Tio Flávio e as várias faces do voluntariado

Publicado em: 27/02/2026 às 18:54

Atualizado em: 28/02/2026 às 09:35

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Flávio Tófani é professor, palestrante. Atua em rádio e jornais. Viaja muito. Ainda faz uma pós-graduação junto com um doutorado. Em liderança educacional. É, também, voluntário no Conselho Administrativo da FEBAC, que é a fraternidade que cuida das Associações de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC) em diversos países.

Acredita que o ser humano é maior do que qualquer fala. Então, segundo afirmou, acredita que temos que proteger a mente, senão a gente cai.  Sendo um homem de múltiplas atividades, não consegue abandonar nada do que está fazendo. Vamos ouvi-lo. Como motivação solfeja um pequeno trecho da canção “Como Nossos Pais” do grande compositor Belchior:

Viver é melhor que sonhar…
…Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa”…

 O início

Flávio – Eu sou de Santa Luzia (MG). Nós montamos um grupo com primos e pessoas mais velhas para fazer visitas a creches. Pedimos aos atores Elisa Santana e Glicério do Rosário que nos dessem aulas de teatro, uma vez por semana. Eu devia ter uns 20 anos. Minha mãe é espírita. Kardecista.

Espiritismo é uma doutrina filosófica, científica codificada pelo pedagogo Allan Kardec (1804-1869), que propõe a fé raciocinada, sem rituais, com foco na caridade e no amor. 

 Eu acho que eu vi muito da solidariedade da minha mãe. Ela saiu do catolicismo para o espiritismo, em Santa Luzia! Se Minas é uma roça, Santa Luzia também tem resquícios disso. As amigas começaram a virar a cara. E aí, eu vi que tinha muita ação no espiritismo, né?  Não era só ir à missa, ou ao culto, ou ao encontro, era ação também. Isso me impactou muito. Tive muito essa influência da minha mãe. Aos 18 anos eu entrei no Espiritismo também. Eu frequentei, fiz mocidade. Essa minha vocação de palestra despertou foi dentro do Centro Espírita! Mas hoje eu não sou espírita, né? Eu conheço um pouco.

Faculdade

Eu fiz Relações Públicas na FAFI BH que se transformou, nesse período mesmo, em UNI BH. Me formei em 1998. Lecionava em Santa Luzia, no ensino fundamental e médio. E aí, assumi a cadeira de marketing na faculdade UNI BH, em 1999. Os alunos do 7º. Ano de Publicidade me batizaram de tio Flávio, de uma maneira ofensiva mesmo. Eu tinha 20 e poucos anos.

– Quem é esse cara? Os outros professores se perguntavam. E aí, com as aulas, estabeleci mais proximidade, ia num barzinho, o Santa Bebedeira, com os alunos. E eu ia assim de tranquilidade, mesmo. 

Eu lecionava na Newton, no UNI, na PUC, na FUMEC.  Estava em nove escolas ao mesmo tempo, a pós-graduação me dava possibilidade de fazer isso. Tinha muito professor, como ainda tem, que é muito distante dos alunos, né? Então, quando você quebra isso, você estabelece uma aproximação muito interessante.

A gente criou um plano de comunicação para organizações não governamentais. Então os meninos não ficavam em sala de aula. Eles iam para as ONGs, entender com que público elas operam.

– Então eu vi a dor do outro e, não dá prá se acomodar, né? Não achar que a dor do outro é do outro e não ter nada a ver comigo.

Eu vivia numa redoma que era uma bolha universitária. Todo mundo que eu lidava era professor, mestre, doutor, pós-doutor. Então, pra mim, os meus colegas tinham todos pós-doutorado e mestrado. No meu universo todo mundo era universitário ou pós universitário. O mundo pra mim não tinha ninguém que não fosse isso.

