A cabeça do santo e o absurdo que é a cara do Brasil

Publicado em: 28/06/2025 às 07:52

Atualizado em: 30/06/2025 às 23:46

Compartilhe

Ao redor do mundo todo há uma curiosidade, um magnetismo que a cultura brasileira desperta. Seja por causa do jeito tão acolhedor do brasileiro, seja por causa do jeitinho para lidar com tudo, seja por causa da energia inabalável mesmo diante de tantas dificuldades, fato é que o Brasil tem sim um charme só seu.

O mais engraçado é que parece que não só o mundo, mas também os próprios brasileiros só agora estão começando a entender – ou mesmo valorizar isso. São vários os sinais, sendo um deles a literatura brasileira em plena expansão- e o melhor: não com livros que replicam as fórmulas ou as histórias estrangeiras, mocinhas e heróis que vivem no exterior, mas tramas, dilemas e personagens que são o reflexo perfeito do que de fato é o Brasil.

É nesse cenário efervescente que a literatura nacional contemporânea tem revelado joias tão únicas como nosso país – e, da mesma forma como aplaude nosso cinema, o mundo tem parado para celebrar nossa literatura também. Prova disso são fatos como Tudo é Rio, de Carla Madeira, ser reconhecido o livro do ano em 2024 por Portugal, e Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, ser o único representante de língua não inglesa entre os finalistas do britânico International Booker Prize também no ano passado. Ambos são livros grandiosos, que retratam cidades do interior do Brasil, personagens que são a cara do país, dilemas e questões que soam tão familiares: a mãe que leva as fornadas de empada no tabuleiro, a desigualdade social, a questão agrária, a violência no campo.

Outra autora que vem se destacando no cenário contemporâneo é Socorro Acioli. Ela já havia ganhado o prêmio Jabuti pelo seu trabalho infantojuvenil, mas foi com A cabeça do Santo, publicado em 2014, que caiu no gosto dos leitores brasileiros. E não é pra menos: o livro é fácil, fluido, leve e, claro, tão familiar, tão a cara do Brasil.

“Lembrou-se de Mariinha, que gostava de tapioca com café. Essas lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com cheiro. Sempre o cheiro da mãe.”

Foi em uma oficina literária com Gabriel García Márquez que a autora criou a história de Samuel, um homem que perde sua mãe e com isso fica sozinho no mundo, em busca de cumprir sua última promessa feita a ela: acender uma vela nos pés das estátuas de Padre Cícero, São Francisco e Santo Antônio. Uma missão que começa sofrida, mas que logo vai ganhando os traços de uma aventura tragicômica tão brasileira. Os toques de magia vão se misturando com fatos tão familiares: o radialista que transforma tudo em notícia, a casa que todos juram que é mal assombrada, a religiosidade popular e as lendas locais, a devota fervorosa que não é lá tão santa assim, o prefeito corrupto, os acontecimentos da cidade que se espalham na velocidade da luz com a ajuda das fofoqueiras. E tudo se passa em torno de uma estátua de Santo Antônio, um monumento que seria tão importante para a comunidade, mas que por conta de erros em sua construção teve sua cabeça descolada do corpo, rolando ladeira abaixo.

“Era, sim, uma cabeça de santo, oca, gigantesca, assustadora, coberta de mato na cidade de Candeia. Um santo degolado era o seu único abrigo no mundo, e foi pra lá que ele voltou. (…) Viu de novo a cabeça, aterrorizante, mas dessa vez subiu a vista para o alto do morro e descobriu, espantado, que o resto do corpo do santo estava lá em cima.”

O mais incrível é que esse fato, o mais absurdo em meio a tanto realismo mágico, é na verdade baseado em algo que realmente aconteceu. No Ceará, na cidade de Caridade, a cabeça de Santo Antônio foi parar longe do corpo – e, o melhor, na divisa de dois lotes, com um muro no meio. Não seria isso o puro suco do Brasil?

E é assim, misturando o absurdo que é real, personagens que são tão genuinamente brasileiros e uma escrita contagiante, que Socorro Acioli cativa, envolve, arranca risadas e nos entrega um livro que abraça.

“- Final, final mesmo, Samuel, é só quando eu baixar teu caixão na cova. Ainda dá tempo.
– Tu sonha muito, Chico.
– Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra.”

Luísa Vieira França

Luísa Vieira França, capricorniana, nasceu em Belo Horizonte. Fez Engenharia Química, mas enveredou pelo Marketing Digital. Gosta de livros - cria Clubes de Leitura por onde anda -, Taylor Swift, boa comida, viajar e, principalmente, do Luiz, seu marido.

Compartilhe

Uma resposta

Deixe um comentário para Ana Cristina Schuchter Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *