Don’t cry for me, Venezuela!

Publicado em: 30/01/2026 às 08:59

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No dia seguinte ao sequestro de Nicolás Maduro por soldados americanos a mando de Donald Trump, liguei para meu amigo Alexis em Caracas. Ele estava no carro para carregar o celular porque seu bairro estava sem luz. Alexis é o meu amigo mais antigo. Nos conhecemos na década de 1950, quando éramos vizinhos no bairro de Los Palos Grandes, em Caracas, e frequentamos a mesma escola primária. Éramos bons alunos e, como a maioria dos meninos na Venezuela, fãs de beisebol. Nos tornamos amigos apesar de Alexis torcer para o Navegantes del Magallanes, o maior rival do meu amado Leones del Caracas. Setenta anos depois, ainda nos telefonamos nos nossos aniversários.

Alexis estava de ótimo humor quando atendeu o telefone. Ele detestava Maduro e tinha participado das manifestações ​ nas ruas em apoio à líder da oposição, María Corina Machado. Nos meses anteriores, enquanto os EUA destruíam lanchas venezuelanas em alto-mar, bloqueavam a costa da Venezuela e, por fim, bombardeavam um porto, trocávamos telefonemas e mensagens pelo WhatsApp. Normalmente, os venezuelanos da geração de Alexis teriam se oposto à intervenção norte-americana em seu país, mas agora muitos a apoiavam. O governo Maduro havia trazido miséria e opressão inimagináveis ​​à Venezuela. Seus oponentes haviam tentado todos os meios possíveis para derrubar seu regime pacificamente. Eles haviam vencido a última eleição presidencial por uma ampla maioria, e sua líder havia recebido o Prêmio Nobel da Paz. Nada havia funcionado. Para muitos venezuelanos, incluindo María Corina, a intervenção armada oferecia a única esperança de acabar com um pesadelo que durava mais de 25 anos.

Eu havia alertado Alexis para não confiar em nada que Donald Trump dissesse ou fizesse. Trump é um egomaníaco, eu disse, que está interessado principalmente na glória pessoal e no enriquecimento de sua família. Ele não se importa com a democracia nem alguma coisa da Venezuela, exceto talvez o petróleo. Ele trai as pessoas assim que elas deixam de  ser  úteis a ele. É um autocrata em casa e um imperialista no exterior. O “narcoterrorismo” de Maduro, como Trump o chamou, foi em grande parte uma desculpa para a intervenção dos EUA. Praticamente nenhum fentanil — a droga que mais mata americanos — passa pela Venezuela, e a maior parte da cocaína que atravessa o país tem como destino a Europa e outros países do outro lado do Atlântico. Mesmo assim, para os venezuelanos opositores a Maduro, a operação americana que o capturou em 3 de janeiro foi motivo de comemoração (embora discreta, para evitar a prisão). O ditador bigodudo havia desaparecido, e havia esperança de que María Corina e seu sucessor, o presidente eleito Edmundo González, pudessem em breve ocupar seus lugares de direito na Casa Branca da Venezuela, o Palácio de Miraflores.

Minha história pessoal está intimamente ligada à Venezuela e à sua indústria petrolífera. Meu pai trabalhava para uma refinaria norte-americana em Caracas. Eu era bebê quando minha família chegou lá, proveniente  dos Estados Unidos, em 1949. Meus três irmãos e eu crescemos em Caracas. Embora fôssemos norte-americanos, amávamos a Venezuela e a considerávamos nosso lar. Também vivenciamos alguns dos períodos mais turbulentos da história do país: a ditadura de dez anos do General Marcos Pérez Jiménez; o golpe de Estado que depôs Pérez Jiménez em 1958; a eleição livre, ainda naquele ano, do Presidente Rómulo Betancourt, que alinhou a Venezuela a outras democracias e se opôs às ditaduras; a eleição do sucessor de Betancourt em 1964; e o crescimento da democracia venezuelana, apesar de ocasionais rebeliões militares e ataques de guerrilheiros de esquerda.

Minha família retornou aos Estados Unidos no final da década de 1960 e, nas três décadas seguintes, visitei a Venezuela apenas algumas vezes. Minha última viagem a Caracas foi em 1998, pouco antes de Hugo Chávez ser eleito presidente e a Venezuela iniciar sua longa e trágica derrocada rumo ao despotismo. Ironicamente, um dos líderes políticos que mais me lembra Chávez é Donald Trump. Ambos se candidataram à presidência como outsiders carismáticos, desafiando o sistema vigente. Ambos foram eleitos apesar de terem tentado derrubar seus próprios governos (Chávez em 1992, Trump em 2020). Ambos criaram cultos de personalidade e proferiram discursos longos e desconexos, que iam de um assunto para outro sem muita conexão lógica. Ambos usaram os instrumentos da democracia para estabelecer autocracias (Chávez com sucesso, Trump parcialmente), neutralizando seus legislativos nacionais e estabelecendo controle sobre seus judiciários. Chávez morreu de câncer em 2013, deixando a Venezuela para seu vice-presidente, o repressivo e incompetente Maduro. Enquanto isso, Trump continua vivo, cada vez mais errático e irracional, reivindicando o controle da Venezuela e ameaçando Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e até mesmo o Irã.

