Cada coisa tem seu tempo

Publicado em: 31/10/2025 às 11:04

Atualizado em: 31/10/2025 às 11:06

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Expor a criança às questões que pertencem ao mundo adulto, seja no campo sexual, social, emocional ou até mesmo estético, traz consequências muito delicadas e não menos sérias. Freud, ao falar sobre a infância, ressalta sua importância estrutural para a constituição subjetiva dos sujeitos. É nessa fase que a criança começa a elaborar suas próprias experiências e descobertas com os recursos de que dispõe, e esse exercício é de grande importância. 

Em seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, por exemplo, Freud nos mostra a capacidade da criança de teorizar a respeito do que desconhece, ou seja, a origem dos bebês e o mistério do sexo. Tais teorias revelam uma atividade psíquica que, posteriormente, culminará no pensamento sexual adulto. São tentativas imaginativas, baseadas em observação e fantasias, mas fundamentais. Elas revelam o caráter investigativo da sexualidade infantil e são parte essencial da formação do sujeito. Além disso, conferem à criança um apaziguamento, permitindo que ela sustente um saber próprio, frente a algo que se apresenta como um enigma, reduzindo assim sua angústia. Trata-se de um passo essencial no seu desenvolvimento. É um modo de suportar a frustração do não saber criando uma narrativa que a proteja do desamparo.

Ao lado do fantasiar, o brincar também tem um papel relevante na infância. É através das brincadeiras que a criança encena seus desejos, medos e afetos que ainda não consegue nomear, elaborando situações difíceis como perdas e separações. Em outro texto de Freud, Além do princípio do prazer, mais uma vez, ele traz uma grande contribuição a esse respeito. Ao observar uma criança brincando com um carretel, descreve o que nomeia como o jogo do “fort-da”, termos em alemão que significam respectivamente “foi embora – aqui”, ou seja o vai e vem do carretel, que ela arremessa e puxa de volta, para simbolizar a ausência e o retorno da mãe. Valendo-se então dessa brincadeira, a criança utiliza um meio próprio de se comunicar e transformar a dor da separação em algo que ela consiga controlar e representar. 

Assim trata-se de um simples jogo, mas que, sem dúvida,contribui de modo significativo para o desenvolvimento psíquico da criança, pois ela está exercitando sua capacidade criativa, para lidar com algo que não pode expressar em palavras, pois ainda não dispõe de um repertório linguístico para tanto. Entretanto, ao ter seu espaço invadido pelo adulto, ela perde esse tempo precioso de fantasiar, brincar, criar e até mesmo sonhar, diante da demanda de ser como “gente grande”, para tentar corresponder ao desejo do Outro. Logo quando há uma precipitação na direção do mundo adulto, as consequências não deixam de ser devastadoras. Sintomas como ansiedade, angústia, sexualização precoce, até mesmo depressão, e mais recentemente a proliferação de diagnósticos de TDAH, podem ser facilmente percebidos. Isso porque a criança não dispõe dos recursos necessários para lidar com o universo dos adultos, ou seja, há um excesso que ela ainda não tem como simbolizar, o que pode inclusive acarretar em trauma.
Assim, faz-se premente respeitar esse tempo subjetivo que constitui a infância, para proteger a criança da intrusão do desejo do adulto. Não devemos nos esquecer: “cada coisa tem seu tempo”

Autora: Maria do Carmo de Melo Pinheiro

ANTES QUE ELAS CRESÇAM

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então, com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, disputa pela janela, pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Autor: Affonso Romano de Sant’Anna

Maria do Carmo de Melo Pinheiro

Maria do Carmo de Melo Pinheiro - mcmpinheiro@yahoo.com.br - Psicóloga, com especialização em “Saúde do Adolescente” pela Faculdade de Medicina da UFMG e mestre em "Estudos Psicanalíticos " pela UFMG. Atuação: atendimentos clínicos, de modo presencial ou on-line.

Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna (1937 - 2025) escritor e poeta, formado pela FAFICH - Faculdade de Letras da UFMG, participou de vários movimentos de vanguarda. Lecionou nas Universidades de Los Angeles (California); Colônia (Alemanha); Aarhus (Dinamarca); Nova (Portugal) e Aix-en-Provence (França). Cronista de vários jornais e livros publicados, foi casado com a também escritora Marina Colasanti.

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Respostas de 2

  1. As crianças estão assumindo responsabilidades que não deveriam assumir ainda.
    Matéria oportuna de que entende.
    Fica o alerta aos pais.

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