Lugares de Peçanha

Publicado em: 31/10/2025 às 10:04

Atualizado em: 31/10/2025 às 10:21

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RUA SENADOR SIMÃO DA CUNHA

Minha rua parecia concentrar o coração da cidade. Era ali que tudo acontecia — onde as histórias se cruzavam, as novidades chegavam e a vida pulsava em cada porta aberta.

Bem no início dela, ainda na Praça do Coreto, havia a casa mais bonita pra mim, com suas inúmeras janelas amarelas, que chamava atenção de todos que chegavam na nossa cidade.

Nela morava o farmacêutico, Seu  Zeca e sua elegante esposa, Dona Teté. 

Seu  Zeca, homem inteligente, educado e bom de prosa. Sua farmácia fazia parte desta imponente casa, na lateral, já no comecinho da Rua Senador Simão da Cunha. Mais tarde, a farmácia passou a ser de um outro farmacêutico, o inteligentíssimo Agenorzinho. Seu vasto conhecimento  e experiência curavam mais com  a conversa do que com os remédios. Depois, Agenorzinho casou-se e construiu sua casa de dois andares, transferindo a farmácia para a parte de baixo. . 

Ali, no passeio da farmácia, as nossas noites tinham um encanto especial. Era o ponto dos nossos encontros de adolescentes e jovens cheios de vida,  de curiosidades, alegrias e descontração. As risadas e as conversas se estendiam até tarde e cada olhar ou palavra tinha um brilho diferente. Eram tempos em que a felicidade morava nas pequenas coisas: um sorriso e um flerte compartilhados, as amizades que cresciam, as paqueras e até os primeiros beijos de namoro.

Subindo a rua, ao lado, havia o Banco da Lavoura, cujo primeiro gerente de minhas lembranças foi o Sr. Ari Faria que permaneceu por muito tempo na função. Mais tarde se transformou em Banco Real, cujos gerentes vinham de outras cidades, trazendo sotaques diferentes e certo ar de modernidade. Me lembro da casa aos fundos onde suas famílias residiam. Era uma alegria quando chegava alguma família com filhos de nossas idades. Minha última lembrança daquela casa, ainda na minha adolescência e início de minha juventude, foi a chegada de uma família vinda de Barão de Cocais,  com suas filhas pouco mais velhas que eu e que logo nos tornamos amigas.

Eu as achava tão  diferentes de nós, logo tratei de acompanhá-las e a primeira coisa que aprendi com elas foi  fumar – ficava deslumbrada vendo  aquelas mãos de unhas grandes e esmaltadas de vermelho segurando o cigarro. 

Ao lado do Banco morava o Sr. Cristóvão, o dono do único cinema, cujas sessões faziam sonhar, rir e suspirar os corações da juventude.

Um pouco acima, a casa da professora e diretora do grupo escolar – Dona Olga Renan, enérgica, passava com seu passo firme, símbolo de respeito e dedicação.

Em frente, a Coletoria, onde trabalhavam pessoas admiradas: Dona Eneida, amiga de minha mãe e minha, ficava às vezes na porta apreciando nossas brincadeiras de crianças pulando maré riscada no passeio. Era também uma escritora nata de grande talento. Escreveu muitos casos interessantes e verídicos que se passaram em Peçanha. 

O coletor era o Sr. José Vieira, casado com Dona Altina, pais do escritor Oscar Vieira, da Professora Glória  e de minha grande amiga Regina, moravam ao lado da casa de Dona Olga.

Em frente era a nossa casa, um casarão de dois andares.

Meu pai era o comunicador da cidade— levava e recebia notícias como telegrafista e também com seu rádio amador (hobby  que adorava), conectava vozes do Brasil inteiro, e buscando as notícias de maiores urgências e/ou novidades  para todos os cantos.

Minha mãe era representante do Cartório Criminal que funcionava  na parte de baixo da nossa casa. Muitas vezes entrava sorrateiramente no cartório para bisbilhotar alguns processos, especialmente os que mais chamavam a atenção, geralmente de crimes mais intrigantes.

Um pouco mais acima e quase em frente a nossa casa, residiam primeiro o Sr. Simão Carlos Pereira, que também era representante de um cartório no Fórum, foi prefeito e era casado com Dona Zizita, professora de artes. Carrego até hoje, em meu guarda-roupa, um trabalho que fiz com o seu ensinamento e  supervisão.

Mais tarde com a ida deles para Governador Valadares, se mudaram para lá o outro Simão –  Simão da Cunha. Professor de História, dava  as aulas caminhando  de um lado para o outro, num ritmo constante que  marcava o compasso. Tinha enorme repertório de casos que sempre usava para ilustrar as questões na sala. .

Ao lado, moravam inicialmente o médico Dr. José Rocha, conhecido e admirado por todos. Simpático, atencioso e extremamente eficiente. Casado com Dona Vanda, professora, belíssima e elegante, também admirada por todos. Era uma casa linda, moderna e muito bem decorada.

Mais tarde eles se mudaram, dando lugar a outro morador ilustre,  Dr. Manuel Braga, advogado competente, Diretor  do Colégio Estadual, sempre presente e rígido nas decisões e que também se  elegeu prefeito de Peçanha.

E como esquecer o vizinho cadeirante, que morava entre as casas do Simão e do Sr. José Vieira – Amavio Faúla, o Sr. Mavinho, exemplo de força e serenidade, tinha sempre uma novidade  para mostrar para a criançada vizinha, instrumentos feitos por ele, como estilingues, papagaios e outras curiosidades. 

