Jurubeba é Nota 10

Publicado em: 28/06/2025 às 07:54

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Migrante é toda pessoa que se transfere de seu lugar habitual, de sua residência comum, ou de seu local de nascimento, para outro lugar, região ou país. Antônio Geraldo Maia, mais conhecido como Jurubeba, optou por permanecer em Peçanha. 

Nasceu em 1953, no bairro da Bomba, onde passou a infância e adolescência na companhia da avó Mundinha, da tia Bazinha e de sua mãe Julinha. Da infância tem saudade da liberdade que permeava as brincadeiras no Parque da Mãe D’Agua, na Bancada e no bairro onde morava. Na Escola Estadual Dr. Antônio da Cunha Pereira estudou até a quinta série, quando precisou interromper os estudos pois “quebrou a perna”, o que inviabilizou seu retorno. A convite do Prefeito Manoel Braga, começou a pintar faixas para eventos políticos. Transformou a atividade em profissão, tornando-se funcionário da Prefeitura Municipal onde permaneceu por 35 anos (1984 a 2019), quando efetivou sua aposentadoria. 

Morou dois anos em Belo Horizonte, emprestado para trabalhar na Campanha Política do deputado federal Ziza, na capital e no interior de Minas. Aperfeiçoou-se nesse período sua aptidão pelo desenho, com orientação do mestre Josias.

Ao saber de suas novas habilidades, Milton Perpétuo, proprietário do Clube Cacique, sugeriu a ele que pintasse um painel numa das paredes do estabelecimento. O rapaz não se intimidou. Nascia ali uma réplica do quadro Guernica, de Pablo Picasso. E além de artista plástico, atendia também como garçom e operador de som no Clube. 

Em 2013, na gestão do prefeito Eustáquio Braga, ao observar um homem bêbado que mal parava em pé, fez um esboço, depois transformado em uma pintura que ainda pode ser vista num portão de zinco da Prefeitura. Nesse mesmo ano, na reinauguração do Posto de Saúde Dr. José Pinto da Rocha, Jurubeba recebeu a escritura da “Casas Populares”, construídas no Bairro Córrego Funda. 

O interesse pela música se manifestou desde cedo. Iniciou seu aprendizado tocando tarol na Lira Paroquial 13 de Junho com músicos competentes como Zé Bené. Anos depois passou a tocar bateria a convite do Cabo Tomé, criador do Conjunto MSom7, que contava com músicos que se tornaram muito conhecidos como Newtinho, Geraldo Tutuca e Ausier. E ainda integrou, como baterista, o Conjunto do Zé Cavaquinho.

Com o apoio da administração do prefeito Sebastião Geraldo Medeiros (Babá), e o empenho de umas 30 pessoas criou-se o Grêmio Recreativo Escola de Samba Liberdade, da qual Jurubeba foi um dos idealizadores, junto com Dion Magalhães Júnior, Lado e Marcelo Mourão e Cristina Leão. Compravam fantasias de antigos carnavais do Rio de Janeiro, que eram reformadas e adaptadas para a realidade local. O cortejo percorria o espaço entre a Praça da Matriz e o Coreto, com a predominância da sociedade local. O público da cidade e das regiões vizinhas comparecia em peso. Durou mais de dez anos, não resistindo à rivalidade com a Escola de Samba da Bomba, formada pelo proletariado. 

Na Boite Quenta Sol, de propriedade do prefeito Odilon Caldeira, trabalhou como DJ, de 15 a 18 anos, com atividades encerradas em 1995, quando o Restaurante Galo de Ouro, frequentado pelas empregadas domésticas e a classe operária, tornou-se um sucesso. 

Fernando Simões define Jurubeba como pintor, DJ, percussionista, comunicador, artesão, caricaturista, calígrafo, boa prosa.

Conta que, certa vez, esse homem das múltiplas habilidades produziu e colocou prá vender uma camiseta com uma interessante charge: uma barraca da festa de Santo Antônio com dois cartazes, o primeiro com os dizeres: “temos tira gostos” e o segundo com a chamativa frase: “mé, temos”. E, dentro da barraca, um vendedor com cara de tarado! O estoque esgotou.

Atualmente promove quatro bailes anuais, com músicas dos anos 60, 70, 80 e 90 no Bar da Dóris, normalmente com lotação esgotada. Tem uma coleção de vinil, disputada por colecionadores, da qual não pretende se desfazer. 

Segundo Jurubeba, a polarização que atingiu a política poupou a cidade pelo menos em seu aspecto religioso. As igrejas evangélicas se multiplicaram (em torno de oito), mas convivem perfeitamente com os católicos e com os cultos de raiz africana. Inclusive nos confessou que, embora cristão, frequenta com satisfação os terreiros e os cultos, quando é convidado. Aponta também que, nos últimos 16 anos, a cidade mudou demais. Prá melhor. E dá exemplos: o hospital municipal com a instalação de CTI e usina de oxigênio tornou-se referência regional na administração do médico Eustáquio Braga, e a chegada do asfalto às regiões periféricas. Os bairros Alvorada e Taquaral já têm saneamento básico, ruas pavimentadas. E,importante, o retorno do Carnaval de Rua, que já foi considerado um dos melhores do Brasil. 

É conhecido por um grande otimismo e, ao ser perguntado como faz prá manter o alto astral, responde sem pestanejar: Tristeza não paga dívida.

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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