ela. Mais conhecido como Doca Street, era homem possessivo e ciumento. Não conseguiu se adaptar ao comportamento liberal da namorada que desafiava os padrões de sua época. Depois de mais uma discussão violenta, assassinou-a com quatro tiros. A equipe jurídica, contratada por Doca, optou por transformar a vítima numa devassa. Nessas circunstâncias, deixou ao bom homem cego pela paixão a alternativa, de apelar a ato extremo em legítima defesa de sua honra. Foi condenado em 1979, a dois anos de prisão, com sursis (pena suspensa). É de se notar que da manifestação da plateia presente ao julgamento, transmitido pela TV, ouviam-se vozes masculinas gritando: “Assassino”! E outras vozes dissonantes: “Cabo Frio está com você! e Doca, ela não merecia você!.”

Após pressão popular via protestos feministas (“Quem Ama Não Mata”) o júri foi anulado. Doca retornou ao banco dos réus em 1991, quando foi condenado a quinze anos, cumprindo cinco anos e obtendo liberdade condicional em 1987. Em 1982, a minissérie “Quem Ama Não Mata”, da TV Globo, retratou o caso, com Marília Pera e Cláudio Marzo nos papéis principais. Em 2023, foi lançado o filme Ângela, interpretada por Ísis Valverde, com direção de Hugo Prata. Ângela Diniz é nome de rua em Fortaleza (CE), em São Gonçalo (RJ), em Armação de Búzios (RJ) e Parauapebas (PA)

A tese de legítima defesa da honra foi declarada inconstitucional pelo STF em 2023, consolidando o entendimento do caso como um marco contra a impunidade de crimes de gênero. A tese do advogado de defesa é de que essa moça continua sendo assassinada todos os dias, de todas as maneiras, por muita gente. E, que essa moça, já teve carrascos demais.

Esse foi um acontecimento que abalou o país, transformando-se num símbolo trágico da impunidade dos feminicídios no Brasil.

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“Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” (2025), direção Andrucha Waddington. Elenco: Marjorie Estiano, Emílio Dantas, Antônio Fagundes, Yara de Novaes, Camila Márgila, Thelmo Fernandes, Joaquim Lopes, Pedro Nercessian, Thiago Lacerda, Renata Gaspar.

(Disponível no HBO Max e Prime)

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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