Percebendo que quem estava no mercado não tinha acesso a novas informações, eu propus uma parceria a algumas instituições. Solicitava espaços gratuitos pra  fazer palestras com temas interessantes: marketing, comunicação, design. As inscrições para os eventos eram feitas por e-mail. Eram encontros pra abrir a mentalidade das pessoas em Belo Horizonte: pra que elas se entendessem pertencentes aos grupos, mas não a grupos estanques. O design está aqui, o cinema tá aqui, a moda tá aqui, ninguém conversava com ninguém. Então vamos reunir todo mundo e vamos conversar. Vamos fazer alguma coisa juntos, então esse foi o primeiro objetivo.

A Marca

O Tio Flávio Cultural nasceu de uma inquietude. Em 2010. E, foi crescendo a partir daí, com convites. Ah, faz uma palestra aqui para os servidores, para os funcionários (que atendiam crianças com paralisia cerebral).

Eu não tinha ainda noção da força da marca. Eu chegava nas formaturas e me apresentavam para os familiares como tio Flávio. Esse “tio” foi criado ali, né? Na relação de respeito com os alunos. O “cultural” entrou como ampliação de perspectiva e não como manifestação artística. Não levamos atividade artística pra dentro das instituições.

 A marca foi o Gustavo Greco que fez. Um design bem famoso. A gente tava fazendo sete anos de movimento, hoje já são quinze. Eu queria tirar o tio Flávio do nome, porque o associa a uma só pessoa. E eu sou falível, né? Então se alguma coisa acontece comigo impacta muito mais. O Greco se opôs:

– Não, de forma alguma! As pessoas te conhecem e vão muito pela credibilidade que você tem!

Quando ele criou a marca “Tio Flávio Cultural”, ela veio dentro de um quadrado. E o quadrado limita a gente ou prende a gente. Então ele esclareceu:

– Dentro do quadrado uma das letras é usada pra ser duas letras / uma letra dupla, que tem o sentido de entrega. É a entrega que a gente faz como voluntário, dentro do voluntariado. É uma faca de dois gumes, né? Isso. 

Não temos registros

Então é tudo gratuito. Não somos uma ONG.  A gente não tem registro de CNPJ.

(Eu, Flávio, incentivo as pessoas a terem, se quiserem. Para que tenham acesso a benefícios, a emendas parlamentares e que podem ser bem ou mal-usadas)

Mas a gente não tem interesse financeiro, religioso ou partidário, não temos! Não queremos ser OSC (Organização da Sociedade Civil). Não temos recurso financeiro. Eu quero que o movimento seja orgânico, que ele vá crescendo. Porque todo mundo se entende pertencente a um grupo, porque a gente trabalha hoje com a criação de convívio, né? Criação de vínculos.

Religião

Eu tenho um ex-aluno da Igreja Batista Central que queria criar “evangelização” dentro do projeto. Eu falei, de forma alguma! Por mais que se acredite em Deus, ou EM outras coisas aqui, nesse momento, não é isso que nos liga. É a humanidade, né? A gente vai receber o umbandista, o ateu. Sem catequizar. Quero que o voluntário se entenda parte desse projeto, tão grande, sabe? Eu tenho trabalhado junto com eles essa ideia. Você não é parte de um grupo, você é parte de um movimento, de uma comunidade. Assim eles se dedicam pra fazer o que tem que ser feito. Quando você tem um grupo menor, eu dependo do outro, e aí eu sou muito criterioso com isso.

VOLUNTARIADO 

Apontamos quatro possibilidades de abordagem:

 1) O voluntariado assistencialista 

É aquele que entrega algo pra pessoa quando ela tá mais vulnerável. Eu preciso do voluntariado de assistência para preparar aquele que precisa da ajuda, para o próximo passo.

– O cara sai de manhã, pensando que os cinco filhos dele não tem o que comer. Na cabeça dele, a questão é a fome dos filhos. É preciso resolver o problema que o aflige agora, para que possa ampliar sua perspectiva.

O que se fala do Bolsa Família, né? Preconceito, é falta de luz, né? É ignorância, é falta de conhecimento. Então você tem aí um exemplo do assistencialismo.

