É o samba e rock, meu irmão. Chicletes com banana

Publicado em: 30/09/2025 às 08:34

Atualizado em: 01/10/2025 às 09:02

Compartilhe

Alvorada em Peçanha

VAMOS MANDAR BRASA!

Drummond estava certo: aquela lua, aquele conhaque, “botam a gente comovido como o diabo” . Acredito no poeta! E afirmo porque sei que após a lua, o conhaque e a comoção, vem a iluminação: a alvorada! Ou seria demais crer na comoção de Cartola e Carlos Cachaça, ao traduzir o amanhecer no morro em samba? Quanta sensibilidade! É de fazer chorar, quem pode. Me refiro aqui a “Alvorada”, composição da dupla mangueirense em parceria com Hermínio Bello de Carvalho. Uma Alvorada  (ou samba) com letra maiúscula, que conheci na gravação do disco de 1974 de Cartola e indico aqui como primeira audição aos leitores. Ali está tudo, logo na introdução: o surdo, o tamborim, o ganzá, a cuíca, o violão, o cavaquinho e a voz de Cartola que canta a melodia e letra. Assim mesmo, surgem no arranjo exatamente nessa ordem, um a um. Ouvimos e entendemos tudo: samba entregue de bandeja! Seduz e conduz nossa escuta com argumentos irresistíveis: Graves, agudos, médios, beleza e dor, o Brasil em sua mais perfeita tradução.

 “Alvorada, lá no morro, que beleza! Ninguém chora, não há tristeza, ninguém sente dissabor…”

O disco de 1974, aliás, é o primeiro do compositor, leva seu nome, e inclui somente composições de sua autoria (solo e com parceiros). Já com 66 anos à época, Cartola pôde, enfim, eternizar verdadeiras obras primas em sua voz. São doze faixas, gravadas em clima informal, capazes de nos fazer sentir como se estivéssemos sentados ao lado dos músicos e do próprio Cartola enquanto gravavam. Na faixa “Amor proibido” , Cartola inclusive convoca os músicos: “Dino…ô Meira…Canhoto…cadê o Gilberto? Tá aí? Vamos mandar brasa!

Despretensiosamente, revelando que estava acompanhado simplesmente de alguns dos maiores instrumentistas de nosso país. Dino no violão de 7 cordas, Meira no violão de 6 cordas, Canhoto no cavaquinho e Gilberto no pandeiro, todos mestres de seus instrumentos, venerados, criadores de escolas de acompanhamento que influenciaram e seguem influenciando gerações. Só para se ter uma ideia, tocaram (juntos ou em outras formações) com nomes que vão de Pixinguinha e Benedito Lacerda a Luiz Gonzaga e Chico Buarque. 

Muito bem acompanhado, portanto, Cartola nos presenteia no disco com melodias sensíveis e inventivas, que possuem a medida exata entre notas longas, curtas e pausas. Canta como se argumentasse em um diálogo, com propriedade e sabedoria, por meio de uma perfeita conjugação de música e letra. Vale notar como tudo que é dito pelo compositor no texto das músicas é coerente com o movimento da melodia. 

Lembro de ainda criança, descobrir no acervo de meus pais em casa este disco e passar horas, fascinado, ouvindo a introdução de “Alvorada” . Um começo, a primeira luz de um mundo que surgia então para mim. É este o caminho que aconselho ao leitor a seguir nesta primeira coluna. Ouçam! O samba deixa a gente comovido como o diabo, e não tem volta! Axé!

Nota: Sobre Carlos Cachaça, o menos conhecido dos três compositores de ” Alvorada ” vale ouvir obras como  “ Quem me vê sorrindo ” (que pode ser ouvida no disco de 1974 de Cartola) e ” Não quero mais amar a ninguém ” (com Cartola e Zé da Zilda). Se estiver com tempo busque também “ Cachaça, árvore e bandeira” de Moacyr Luz, um craque em samba, que homenageia Carlos nesta composição.

