Utopia não é destino, é direção

Publicado em: 27/02/2026 às 18:55

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Eduardo Galeano - escritor uruguaio

Eduardo Galeano dizia que a utopia está no horizonte. Caminhamos dois passos, ela se afasta dois passos. Caminhamos dez passos, e o horizonte corre dez passos à frente. Para que serve a utopia, então? Serve para isso: para caminhar.

No campo social, essa imagem não é apenas uma metáfora bonita, ela é um método e sobretudo, condição de sobrevivência. Trabalhar diretamente com desigualdade e violações de direitos exige lidar cotidianamente com contradições profundas do mundo moderno: crescimento econômico que convive com miséria extrema, discursos de progresso que escondem exclusões históricas, políticas públicas que avançam em um ponto e retrocedem em vários outros. É nesse cenário que a utopia deixa de ser promessa ingênua de um futuro perfeito e passa a funcionar como motor do presente. Não como um lugar onde chegaremos, mas como uma direção que organiza o caminhar.

Tenho pensado que é justamente esse sentimento de busca “eterna” por uma sociedade mais justa, essa caminhada infinita, o que me permite sustentar as tensões e paradoxos do nosso tempo e da minha própria vida. Sem esse horizonte, o trabalho social corre o risco de se tornar apenas gestão de danos, administração do possível mínimo, e a tão desesperadora adaptação resignada à desigualdade. Os paradoxos do mundo contemporâneo muitas vezes nos devoram mentalmente. Como falar de justiça social em uma sociedade estruturada sobre privilégios? Como defender direitos em contextos onde o próprio Estado falha em garanti-los? Como agir coletivamente em um tempo que insiste em nos empurrar para soluções individuais?

A noção de utopia como horizonte ajuda a tornar essas contradições mais habitáveis. Ela nos lembra que nenhum gesto é pequeno demais quando empurramos, ainda que milimetricamente, nossas linhas à frente. Um projeto comunitário, uma escuta qualificada, uma política construída com participação social, uma ação localizada, nada disso resolve o mundo. Mas tudo isso desloca o mundo um pouco.  E esse deslocamento importa.

Há também algo profundamente político nessa perspectiva, ela nos permite lidar melhor com nossos próprios privilégios (foi assim comigo). Reconhecê-los não como culpa paralisante, mas como posição de responsabilidade. Caminhar em direção à utopia não significa negar as assimetrias que nos atravessam, mas usá-las para abrir frestas, ampliar acessos, tensionar estruturas postas.

Em tempos de cansaço coletivo, desesperança e soluções fáceis travestidas de pragmatismo, insistir na utopia pode parecer perda de tempo. Mas talvez seja exatamente o contrário. Talvez seja a única forma de não naturalizar o inaceitável que vemos todos os dias, ao ler o jornal e ao sair de casa. 

Seguimos caminhando não porque acreditamos que o horizonte será alcançado e que haverá festa, mas porque sabemos que, sem ele, não há caminho algum e as respostas, como diria Guimarães Rosa, vão aparecendo é no meio do caminho. 

André Duarte Massahud

André Duarte Massahud formado em Direito pela Faculdade Milton Campos, estuda Artes Visuais na UEMG. Consultor da Alfa Consultoria em Saúde e Sustentabilidade e cofundador da Trama Coletiva. Possui experiência em projetos de educação, cultura, desenvolvimento socioterritorial e socioambiental, especialmente ligados às periferias e populações vulneráveis. Entusiasta de trabalhos de impacto social,

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