 2) O voluntariado de emergências.

Exemplos: o desastre ambiental em Brumadinho (MG), as enchentes no Rio Grande do Sul. As pessoas, motivadas pela emoção, se organizam pra ajudarem com doações. Não dura muito.

3) O voluntariado do desenvolvimento:

Pretende criar ações, possibilidades de educação para desenvolver as pessoas. No futuro, vamos propiciar aulas de inglês (remotamente) para adolescentes aqui no Brasil e projetos de pesquisa de ações de ONGs e de comunidades ou iniciativas solidárias.

4) O voluntariado de convívio, é esse que a gente faz.

E tem muita gente querendo comprar o perdão divino. Aquela culpabilidade cristã que se manifesta em casos do tipo: doar dinheiro pra uma instituição (eu não recebo doação financeira). Não estão interessadas nos idosos, em acolhimento das crianças. É como se visitassem um zoológico. Curiosidade mesquinha.         

Então, no voluntariado, você tem acesso a histórias que vão impactar sua própria visão de mundo, além de gerar neurotransmissores que fazem com que você tenha um bem-estar, de fato. Você tem a possibilidade de ampliação da sua própria perspectiva e da perspectiva do outro. Por isso que a gente fala que ela é uma via de mão dupla. Quando você ajuda, depende do outro, mas aquilo que você recebe depende de você. Então você é o mais impactado com isso.

Para cada tipo de assistência há um tipo de voluntário?

De acordo com demanda e especificidades distintas. Por exemplo:

1-Eu cheguei numa casa de acolhimento de adolescentes no Bairro Caiçara, em BH. E aí eu levei aquele jogo “Dedanha”, onde se faz o sorteio de uma letra… Levei um monte de prêmios pros meninos. E aí juntou todo mundo.  Aí, começamos a jogar.  Aí, um saiu, o outro saiu, o outro saiu e eu fiquei sozinho. Depois que acabou a atividade, que nós fomos lanchar, eu falei:

– Gente, vocês não gostaram da atividade? – Não é isso, tio.  A gente não sabe ler!

(Eles ficaram inibidos porque eles não queriam mostrar a vulnerabilidade, e aí eles foram abandonando a brincadeira)

Não sabiam ler! Eu deveria ter identificado anteriormente as características daquele público pra saber o que eu levaria. Eu deveria ter feito isso, né?

2- Numa casa de acolhimento é comum a gente ouvir:

– Ô tio, você não quer me adotar não?

 A criança/o adolescente precisa de uma família, ela quer vislumbrar uma possibilidade de sair dali.

Por isso que eu falo que o voluntariado não é uma ação, é uma

mudança de olhar pra sociedade. Não é prá estimular gratidão.

Então quando o voluntário entra para um grupo a gente orienta:

a) Não dê conselhos.

b) Não prometa nada.

c) Nem que voltará com o presente que alguém pediu.

d) Não pergunte onde estão os pais das crianças.

e) Não fotografe ou faça selfie.

A gente usa o nosso conhecimento, mas a gente ainda não tem uma pedagogia formada não, isso seria um passo mais pro futuro, que eu quero pensar.

As Funções do Voluntariado

As funções são várias, né? A gente tem que entender que nós não estamos lá pra salvar ninguém. Nós não temos essa função. Estamos lá para talvez ouvir, contribuir, mas não solucionar a questão.

Por que as pessoas querem trabalhar como voluntárias?

Quando a pessoa torna-se voluntária, ela se empolga e acha que o voluntariado é o mundo. E ela quer entrar de cabeça. Só que ela não sabe que entrar de cabeça tem consequências, né?  Você tem que pensar no seu tempo, se o voluntariado caberia na sua vida. As pessoas se enganam muito.  Pensam que voluntariado é o que se faz pontualmente, no dia de visitas, sem continuidade. Mas, voluntariado é uma mudança de comportamento. Vejam o que nos disse uma mulher:

– Eu tô sofrendo, eu vou lá pra ver quem tá sofrendo mais, eu vou ser boa.

O que que mais nos dói é que a gente vê, ouve muitas dores, vivencia muitas dores dos outros. E viver a dor do outro vai me adoecer, não me ajudando em nada a ajudar o outro.

Aquele quadrado, a nossa marca, serve pra entender que, no voluntariado, a gente pode fazer tudo que está ao nosso alcance. Mas chega uma hora que depende do outro. Então, é o limite

Grupos gerenciam as atividades dentro dos projetos

Atividades / Projetos

1) Cinema;

2) Musicalidade, dois músicos profissionais, Gustavo e Verônica Tanuri, visitam instituições de longa permanência para idosos;

3) Literatura: pílulas literárias / virando a página

4) Grandes Olhos, que trabalha com crianças com câncer.

5) Diários e Cartas, (grupo virtual criado durante a pandemia). A instituição indica um idoso que vai conversar semanalmente, no mesmo horário, com um voluntário, durante 06 meses. De comum acordo, os dois registram essas conversas em cadernos separados. Depois, os dois começam a trocar cartas. Esse material será organizado, pelo voluntário, em livro impresso (com fotos cedidas pelo idoso). É a escrita dele, um processo terapêutico. A potência pra pessoa é imensa. E aí quando a gente fala da potência, por exemplo é um resultado que não aparece midiaticamente;

6) No Albergue

 Eu não trabalho com pessoas em situação de rua, na rua. Eu trabalho em albergues. São pessoas que vivem na rua e que usam a estrutura do albergue pra dormirem, jantarem, tomarem banho. Muitos estão embriagados e alcoolizados. No dia seguinte tomam café e vão embora. A gente tem atividades ali. Como são pessoas em trânsito, eu não consigo muito criar vínculo. Estão na rua há muito tempo e utilizam o serviço dos albergues com frequência, então elas já começam a nos conhecer. Quem os atende é o mesmo grupo de 07 voluntários, sempre. O número de pessoas em situação de rua aumentou em todas as capitais.

 7) Ações nas Instituições de Longa Permanência Para Idosos (ILPI)

 A República de idosos do bairro Pompéia, em Belo Horizonte, nos chamou pra trabalhar lá porque as idosas estavam muito deprimidas. A gente foi lá, conheceu, viu o que a gente podia fazer, conversando ali no grupo. Uma senhora, a Zezé, gostava de flores, mas não tinha flores, a gente levou orquídea. Então ela acordava todos os dias de manhã falando:

– Ah, hoje eu tenho que cuidar das minhas orquídeas.

Já deu a ela um novo sentido, sabe? Ela falava assim:

– No dia que o tio Flávio vier, me avisa, porque eu quero fazer bolinho de chuva pra ele. Sabe essa criação de vínculo? 

 8) Ações nas casas de acolhimento de crianças e adolescentes.

 Há muito preconceito dentro do sistema carcerário, entre os próprios presos, que vem de fora do sistema. A gente leva a educação nos trabalhos voluntários pra abrir a mente das pessoas. Romper preconceito de tudo, por exemplo, misoginia. Certa vez, fui dar palestra para jovens adolescentes acolhidos em casas socioeducativas, onde ele tem uma roupinha dele, faz uma atividade esportiva. Se ele desandar, ir pra uma cadeia, ele não vai viver essa realidade.

E aí um deles virou pros meninos e falou assim:

– “Tá vendo, tá vendo rapaziada, o que que a gente tem que fazer é achar uma mulher pra levar as coisas pra gente lá.

(Na visão dele a mulher o abastece, né? É aquela que, enquanto ele tá preso, porque ele falou que não vai sair do crime, né?) Eu respondi pra ele:

– Às vezes cê nem vai estar vivo pra chegar lá.

Mas a mulher é vista como a que vai servir, aquela que não vai fazer mais nada.