A operação que prendeu Maduro violou tanto a lei dos EUA, que proíbe atos de guerra sem aprovação do Congresso, quanto o direito internacional, que proíbe o sequestro de chefes de Estado e a apreensão de bens de um país por outro. Mas, como alguém que ama a Venezuela e lamenta a virtual destruição pelos bolivarianos de um país outrora belo, eu simpatizei com Alexis e outros venezuelanos que aplaudiram a intervenção dos EUA. Como eles, eu esperava que um primeiro passo tivesse sido dado rumo à restauração da liberdade, da autodeterminação e da prosperidade do país. Mas eu temia, conhecendo Donald Trump, que ele fizesse os venezuelanos se arrependerem do dia em que depositaram qualquer confiança nele.

Nos dias que se seguiram à prisão de Maduro, Trump pouco fez para justificar essa confiança. Ele pareceu descartar María Corina Machado, dizendo que ela “não tem o apoio nem o respeito” para governar a Venezuela. Ele disse que negociaria com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e agora presidente interina da Venezuela, mantendo efetivamente todo o aparato repressivo de Maduro: o exército, a polícia, os serviços de inteligência e os coletivos paramilitares. Trump afirmou que “governaria” a Venezuela indefinidamente. De forma absurda, ele chegou a publicar uma página falsa na Wikipédia declarando-se o “Presidente Interino da Venezuela”. Como disse o escritor venezuelano Armando Ledezma na revista The New Yorker, “alguns de nós temem que tenhamos trocado um déspota não eleito por outro”.

Trump talvez não conhecesse a palavra, mas estava praticando realpolitik: política pragmática. Remover o governo de um país tão grande quanto a Venezuela exigiria uma invasão e ocupação militar em larga escala, o que não seria tolerado pela maioria dos eleitores americanos — incluindo os apoiadores mais fervorosos de Trump. E, como George W. Bush aprendeu no Iraque, eliminar um governo inteiro e desmantelar suas forças armadas poderia levar ao caos e a uma longa e sangrenta insurreição. Melhor deixar os bolivarianos no comando e fazer com que Delcy Rodríguez cumprisse ordens sob a ameaça de novas ações militares e a promessa de maior prosperidade econômica. Para esse fim, o vice-rei de Trump para assuntos exteriores, Marco Rubio, anunciou um plano de três pontos para a Venezuela: uma fase de recuperação e estabilização “garantindo que empresas americanas, ocidentais e de outros países tenham acesso ao mercado venezuelano”; um “processo de reconciliação… para que as forças de oposição possam ser anistiadas e libertadas da prisão ou trazidas de volta ao país”; e, finalmente, uma transição para a democracia. Quanto tempo isso levaria? Quem sabe? Anos, talvez. “Em resumo”, disse Rubio, “nós… temos enorme controle e influência sobre o que essas autoridades interinas estão fazendo.

Será que o plano vai funcionar? Não, segundo Chris Murphy, senador democrata pelo estado de Connecticut. “Eles estão falando em roubar o petróleo venezuelano à força, por um período indefinido, como forma de pressionar e microgerenciar o país”, disse Murphy. “A abrangência e a insanidade desse plano são absolutamente impressionantes.” Muitas das grandes empresas petrolíferas americanas pareceram relutantes, pelo menos a princípio, em concordar com Trump e investir os US$ 100 bilhões que ele exigiu para revitalizar a indústria petrolífera venezuelana. (O CEO da Exxon Mobil chamou a Venezuela de “inviável para investimentos”.) Na verdade, os EUA, o maior produtor mundial de petróleo bruto, nem precisam do petróleo venezuelano. O principal objetivo de Trump ao confiscar o petróleo pode ter sido, na verdade, negar o produto ao país que mais o deseja: a China e Cuba. E mesmo que a economia da Venezuela melhore sob a tutela dos EUA, como Trump pode garantir que os benefícios cheguem aos cidadãos venezuelanos e não a um governo conhecido por sua corrupção?

De qualquer forma, é evidente que María Corina Machado terá que esperar para realizar seu sonho de retorno à democracia na Venezuela. Esse sonho está bem abaixo na lista de prioridades de Trump, depois de vender petróleo venezuelano, reverter o fluxo de imigrantes venezuelanos para os EUA e consolidar a hegemonia americana na América Latina. Tem sido difícil ver uma líder da coragem e estatura de Machado se humilhar diante de Trump, apoiando a mentira de que a eleição presidencial de 2020 foi roubada, dedicando-lhe o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo lhe concedendo a medalha de ouro do Nobel. Afinal, Trump é o homem que enviou mais de 250 imigrantes venezuelanos para uma brutal prisão de segurança máxima em El Salvador e matou cerca de 100 pessoas em lanchas venezuelanas no Caribe. Seus agentes do ICE ainda caçam venezuelanos nas ruas das cidades americanas. Mas Machado também pratica a realpolitik: todos sabem que a melhor maneira de obter o apoio de Trump (além de enriquecê-lo) é bajulá-lo descaradamente. Para seus fãs, entregar a medalha Nobel foi apenas mais um dos muitos sacrifícios que ela se dispôs a fazer por seu país. O problema é que se curvar a Trump nem sempre funciona.

