Uma viagem sentimental do largo de cima até a pracinha (*)

Publicado em: 27/11/2025 às 16:11

Atualizado em: 27/11/2025 às 18:40

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Voltei ao Largo da Matriz como quem regressa ao próprio coração. Caminhei entre sombras  antigas e aromas adormecidos, trazendo comigo a infância inteira — dobrada, guardada,  intacta. Os grandes fícus ainda estendiam seus galhos como braços de gigantes protetores,  lembrando o tempo em que seguravam, com firmeza e paciência, os cavalos vindos das  roças. Eles chegavam carregados de toucinho, rapaduras, goiabadas, manteiga, gondó,  farinhas e outras preciosidades; e até copos de leite viajavam em balaios, formando  composições que fariam qualquer artista suspirar.  

As vozes do povo ecoavam por todo o largo, misturando-se ao toque dos sinos da igreja — essa, sim, nunca se recusava a acolher um fiel. Deus parecia morar ali, à espera das  senhoras que subiam a ladeira quase em oração, passos lentos, sussurrando pedidos e agradecimentos para o grande encontro.  

No chafariz, a água da Mãe d’Água jorrava cristalina, fresca como um segredo recém revelado. Havia uma devoção silenciosa na fila que se formava: cada moringa enchida  parecia carregar um pouco de cura. E nós, crianças, nos divertíamos com o simples estalar das sementes dos fícus sob as solas dos pés — pequenos fogos de artifício de um cotidiano  feliz.  

O cheiro daquele lugar… ah, o cheiro! Uma mistura densa, doce e viva, feita de crina, balaios,  arreios e da laranja campista que perfumava o ar. O Largo era o centro do mundo — ou, pelo  menos, do nosso mundo. Ali a vizinhança proseava, trocava quitandas, risos, novidades,  esperanças.  

Quando chegava a época das tanajuras, o Largo virava palco de uma alegria desmedida. As  coitadas, fincadas nos gravetos, batiam asas com o desespero de quem não compreendia o  espetáculo de que faziam parte. E nós ríamos. Ríamos como só as crianças sabem rir.  

O Natal transformava tudo. As lojas de meu vovô Carlos Amantino e do Sr. Constante Soares brilhavam como  vitrines de sonho. As vendas do Sr. Antônio Camilo e do Sr.José Luiz, a farmácia de Belisário Marques, o consultório do Sr. Zeco Simões, a Farmácia Americana do Vandir Rassilan, o cartório do tio Simão Pereira, as barbearias do Sr. Antonio Madeira e do Sr. Mundinho, as alfaiatarias do Sr. Zé Clementino e do Enoq, o biscoito da Dejanira — tudo parecia exalar o perfume de um  presépio vivo. A Missa do Galo era esperada com uma ansiedade doce, e sua longa duração  parecia necessária para que o Menino Jesus encontrasse espaço no peito de cada criança.  

Hoje, quando volto, percebo que minhas lembranças se apagam devagar, como as lâmpadas  fracas dos antigos postes que iluminavam aquele “quadrado” tão meu. Ainda assim, basta  fechar os olhos para que o Largo retorne inteiro, vibrante, eterno — guardado na parte mais  funda da memória, onde nada envelhece.

(*) “Viagem Sentimental” é um clássico de Laurence Sterne, tendo a França como cenário expunha seus sentimentos sobre as pessoas e experiências que ele vivera.  

KÁTIA MELO LODI

Nascida em Peçanha (1952),Técnica em Decoração e História da Arte (INAP),Cursos de Museologia (FAOP) e Administração de Empresas (SEBRAE). Artista plástica, com formação em Desenho Artístico (grafite, aquarela, mosaico e cerâmica). Reikiana de nível III, atualmente reside em Peçanha.

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Respostas de 6

  1. Kátia, que preciosidade de texto!
    Ler essas lembranças foi como reencontrar a nossa própria infância guardada ali, na pracinha, onde vivíamos há mais de cinquenta anos. Cada detalhe que você descreveu — os fícus imensos, o cheiro de laranja campista, a água da Mãe d’Água, as vozes do povo, as lojas e personagens da nossa cidade — tudo isso reacendeu em mim imagens que nunca se apagam. Emocionante ver como você conseguiu transformar memória em poesia, e poesia em verdade. Peçanha continua viva em nós por causa de lembranças como essas Devolveu, com muita sensibilidade e delicadeza um pedaço do nosso mundo. Ai! que saudade!

  2. Que lindo amiga. Não lembro de todos citados, mas recordo de alguém contando alguns causas da praça da matriz.

    1. Obrigada irmão, vc viveu ao meu lado tudo isto, razao pela qual seus sentimentos são mágicos como os meus !

  3. Parabéns Katia, por reviver a memória deste largo,hoje conhecido como praça Getúlio vargas, me lembro do repuxo, onde salvei minha amiga Silvana Simões de um afogamento, kkkk,
    Obs. O referido repuxo tinha 40 cm de profundidade
    Kkkk

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