Se uma pessoa égay ela não fica dentro da cela, ela é tirada da cela. Quando se identifica como gay é levada pra uma outra cela, isolada. Pra não ser morta pelos outros. Tem presídio específico pra LGBT. Então você tem todo um processo de preconceito, que vem das comunidades, que vem da rua e que se reproduz lá dentro. O projeto de educação que a gente faz é uma tentativa de quebrar isso.

9) Ações em hospitais

A primeira visita que fiz a um hospital, setor de hemodiálise, eu olhei pro cara ligado a uma máquina, pra filtrar o sangue, e tive um grande impacto. Aquelas máquinas apitam o tempo todo, né?  O cara virou prá mim e perguntou:

– Vocês vão começar uma atividade aqui? – Vamos. E, continuei:  – Olha, deixa eu te falar uma coisa, tenha fé, tá? Tenha muita fé porque a vida é dura pra caramba.

E aí ele foi e falou comigo assim:

– Ó amigo, olha só, se a vida fosse tão dura, do jeito que tá falando aí, eu não estaria aqui, né? Eu já teria me entregado, então não é desse jeito!

Baixei a bola. É preciso conhecer o público que você vai atender.

10) Cursos

Eu criei alguns cursos sobre perdas. A gente chama de Universidade Tio Flávio Cultural que são algumas trilhas que as pessoas podem percorrer prá se ajudarem em situações limite. Uma humanização das relações.

Tem que ter lastro, tem que ter continuidade e tem que ter o propósito, mostrar o propósito. Porque hoje, se não tomar cuidado, tudo vira espetacularização.

As Palestras

Palestra 1: Prostituição

Certa vez, uma mulher me convidou para dar uma palestra para prostitutas, no centro de Belo Horizonte. Aceitei dar a palestra. O que aconteceu ali mexeu muito comigo, porque me mostrou o retrato do que acontece ainda hoje.

Uma prostituta atende cerca de 40 clientes por dia. Em dois turnos de trabalho: de 8h00 da manhã às 11h00 da noite. Este é o horário de funcionamento dos hotéis da Rua Guaicurus. Elas usam algodão pra poder barrar, estancar o sangue da menstruação pra atenderem seus clientes nos 10 primeiros dias do mês. São os mais rentáveis do mercado de prostituição, porque os caras têm dinheiro e vão gastar. E, isso é muito pesado, né? Eu via aquelas mulheres conversando, falando que tinham que trabalhar pra mandar dinheiro pro filho, pra mãe.

Eu falei, cara, olha só, eu tenho que conversar com prostituta, eu tenho que conversar com toda a gente. E isso mudou minha visão sobre o outro. Sabe, eu saí da bolha!

Entrei numa nave, eu brinco, que é uma Nárnia. Porque você passa por ali sempre, mas você nunca entra. E não só prostituição. A vida dos moradores de rua, a vida de uma criança que tá num abrigo, é Nárnia! É um guarda-roupa que você sabe que existe, mas você nunca entrou. A partir do momento que você entra, conhece aquelas histórias, baixa a guarda! E, às vezes, você tem que só ir e deixar a coisa fluir, né? Às vezes, a pessoa não quer resposta, ela só quer contar a sua história. E eu devo apenas ouvir. Então, foi justamente o momento em que abriu pra mim, ali, a possibilidade de ver que existia um mundo além da universidade. E aí comecei a fazer outros trabalhos. Aí surgiu o Tio Flávio Cultural.

Palestra 2: Luto

Em Itabira (MG), uma mulher falou comigo: – Tio Flávio, coloca uma fala do Guimarães Rosa na sua palestra: “Viver é um eterno rasgar-se, remendar-se””.

Eu falei: lindo, mas por quê?

Então, ela falou que perdeu um filho de 19 anos e que ela esborrachou no chão. Com o passar do tempo ela viu que o filho de 16, ela percebeu num determinado momento, que o filho de 16 estava vivo. E que ela voltou, ela remendou-se, ela juntou os caquinhos. Ela voltou pra poder estar ao lado do filho. Ela não voltou inteira, porque ninguém depois da morte de um filho volta inteira. E aí ela falou comigo assim.  O máximo de empatia é tentarmos entender o que é a dor de uma mãe que perde um filho.

Aquilo ficou tão marcado pra mim, porque ninguém entende a extensão da dor dessa mãe num processo assim, né?

Palestra 3: No presídio – Aqui entra o homem, o delito fica lá fora.

Um ano depois fui convidado pelo Senac a dar uma palestra em um presídio. E aí foi outra coisa, né? Presídio, eu vi na Globo, aquele povo lá de vermelho, batendo na grade, falando que tá cheio, com aquela cara de animal, né? Eu falei, eu não quero trabalhar com esse povo. Lá os presos ficam com a chave da cela nas mãos. Mas, “é um presídio diferenciado, que tem uma metodologia diferenciada”. Para vocês terem uma ideia, a APAC Associação de Proteção e Assistência ao Condenado, de Belo Horizonte, atende um número muito reduzido de presos, em torno de 6.000. A nossa estimativa é de 70.000 presos no Estado. Ali são tratados com mais dignidade. A família vai visitar e não passam por um processo de humilhação. Os detentos têm que estudar e trabalhar dentro do regime. Então tem toda uma ambientação pra que as pessoas possam levantar a cabeça. E aí, isso faz com que as estatísticas das APAC femininas, sejam de uma reincidência de 2%. No sistema geral comum masculino, a reincidência é de 85%. Nas APAC masculinas está em torno de 10 a 14%. Então, é quando você trabalha a pessoa com humanidade, valoriza suas histórias, algo muda. No sistema comum, não tem espaço pra ouvir histórias, pra contar suas histórias. Cada um tá morrendo com sua dor ali dentro, né? Então, não tem essa!

 A atividade, que está em vigor agora, fala sobre crimes contra mulheres. Então eu coloco lá essa questão: de que você não é dono de alguém, você não tem o direito sobre alguém, você não tem a posse de alguém. Faço eles refletirem. Proponho que escrevam sobre isso. Eles têm que pensar, passar por todo o processo. Conhecemos os reclusos, os espaços, as peculiaridades dos lugares.

Pandemia e o impacto nos grupos

 A pandemia foi um marco. Adoeceu muita gente, amplificou o adoecimento emocional e mental. Saímos de 80 grupos daquela época para 35 hoje. Caiu muito. Já temos maturidade suficiente para que os grupos funcionem sozinhos.

Então a gente treina os grupos assim:

a) Com palestras da Universidade Tio Flávio Cultural, no YouTube: uma sobre voluntariado e outra que é a forma de voluntariado que nós realizamos.

b) Um grupo de WhatsApp que é de todos os gestores, sem os voluntários.

c) Cada grupo tem o seu WhatsApp para combinar as atividades.

d) Visitas às instituições são agendadas uma vez ao mês. Aos domingos.

e) As visitas duram 90 minutos.

f) Com dois a três gestores voluntários que coordenam a equipe.

g) Lista de presença pra saber com quem se pode contar 

h) Combinam caronas e fazem a ação acontecer.

 i) Não utilizar celular enquanto estão na ação.  

Como vocês preservam a imagem das pessoas? 

As pessoas, elas não gostam de fotografias. Ainda mais quando elas estão muito vulneráveis. Então o idoso, quando ele tá todo arrumado e tal, ele pede pra tirar foto. Ok. Mas pra publicar a gente publica só a mão, a gente publica o bingo, a gente publica crianças abraçadas com os idosos, de costas, né? Que tem o contraste do novo com o velho. É preciso que o voluntário esteja por inteiro ali, como naquele poema, do Fernando Pessoa: “Pra ser grande, sê inteiro’’.

É preciso chegar próximo de um processo de empatia, que é “não é se colocar no lugar do outro, mas é se colocar no lugar do outro, no contexto do outro”, como nos ensinou o médico Jacob Levy Moreno (1889-1974), criador do

Psicodrama: definido como uma via de investigação da alma humana mediante a ação.