Autor: Dudu Pinheiro

ROCK AMERICANO APÓS A BRITISH INVASION E WOODSTOCK

A chamada British Invasion, iniciada em 1964 com a chegada dos Beatles, seguida pelos  Rolling Stones, The Who, Kinks e outras bandas, provocou um choque cultural nos Estados Unidos. Jovens britânicos haviam aprendido com o blues, o rhythm and blues e o rock and roll americano dos anos 1950, e devolveram essa música aos EUA em nova embalagem. O impacto foi tão grande que músicos americanos precisaram se reinventar diante da súbita supremacia inglesa nas paradas de sucesso.

As primeiras respostas vieram rapidamente. Bob Dylan eletrifica seu folk em 1965, abrindo caminho para o folk-rock; os Byrds fundiram Dylan e Beatles no clássico Mr. Tambourine Man; Simon & Garfunkel adaptaram seu folk poético ao formato pop; e uma cena de garage rock cru surgiu com bandas como os Kingsmen e Paul Revere & the Raiders, prenunciando o punk.

Logo em seguida, a cena americana avançou para a psicodelia e a contracultura, especialmente na Califórnia. Jefferson Airplane e Grateful Dead encarnaram o espírito hippie de San Francisco, enquanto os Doors misturam blues, poesia beat e teatralidade em Los Angeles. Frank Zappa levou o experimentalismo ao limite, expandindo as fronteiras do rock. Paralelamente, a música negra encontrou sua própria forma de reação: Aretha Franklin consolidou-se como “Rainha do Soul”, James Brown inaugurou o funk moderno, e a gravadora Motown (Stevie Wonder, Marvin Gaye, Supremes, Temptations) dominou as paradas, oferecendo uma alternativa negra ao rock branco britânico.

No final da década, surgiram nomes que consolidaram um rock mais direto e multicultural. O Creedence Clearwater Revival resgatou as raízes do rock com um som cru e essencial; Janis Joplin trouxe intensidade ao blues-rock; Santana misturou rock com ritmos latinos; Crosby, Stills & Nash elevaram o folk-rock com harmonias sofisticadas; e Jimi Hendrix reinventou a guitarra elétrica ao fundir blues, soul e psicodelia. Essa evolução culminou em 1969 no Festival de Woodstock, símbolo máximo da contracultura e da utopia coletiva juvenil. Com apresentações históricas de Hendrix, Santana, Janis Joplin, The Who, Richie Havens e Joe Cocker, Woodstock representou o auge da cultura hippie e, ao mesmo tempo, marcou o início de seu declínio.

Apesar de sua força cultural, o rock não se manteve como o gênero mais consumido nas décadas seguintes. A partir dos anos 2010, o hip-hop e o pop ultrapassaram o rock em popularidade global, embora o gênero ainda mantenha grande influência, especialmente em formatos físicos (como vinil) e no legado histórico.

Em síntese, a British Invasion não apagou o rock americano, mas o desafiou a olhar para suas próprias raízes. A resposta foi múltipla: o folk-rock de Dylan e Byrds, o garage cru, a psicodelia da Costa Oeste, o soul e funk de artistas negros, e o rock pesado e multicultural que explodiu em Woodstock. Essa reinvenção não apenas equilibrou o duelo transatlântico, mas consolidou os Estados Unidos como berço de novas vertentes que moldaram os anos 1970.

Autor: Juarez Vieira da Silva Filho

Dudu Pinheiro

Dudu Pinheiro é mestre em música pela UFRJ. Multi-instrumentista, dedica-se à percussão e ao cavaquinho, e é também compositor. Atualmente integra a bateria da Mangueira, coleciona inúmeras apresentações musicais e tem músicas gravadas, tendo sido premiado em concurso nacional de composição de marchinhas de carnaval.

Juarez Vieira

Quando Juarezito nasceu no Hospital Santo Antônio de Peçanha, o rádio da enfermeira tocava “Rock Around the Clock”. Ouviu com atenção e nunca mais parou, incluindo o Blues nesta convivência. Vive intensamente, o bastante para se transformar em Enciclopédia, preparado para escrever artigos que irão deliciar. 

Compartilhe

Uma resposta

  1. Juarezito, conhecedor sem igual sobre música e conhecimentos gerais.
    Adoro navegar pelos infinitos assuntos que ele me proporciona na mesa do cafezinho da manhã ou da tarde !

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *