Através do amigo comum Thiago Leão conheci Kiany de Cássia Silva, geminiana, nascida no Quilombo dos Jorges, Água Branca, distrito de Peçanha. Compartilhei meu encantamento com os companheiros do Echo da Matta e logo tratamos de pedir-lhe uma prosa. É esta conversa, temperada com grãos, letras e tintas, que compartilhamos agora com vocês.
Desde muito pequena, Kiany demonstrou interesse por livros e sua mãe Solange, atenta, incentivou esse gosto: comprava cadernos, livros e fazia visitas à biblioteca da cidade. Há 30 anos, a vida na zona rural era ainda mais difícil. A precariedade do transporte, saúde e educação era companheira no dia a dia — e não foi diferente no Quilombo. Kiany conta que, com apenas 8 anos de idade, já cozinhava para cerca de 20 trabalhadores rurais. Enquanto o arroz vermelho era preparado no fogão à lenha da cozinha de chão batido, ela temperava os sonhos de uma vida melhor para si e para os seus. Intuitivamente, percebeu que só o estudo a levaria à concretização desses sonhos, desconstruindo a teoria de “- quem nasceu como eu não tem expectativas lá na roça. Criadas prá ser do lar”.
Aprendeu a ler e escrever aos 5 anos, e enfeitava cercas e porteiras pintando palavras com os dedos molhados no barro branco. O avô – Seu Nonico Jorge – sempre deu grande importância aos estudos e chegou a pagar professoras particulares para as filhas. Cursou o ensino fundamental na área rural, Escola Municipal de Água Branca e o ensino médio na Escola Estadual de Peçanha. Formou-se em 2007 e, para “juntar dinheiro” e seguir estudando, trabalhou por um ano em supermercado da cidade. Fez vestibular e Enem para o curso de Farmácia, na cidade de Ipatinga, aprovada em primeiro lugar. Ressalta a importância do Enem para muitos estudantes, única chance real de entrar na universidade, conquistar uma profissão e quebrar o ciclo de pobreza. Sem ele o ensino superior seria privilégio quase exclusivo de quem pode pagar. Mas, após seis meses, percebeu que não se identificava com a área e conseguiu transferência para o curso de Direito, na mesma faculdade. A conduta humana em sociedade, a justiça e o bem-estar coletivo a fizeram acreditar que o Direito era o seu lugar.
–“Pessoas como você não deviam estar aqui”, lhe disse uma colega, certa vez. O comentário funcionou como marco para despertar a mulher negra e intensa. –“Abriram-se meus olhos”, conta ela.
A partir dali, iniciou caminhada sem volta pelo saber. A urgência do letramento racial se impôs. Como parte desse processo, cursou Sociologia e, em seguida, prestou concurso público, sendo novamente aprovada em primeiro lugar. Hoje, dá aulas para adolescentes do Ensino Médio e da EJA (Educação de Jovens e Adultos) em Peçanha, na mesma escola onde um dia foi aluna. Muitos são jovens de 15 a 19 anos, habitantes da periferia e de baixo poder aquisitivo e, também, alguns alunos mais velhos na faixa de 60 anos.
Faz questão absoluta de seguir a Constituição de 1988 sobre o ensino formal e cumprir ementas das disciplinas curriculares que incluem a cultura africana. Kiany acredita no valor de cada estudante. Usando a potência que lhe é característica, expande as matérias do currículo com ensinamentos sobre a importância da fala, da autoestima, da consciência de classe, da inclusão, do pertencimento e da verdadeira história do nosso país — desde a invasão colonial aos tempos atuais.
Em sociedade tão diversa quanto a nossa, enfrenta preconceitos e resistências ao abordar temas fundamentais como liberdade religiosa, racismo, bullying e padrões estéticos impostos. Mas segue convicta do direito de cada pessoa ser o que é. Com esse propósito, criou nas redes sociais o projeto @kikilombola. Por meio de autores e autoras negras, o perfil conta a história da ancestralidade, abordando religiões de matriz africana, colonialismo, racismo, costumes e saberes de seu povo. É um trabalho que dá voz aos que foram silenciados por séculos — e aos que chegam agora, encoraja: -” não se calem mais.” Também é gestora do Instagram Quilombo dos Jorges de Água Branca, mostrando a cultura, direito e deveres desta comunidade ancestral.
