A infantilização da velhice

Publicado em: 30/09/2025 às 08:38

Atualizado em: 30/09/2025 às 13:17

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Melhor idade é aquela na qual você dispõe de qualidade de vida, independentemente dos anos de vida. (Alexandre Kalache)

O Brasil envelhece rapidamente, mas ainda não aprendeu a lidar com a própria velhice. Apesar dos avanços em longevidade, persiste uma visão que mistura preconceito, romantização e infantilização da pessoa idosa.

Um dos sinais mais evidentes está na linguagem. Palavras moldam realidades, e quando chamamos idosos de “fofinhos”, “vovozinhos” ou usamos diminutivos como “vista o casaquinho” “calce o sapatinho”, estamos reduzindo sua identidade a uma caricatura. Parece afeto, mas é uma forma de se autorizá-los, como se fossem crianças sem autonomia. O mesmo ocorre quando familiares falam “ele não entende mais nada”, interrompem a fala de uma pessoa mais velha em uma conversa e criticam as dificuldades com uso de celular ou controle remoto da TV. Esses gestos cotidianos revelam a raiz do etarismo.

A romantização também tem seu peso. O termo “melhor idade” tenta esconder os desafios do envelhecimento, como se bastasse trocar o nome para transformar a realidade. Mas a realidade é outra: milhões de brasileiros envelhecem em condições de abandono, enfrentam precariedade no atendimento de saúde, exclusão no trabalho e solidão dentro das próprias famílias. Para quem convive com limitações físicas ou financeiras, chamar essa fase de “melhor” soa quase como ironia.

O etarismo se manifesta de formas sutis e cruéis. Está nas piadas sobre “memória fraca”, nos estereótipos de lentidão, nas portas fechadas do mercado de trabalho para quem ultrapassa os 50. Mas também está na invisibilidade: muitas vezes, o idoso é simplesmente ignorado, como se já não tivesse nada a contribuir.

Envelhecer não deveria ser sinônimo de perda de lugar social. Ao contrário, é quando a experiência de vida deveria ganhar espaço. No entanto, em vez de reconhecermos a velhice como uma etapa plena de direitos e possibilidades, seguimos tratando-a como um problema a ser escondido ou amenizado por palavras doces.

O Brasil precisa decidir: quer ser um país que enxerga a velhice como fardo ou como parte digna da trajetória humana? Enquanto insistirmos em infantilizar os velhos, estaremos apenas disfarçando um preconceito que nos alcançará a todos, porque 

“Envelhecer é ainda o único meio que se descobriu de viver muito tempo.” (Charles Augustin Sainte-Beuve, crítico e poeta francês).

Autora: Odette Castro

CARTA A JOSEFA, MINHA AVÓ

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio começava a gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua cama, lume da tua lareira, – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz. 

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos da rua, casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti a palavra Vietnam é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de palmo. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?). Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. Como tu não vi rir ninguém.

Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber onde é o mundo. Chegaste ao fim da vida e o mundo é para ti o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior.

Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!” Isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

(José Saramago, in Deste Mundo e do Outro ,1971)

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

José de Sousa Saramago

José de Sousa Saramago (1922 - 20210 é um dos maiores escritores portugueses, Prêmio Nobel em 1998, vários livros adaptados para cinema, ópera, teatro, escrevia em estilo oral, muito cativante.

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Respostas de 2

  1. Tem todo brilho é sensível, nem toda sensibilidade brilha. Aqui os encontrei imbricados.

  2. Muito interessante e verdadeiro os dois textos! Admiro muito quem tem o poder da escrita tão clara, como as que acabei de ler. Adoro ler os textos aqui. Parabéns

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