Em 15 de janeiro, Trump se reuniu com Machado na Casa Branca, e depois ela disse que os venezuelanos estavam “contando com o presidente Trump” para sua liberdade. Trump, por sua vez, agradeceu a Machado pela medalha Nobel e disse que ela era “uma mulher maravilhosa que passou por tanta coisa”. Aparentemente, sua gratidão não passou disso. No mesmo dia, o diretor da CIA, John Ratcliffe, se reuniu em Caracas com Delcy Rodríguez — a mulher que ajudou a impedir que Machado se candidatasse à presidência da Venezuela em 2024 — “para transmitir a mensagem de que os Estados Unidos esperam uma relação de trabalho melhorada”. (Segundo relatos, foi a CIA que disse a Trump que Rodríguez era uma política pragmática com quem os EUA poderiam trabalhar.) O próprio Trump havia falado com Rodríguez por telefone no dia anterior. Eles teriam conversado sobre petróleo, minerais, comércio e segurança. Trump disse que os EUA querem “ajudar a Venezuela a se estabilizar e se recuperar” e chamou Rodríguez de “uma pessoa fantástica”. Ele pareceu se esquecer da participação dela em um regime que violou os direitos humanos e prendeu e torturou seus oponentes. Ou talvez não. Ao longo dos anos, Trump elogiou alguns dos piores opressores do mundo, chamando Vladimir Putin de um grande líder e dizendo que se apaixonou por Kim Jong-un.

Trump não é conhecido por ser um homem que pensa bem as coisas, então provavelmente não refletiu muito sobre o quão difícil seria “governar” a Venezuela. Segundo o The New York Times, pode ser extremamente difícil. “Guerrilheiros colombianos dominam a região da fronteira (oeste do país)“, observou o Times em 18 de janeiro. “Paramilitares e milícias estão entrincheirados nas cidades. Gangues criminosas controlam a mineração no sul.” Empresas estrangeiras não vão querer investir em um país que consideram instável. Então, “o governo central precisa impor autoridade sobre áreas controladas por sindicatos do crime bem armados ou agentes paramilitares, estrangulando suas fontes de renda provenientes de atividades ilegais, incluindo extorsão, tráfico de drogas e sequestro.” Isso, segundo um sociólogo citado pelo Times, pode aumentar o conflito “tanto entre grupos armados criminosos quanto entre grupos criminosos e o Estado”.

Depois, há o próprio governo, que o Times descreveu como “uma aliança frágil entre facções civis lideradas por (Delcy) Rodríguez e seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, e facções militares lideradas pelo Ministro do Interior, Diosdado Cabello, e pelo Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López”. Segundo o jornal, “as forças de segurança e os serviços de inteligência estão mais alinhados com a facção militar”. Isso significa que uma ruptura entre os dois lados poderia significar o fim do governo civil, independentemente de quem o liderasse, Delcy Rodríguez ou Maria Corina Machado.

Parece um governo que eventualmente fará a transição para a democracia? Alguns dias depois do encontro de Machado com Trump em Washington, meu velho amigo Alexis me enviou uma mensagem de um professor universitário venezuelano comparando o regime bolivariano à Hidra de muitas cabeças da mitologia grega. Cada vez que uma das cabeças da Hidra era cortada, o monstro ganhava duas novas. Agora, uma das cabeças da Hidra venezuelana — Nicolás Maduro — foi removida, mas o corpo continua vivo e se regenerando. “A celebração prematura é uma armadilha”, escreveu o professor, dirigindo-se à oposição. “A Hidra sabe esperar. Pode fingir que recua. Pode até simular uma transição. A verdadeira vitória não reside em exibir a cabeça derrotada, mas sim em desmantelar as estruturas que lhe permitiram crescer: a máquina de controle; as redes de lealdade forçada; a normalização do abuso; a substituição da lei pelo medo.”
Trump e Rubio acreditam que podem controlar o monstro por meio de ameaças militares e incentivos econômicos e, eventualmente, persuadi-lo a ceder pacificamente a um novo governo democraticamente eleito. María Corina Machado permanece obstinadamente otimista, afirmando que Trump lhe garantiu estar “comprometido com a libertação de todos os presos políticos na Venezuela e com a liberdade de todos os venezuelanos”. Alguns dos apoiadores de Machado chegam a acreditar que Delcy Rodríguez colaborou com os EUA na deposição de Maduro e será tão submissa quanto Trump e Rubio desejarem. Será que estão certos? Ou vivem em um mundo de sonhos?

Chris Hunt

Chris Hunt nasceu em Dallas, Texas, e cresceu em Caracas, Venezuela. Depois de formado em História em Nova Iorque, ficou nesta cidade e trabalhou como editor nas revistas Travel & Leisure e Sports Illustrated do Grupo Time Warner. Casado com Andréa, mineira de BH, curte a vida de aposentado viajando, lendo e tocando violão.

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