A infância como projeto de cidade

Publicado em: 31/10/2025 às 11:41

Atualizado em: 31/10/2025 às 11:41

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Foto: André Massahud - “O terrão”, 2023

Vivemos esse tempo estranho e nefasto da adultização. Crianças, cada vez mais cedo, são empurradas para o palco do mundo adulto, com seus corpos expostos, seus gestos imitados, suas falas e suas existências monetizadas por criminosos. É uma adultização cruel, guiada pelo mercado. Uma infância que se esvai em curtidas, engajamentos e muitas cifras. É o fim precoce da imaginação, e com ela, da possibilidade de sonhar outro mundo.

Por outro lado, deixamos pra lá uma emancipação possível, que não mutila, mas encoraja e educa. Uma que não se traduz em miniaturas de adultos, e sim em crianças vistas como sujeitos políticos, legítimos participantes de processos que moldam o presente e o futuro. Incluir a infância no debate público e, sobretudo, nas decisões sobre as cidades talvez seja uma das revoluções mais potentes para a humanidade.

As cidades foram e são, historicamente, planejadas a partir de um olhar adulto, masculino, burguês e produtivista. Ruas projetadas para carros, praças transformadas em estacionamentos, muros altos, câmeras e portões. A infância ficou confinada entre o quintal e a tela. E, quando aparece, é tratada como um problema de segurança, mobilidade e logística. Raramente como fonte de sabedoria.

No entanto, quando escutamos as crianças, tudo muda. Elas enxergam o que os adultos esquecem de ver. Percebem o micro, o detalhe, o afeto, a textura e o gosto da cidade. Sabem onde mora o perigo, mas também onde mora o encanto. Projetos que incorporam de fato a escuta infantil mostram que as contribuições das crianças transformam políticas públicas em algo mais real, mais sensível e mais humano.

Em alguns lugares do mundo, como em Barcelona, Lisboa e Bogotá, crianças participam de laboratórios urbanos, opinam sobre o uso das praças, desenham ciclovias, propõem caminhos seguros até a escola. É simples e revolucionário. Quando perguntadas o que mais gostam na cidade, é certo que respondem: “brincar com os amigos”. Parece banal, mas é disso que trata o direito à cidade: poder existir com leveza, se mover com autonomia, pertencer, desfrutar e participar da vida urbana sem medo. É poder se expressar e reinventar a cidade.

No Brasil, essa discussão é ainda mais necessária. Aqui, a infância é negada desde cedo. Nossas crianças são as primeiras a sentir o peso da desigualdade, da falta de tempo e de espaço. Em muitos territórios, brincar é luxo, o lúdico é substituído pela sobrevivência. Falta creche, falta praça, falta segurança e, sobretudo, escuta. 

Mas há caminhos possíveis. Incluir as crianças sistematicamente nos processos de planejamento urbano, nas conferências de cidade, nos conselhos de políticas públicas e nos diagnósticos participativos é uma forma concreta de reconstruir o tecido social. Escutar como elas percebem o bairro, quais caminhos fazem, onde se sentem seguras ou livres, pode transformar completamente o modo como desenhamos espaços. Já temos resultados concretos de pequenas experiências de urbanismo social nesse sentido, espalhadas por todo nosso país. Precisamos conhecê-las, melhorá-las e difundi-las. 

Garantir o direito à infância é também garantir o direito ao espaço público. Uma cidade que respeita e inclui as crianças é uma cidade que compreende os afetos e os modos de viver. Onde há lugar para brincar, há lugar para viver. Onde há bancos, sombras e árvores, há encontros, trocas, convivência. E onde há escuta, há democracia em seu sentido mais literal.

Parece utópico, mas é possível. Nosso papel é simples, fiscalizar e repreender veementemente a adultização do corpo das nossas crianças e por outro lado deixar de infantilizar o pensamento crítico delas. É urgente aprender com elas. Aprender com sua ousadia, sua criatividade, sua capacidade de imaginar o impossível. Incluir a infância nos diagnósticos e na formulação de políticas não é romantismo, é inteligência coletiva.

Penso que o verdadeiro amadurecimento da humanidade reside justamente em reconhecer a força política da imaginação infantil. Francesco Tonucci, pedagogo, psicólogo e desenhista italiano amplamente reconhecido por suas reflexões sobre educação, infância e cidadania, afirma que “uma cidade boa para as crianças é uma cidade boa para todos”. Devemos escutar Tonucci e também nosso ilustre Milton Nascimento – Bituca, que em Bola de Meia, Bola de Gude nos convida a não nos afastarmos da criança interior, talvez seja ela quem possa nos orientar nos passos para incluir a infância na formulação de nossas políticas urbanas. 

É como canta o mestre: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração; toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão.”

André Duarte Massahud

André Duarte Massahud formado em Direito pela Faculdade Milton Campos, estuda Artes Visuais na UEMG. Consultor da Alfa Consultoria em Saúde e Sustentabilidade e cofundador da Trama Coletiva. Possui experiência em projetos de educação, cultura, desenvolvimento socioterritorial e socioambiental, especialmente ligados às periferias e populações vulneráveis. Entusiasta de trabalhos de impacto social,

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Respostas de 3

  1. No mês das crianças, André lhes dá presente valioso em forma de ideias sobre como tratá-las com mais respeito e atenção. E como é possível buscar uma formação adequada aos futuros adultos. Todos, exatamente todos deveriam ler esta analise aprofundada. Mesmo que não é pai.
    Nossas crianças certamente agradeceriam o presente que André lhes oferece com ternura.

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