Por que aquele cara cometeu um crime? Não tô falando de vitimismo, mas que que é que aconteceu na sua história? Foi ausência de pertencimento, foi ilusão? Nosso objetivo é estar presente. É preciso que a criança, o adolescente, o idoso, o detento saiba que a gente vai lá. E que podem esperar por nós. É justamente isso.

O que você ganha com isso?

Numa das ações que fizemos numa casa de acolhimento de crianças, eu lembro de um menino que falava comigo, o tempo todo, assim:

Menino – O que cê ganha com isso? O Estado te paga, né?

– Ô, meu, nem o transporte pra eu vir aqui.

Menino – Mas cê tem verba parlamentar.

– Meu filho, eu não sou nem CNPJ.

Menino – Cê vai ser candidato!

– Se eu fosse candidato eu não estaria aqui.

Porque, hoje em dia, o que dá voto é criança. Eu estaria trabalhando com criança autista, né?  Com pessoa com deficiência (PCD). E não é só isso. Os velhos também. Animal, pet. Então, sim, as pessoas têm essa dúvida, né? Mas a gente não tem que ganhar nada.

–  Uai, eu tiro o meu salário dando palestra, dando aula, minha função, a minha profissão é essa.

Felicidade

Eu tentei estudar a felicidade, tentando achar o sentido de vida. Eu achei que eu fosse chegar numa fórmula, né? Os filósofos estudam isso há 22 milênios.  Mas todos estão insatisfeitos. Eu não conheço um que esteja feliz. A gente vê o mundo digital: tá todo mundo no perrengue. Todos com suas próprias questões, sabe? Estamos todos numa multidão e numa solidão ao mesmo tempo, como nos alerta

A teoria central de Zygmunt Bauman (1925-2017), a da Modernidade Líquida, que descreve a sociedade contemporânea como fluida, instável e descartável, contrastando com a “modernidade sólida” anterior, marcada por instituições fixas e laços duradouros. 

Vivemos, cada um com as suas dores, com suas angústias, sorrindo. Mas ninguém é feliz. Você fica feliz por uma conjugação de vários fatores.  São contrastes, né? Algumas pessoas são pura empáfia. Elas acham que já tem conhecimento absoluto. E eu adoro encontrar essas pessoas. Eu olho, e falo assim: Gente, vai estourar em algum momento! Mas essa arrogância é solitária também, sabe? Ela não pode parecer solitária. Não, não pode. Isso é o equilíbrio mental dela. Mas essa construção é cansativa. E o arrogante atrai quem é arrogante. É igual porco espinho. Então quando a gente fala dessa questão da felicidade… 

Solidão

A gente trabalha pra diminuir a solidão das pessoas.  Então esse foi o tema que eu peguei, por sentir que solidão não era um aspecto só dos idosos. A gente tem a solidão no meio de adolescentes que estão em casa com suas famílias, a gente tem a solidão de adolescentes que estão em abrigos, a gente tem a solidão de quem está encarcerado. Então a solidão está presente em todos nós, todos que estamos aqui temos um processo de solidão.

A pequena escolha de cada um

Um antigo professor, Celso Vasconcellos, certa vez me deu uma orientação: antes de oferecer a comida a pessoas que vivem desabrigadas, pergunte o que ela quer. Se ela quiser. Assim, você dá a ela o direito de dizer sim, ou não.

É uma pequena escolha, que dá a ela a dignidade de entender que ela ainda tem escolha. É uma forma de negar aquela máxima: “O que está dado não se escolhe”.       É isso.

Publicações autorais:

– Onde Moram as Ausências
– Ainda Há Céu Lá Fora
– Todo Mundo é Filho de Alguém
– Si, Eu Vivi! A Essência do Voluntariado
– Toda Dor e Todo Amor que Sinto Aqui (coautora Sander Mecca)
– Parte do Que Somos
– Entender Marketing na Gestão Escolar
– Para Toda a Vida Toda
– Gestão de Escolas em Momentos de Crise

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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