Quando eu ainda era uma pré adolescente,  o que mais enchia meus dias de encanto eram as moças  da rua. Eram cinco, minha irmã Graça, as irmãs Cecy e Fatinha, Regina e Margareth, todas quase da mesma idade, e eu, a pirralha, seguia fascinada pelas conversas  na porta da casa da Cecy e Fatinha, todas as tardes após as aulas.

Falavam de tudo — dos segredos, das paqueras, das professoras, dos bailes e dos sonhos. Eu ouvia em silêncio, descobrindo o mundo através das palavras, gestos  e risadas.

Era uma rua viva, cheia de histórias e personagens ilustres que, cada um à sua maneira, ajudou  a construir o meu mundo. Uma rua onde cresci, aprendi e vi a vida acontecer — simples e grandiosa ao mesmo tempo.

Geise Braga Fernandes de Andrade Ayres

Geise Braga Fernandes de Andrade Ayres, funcionária pública aposentada, casada com Carlos Eduardo, é mãe de Gabriel e Maria Vitória, avó de três netos, à espera do quarto.

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Respostas de 12

  1. Geise, que texto maravilhoso!
    “Rua Senador Simão da Cunha” é um retrato afetuoso e cheio de vida. Sua forma de narrar é encantadora, simples, verdadeira e profundamente humana.
    Ler seu texto é como revisitar a própria infância e adolescencia, guiado pela doçura das lembranças e pela força da emoção.
    Parabéns por essa escrita tão bonita e sensível. Ela toca o coração de quem lê e nos faz lembrar que as memórias mais valiosas são aquelas vividas com afeto.

  2. Que bela lembrança minha prima querida.
    Por ser mais jovem, infelizmente não me recordo de todos os Peçanhenses citados no texto. Parabéns por nos presentear com esta história…
    “recordar é viver”. Bjs

  3. Geise excelente texto, se revela escritora. Com clareza mostrou a todos a Rua Senador Simão da Cunha, rua pequena de 1 quarteirão entre a Praça do Coreto e a Pracinha de Cima, mas uma rua com bela história, habitada pir pessoas que marcaram seu tempo erm Peçanha. Fico feliz pir ter se revelado uma historiadora.

  4. Minha querida prima e agora escritora Gê. Que lindo ler seu texto relembrando sua história inesquecível de criança e adolescente vivida na nossa querida Peçanha, especialmente na rua Senador Simao da Cunha onde morava. Parabéns, você relata com riquezas de detalhes cada local, cada pessoa que tbm me lembro delas como se fosse hoje.
    Continue nos contando mais.
    Grande abraço
    Braguinha

  5. Durante as nossas vidas as portas e janelas do nosso eu vão se abrindo e mostrando quem de
    fato somos…
    As pessoas com o desenrolar do tempo e mais qualidade no seu trato, vão se descobrindo em
    valores ocultos, escondidos pela correria e necessidade de realização profissional, familiar e
    tantas outras..
    A minha querida esposa vem se revelando com dons nunca antes despontados na sua vida e
    nesta etapa se transformando como um bom vinho, descobrindo dons emergentes como que
    se fizeram presentes:
    A jardinagem ao cultivar flores e plantas nas jardineiras de nossa casa com excelente
    resultado.
    O crochê que emoldura e aconchega as peças e o coração das pessoas que deles
    dependem. Pois o bazar é filantropo e visa sustentar um asilo ao longo de 1 ano…
    E agora, este de escritora que até então não havia se revelado, mas vejo que começa se
    descortinar neste lindo texto sobre sua rua e seus personagens históricos.
    Estes dons vêm regando seu jardim e enchendo de vida com um toque muito especial , mais
    que o toque de Midas, transformando vidas e compartilhando amor…
    Parabéns, nega, cada dia melhor…
    Parabéns também aos demais promotores deste jornal que materializam a justa fama da
    cidade de Peçanha na cidade da cultura, com grande legado deixado pelos excelentes
    professores desta terra. Bela iniciativa…

  6. Admiro muito a minha querida cunhada Geise, q faz tudo com
    muita excelência, dedicação e amor! Construiu uma família linda, (q amo muito) com meu irmão Eduardo, montou uma casa tão organizada e bonita, tanto quanto ela mesma, com jardins que encantam. Tudo isto com uma humildade exemplar, pois até esse dom fantástico de nos fazer viajar no tempo e espaço através das suas narrativas em escritos tão sensíveis estava oculto até agora. Q bom q ele foi desperto!! Não tive a oportunidade de conhecer a Rua Senador Simão da Cunha no período descrito pela Gê, mas tive a oportunidade de “desfilar” por ela no carnaval de 1991, junto com minha namorada Lucinha (e atual esposa), bem como toda família da Gê, cantando um samba enredo muito gostoso (do qual tenho algumas lembranças), que falava do “Parque da Mãe D’água, com seu bucolismo singular”.. Peçanha tem a marca do texto da Gê: evoca um cotidiano simples, sensível e prazeroso!!

  7. Pude viver, através das suas palavras neste belo texto, o que era a vida na (tão especial) Rua Senador Simão da Cunha.
    Orgulho de vc, mamãe!

  8. Que texto delicioso! Através das palavras de Geise, percorri a sua rua mesmo sem conhecê-la. Que descrição maravilhosa! As pessoas se tornaram personagens encantadores e as casas tomaram forma na minha imaginação. Consegui ouvi o barulho das crianças e dos jovens conversando no passeio da farmácia. Me senti presente neste tempo e espaço do passado no qual Geise nos fez viajar… Querida Geise, parabéns pelo texto e obrigada por nos levar neste passeio delicioso pela Rua Senador Simão da Cunha na bucólica Peçanha.

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