Brincadeira é coisa séria

Publicado em: 30/09/2025 às 08:41

Atualizado em: 30/09/2025 às 15:05

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Fazer uma  entrevista dentro de uma loja de brinquedos nos leva a um passeio  em uma carruagem onde os pés ganham asas. É nesse cenário que conhecemos o voo artístico e empresarial de Ana Luísa Pires Vieira da Silva, 57 anos, mãe da Flora e proprietária da Traquitana – uma das lojas de brinquedos mais originais de Belo Horizonte ou de qualquer lugar.                                                 

Como é ser filha de um professor, filósofo e amante da literatura do porte de Oscar Vieira da Silva?

Ana Luísa me responde com um sorriso largo e fala solta: 

Na minha casa, os livros praticamente se sentavam à mesa. O trabalho intenso do meu pai fazia com que muitas vezes nos víssemos  pouco. Lembro que, certa noite, quando eu tinha apenas dois anos, ele entrou no meu quarto e eu o estranhei. Mas, apesar da timidez, ele foi sempre meu norte. Nos momentos mais decisivos, trazia a palavra certa, baseada na literatura e na cultura.

Filha única, criada em um ambiente à frente de seu tempo, Ana buscou cedo novos caminhos. Inscreveu-se, sem contar aos pais, em uma escola de teatro, onde teve como professor nosso editor Wilson de Oliveira. Ao descobrir, seu pai não a desencorajou. Pelo contrário: sugeriu até que fosse estudar em São Paulo. Ela optou por ficar em Belo Horizonte e, a convite de Bia Apocalypse, entrou para o Giramundo, tradicional grupo de teatro de bonecos.

Foi lá que conheceu o bonequeiro Agnaldo Pinho. A grande amizade inicial se transformou em amor. Num dia de sol aberto e beirando o casamento, o pai perguntou ao noivo:

– Você não vai trabalhar? Como é que fica esse negócio?

– Trabalho formal, carteira assinada? Não. Este eu não vou ter.

– Então me resta ficar por perto, concluiu o pai.

E sempre esteve por perto.

No dia do casamento civil, o pai vestido de forma clássica se encontra com o futuro genro de terno amarelo curto e gravata azul com bolinhas lilás. As diferenças selaram uma amizade duradoura.

Agnaldo tinha muito material de cenários e das artes, então precisavam de um espaço para as oficinas e se mudaram para uma casa com galpãozinho no bairro Santo Antônio.

Ali ele começou a fazer bonecos e os dois juntos começaram a vender estes bonecos. Outros brinquedos foram surgindo e como ela não estava mais no Giramundo, a ideia de abrir uma loja foi ganhando força. Juntos, visitaram lojas em várias cidades e seu olhar de pedagoga com graduação em pedagogia empresarial foi muito importante neste processo. A pedagogia e a arte se encontraram para criar brinquedos, como uma ponte entre imaginação e aprendizado. O ponto estratégico escolhido foi a Rua Major Lopes, ao lado do tradicional Salão Pedrinho, referência em corte de cabelo para o público infantil da cidade. Assim surgiu Traquitana, nome sugerido por Zé Bento, o amigo também artista.

Desde o início, a loja trouxe um conceito inovador: brinquedos educativos, oficinas para crianças e um espaço de interação. Nada de personagens prontos do mercado internacional. Ali o cavalo de pau não fala inglês e  Emília, Saci e soldadinhos de chumbo reinam em harmonia. A curadoria é rigorosa: todos os brinquedos têm selo do Inmetro e passam pelo olhar criterioso de Ana Luísa.

Vendemos o que acreditamos – e nossos clientes acreditam em nós, afirma.

O espírito empreendedor não parou no tempo. Com as mudanças no consumo e a chegada da era digital, Ana Luísa continuou se capacitando em cursos de empreendedorismo. Hoje, a Traquitana também se adapta às novas demandas da internet e do comércio online, sem perder a essência. Nesse processo, conta com a parceria fundamental da Flora, filha, designer de estampas, que  deixou conceituada loja de roupas para mergulhar no universo dos brinquedos, trazendo um olhar jovem e inovador para o futuro da marca.

Nos últimos anos, mãe e filha enfrentam momentos desafiadores. A morte do pai e avô, seguida da partida precoce de Agnaldo, foram perdas dolorosas. Mas a resiliência falou mais alto. Mesmo com o final do casamento, Ana Luisa e Agnaldo mantiveram amizade e ele seguiu colaborando na criação da loja, inclusive na mudança para a Rua Raul Pompéia.

Em meio ao luto, Ana Luísa encontrou força na memória do pai e doou toda a biblioteca do professor Oscar Vieira da Silva para a cidade de Peçanha, terra natal da família. 

Trago em mim memórias vivas do interior, mesmo sem nunca ter morado lá. As matas, os morros e a cultura são marcas permanentes na minha caminhada, diz.

Dona de uma alegria nata, amante da música popular brasileira e das conversas com amigos, Ana Luisa recarrega as energias no sítio da mãe Sônia Maria Pires, um lugar mágico, cercado de vegetação preservada.

A história de Ana Luísa é feita de letras que se transformam em brinquedos, de tradição que se renova na modernidade, de raízes culturais que encontram espaço na internet. A Traquitana, mais que loja, é um espaço onde a infância resiste e se reinventa.

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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Respostas de 3

  1. A Traquitana é um encanto! É somente lá que compro presentes para crianças. Não sabia de sua linda história e de sua ligação com Peçanha. Reitero os parabéns às proprietárias e à redatora, que nos brindou com uma narrativa com o mesmo encantamento da loja!

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