– “O conhecimento leva ao não julgamento”.
– “A literatura tem o papel de ouvir e de falar, porque o livro conta e conscientiza. Aprender é magia”
Dona de uma biblioteca de peso, que inclui Florestan Fernandes, Nego Bispo, Djamila Ribeiro, bell hooks, Bárbara Carine, Adilson Moreira, dentre outros, Kiany cita o livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, como aquele que “a atravessou de jeito”. Exuberante e muito bonita, veste roupas coloridas, turbantes e tranças. Nas horas de lazer, revela-se uma artista contemporânea: pinta telas que exploram a identidade negra e representam a cultura africana, celebrando a força, a beleza e a resistência desse povo. A capoeira, a comida ancestral — como cuscuz, feijoada, quitandas — e os biscoitos finos que faz por encomenda, também fazem parte do seu cotidiano.A atriz e escritora Elisa Lucinda, em sua crônica “Honre o Dom”, diz: – “Há que se honrar o dom. Há que se ter merecimento.” Assim segue Kiany. Competentemente, sem fazer força, sem dor, honrando o dom.










Respostas de 15
Tive o prazer em conhecer essa mulher incrível, aqui em nossa terrinha, kiany é muito completa em tudo que faz, uma palavra pra definí-lá perfeição ..Parabéns
Foi uma entrevista rica que tive o privilégio de fazer. Conhecer a história de Kiany foi de uma alegria imensa.
Menina cheia de sonhos e encantos,
Me admira a cada dia
Inteligentíssima esta menina,
Amor é a palavra que a descreve.
Parabéns, Odette pelo belíssimo registro e extraordinária maestria com que descreve essa mulher forte, determinada, guerreira, empoderada.
Parabéns, Kiany por compartilhar sua história e memórias e pela construção de uma trajetória e identidade de valorização à cultura negra e quilombola.
Muito obrigada!!!!
Orgulho em ser sua tia. Você é incrível Kiany. Está no caminho certo. Uma menina cheia de sonhos, luta pra alcançar os mesmos. Parabéns!!!
Essa garota me incentiva a cada dia a lutar um pouco mais.
Com um coração enorme e sempre disposta a encorajar e estender suas mãos.
Te amo muito.
Te admiro pela garra e coragem.
Vc é muito especial
Parabéns Kiane por compartilhar sua história!
É um ato de força e coragem ❣️
Acompanhando todos os comentários aqui emocionada! Que honra foi receber o convite da Odette, e honra maior ainda foi sua “delicadeza potente” em me “escrever” com tanta sensibilidade! Gratidão ao carinho de todos! Vcs me emocionam!
Tô em êxtase aqui com essa reportagem! 🖤
Orgulho e honra nossa!
O Echo agradece sua generosidade
Kiany, uma grande defensora da cultura , e um ser humano incrível com grandes habilidades,,, parabéns por tamanhos saberes e pela luta incansável pela liberdade de expressão, arte e cultura 😃👏👏👏👏👏👏🙏 lindo sua história…
Parabéns Kiany!
Ler essa matéria, me fez voltar a sua infância.
Parabéns pela cultura, inteligência e perseverança com os seus objetivos.
Parabéns aos editores:
Francisco França, Odette e Wilson.
Aos colaboradores e todos os responsáveis pelo Jornal O ECHO DA MATTA.
Difícil achar palavras para descrever essa pessoa incrível que é Kiany. Dona de um coração enorme, verdadeira,tenho a horra em tê-la como colega de trabalho. Sucesso sempre Kiki , sua luz irradia por onde você passa !🌻✨✨✨😘
Difícil achar palavras para descrever essa pessoa incrível que é Kiany. Dona de um coração enorme, verdadeira,tenho a honra em tê-la como colega de trabalho. Sucesso sempre Kiki , sua luz irradia por onde você passa !🌻✨✨✨😘
E assim vamos tendo a oportunidade de conhecer pessoas diferenciadas da nossa adorada Peçanha