Lugares de Peçanha: Tiradentes, uma rua em si | Mineiros pelo mundo: Amsterdam – andar sobre duas rodas

Publicado em: 30/01/2026 às 08:57

Atualizado em: 01/02/2026 às 09:21

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Lugares de Peçanha: Tiradentes, uma rua em si

“A noite tem footing  no Coreto e começo a namorar.Após meia hora de conversa, pouco amor e muita pressa no Cacique eu vou dançar”. (Dion Magalhães)

Foi com a lembrança da marchinha de carnaval do saudoso Dionzinho que o Echo da Matta abriu alas para que os seus  irmãos Jurandir – Didi – e Carlos Roberto Magalhães contassem, em uma conversa rica e agradável, um pouco da história da Rua Tiradentes,  coluna vertebral da cidade de Peçanha, onde economia, lazer e romances andavam de braços dados.

Em algumas vias, o grande número de aspectos singulares lhe proporcionam identidade própria, independente das cidades onde se localizam. Falamos da Champs Elysées independente de Paris, como se fosse uma cidade dentro da outra. A  Rua Tiradentes, em Peçanha, é muito significativa para todos que passaram nela, moradores ou não.  

A Champs Elysées estende do Arco do Triunfo à Praça da Concórdia, com suas lojas de luxo, cinema, cafés, e palco de grandes eventos e desfiles. A Rua Tiradentes começa na Pracinha da Igreja, antigo Largo de Cima, e segue até à Praça do Coreto, antigamente com as lojas do Seu Dion, Casa Niquinho, Cinema do Tuquito e o Café Central, ao lado do Hotel Lili. Foi palco dos desfiles de 7 de Setembro, Procissões e dos inesquecíveis desfiles de Carnaval.   

Logo em seu início, na esquina do  Largo de Cima,  funcionava a pioneira Farmácia do Nonô, filho do Zé do Altino, em frente ao sobrado São  Domingos, das festas que faziam a alegria da juventude. 

Adiante, do lado esquerdo de quem desce,  a alfaiataria do Seu José Clementino, comportamento educado, gentil e respeitoso,  imprimia nas roupas masculinas a sua postura, elegância e bom gosto. 

Na banca do Sávio Gandra, colada à alfaiataria, as revistas ficavam penduradas em cordas, desde a porta até o balcão, ao fundo. Revista do Rádio, do Esporte, Super-Heróis, Capricho, Sétimo Céu, figurinhas de álbuns de futebol, e os quase inatingíveis catecismos, como chamávamos as revistinhas do Carlos Zéfiro, com suas histórias pornográicas que hoje, certamente, seriam consideradas histórias da Carochinha. O apelido de catecismo tinha sua razão, pois servia de compêndio de educação sexual aos adolescentes, na falta de outros métodos, que a sociedade não comportava. 

Descendo, o tradicional e elitizado Clube Cacique,  seus  bailes de gala, palco de orquestras  e cantores famosos, como a Blanquita e Orquestra Cassino de Sevilha e o inimitável cantor Cauby Peixoto. Os homens de terno, as mulheres nos vestidos feitos especialmente pela Clélia e sua irmã Alaíde, penteadas pela Tade. Entrar no clube era o sonho de quem ainda não fizera 18 anos. Nos Carnavais, igualmente requintados, formavam-se blocos com fantasias temáticas, embalados pela música do Conjunto Cacique – Magela, Niltinho, Zé Minhoca, Leonel, Zé Bené, Coló, Wilsinho do Seu João Gomes, Chico da Mundinha, Milton Perpétuo. Em momentos de descuido das mães mais controladoras, as jovens arriscavam uma escapada até o Bar do Pinguim ou o Luana Bar, do Pedrinho Cardoso,  as bebidas  estimulavam abraços mais apertados com os namorados .

Nas manhãs de domingo, após a missa das 10, o clube oferecia uma só mesa de pingue-pongue, disputada pela criançada em busca de um lugar no jogo.

Bem em frente ao Cacique, o cinema do Sr. Tuquito exibia os filmes trazidos  nas latas redondas. Posteriormente, foi inaugurado o Cine Flórida, do Seu Cristóvão, com bancos de madeira amarelos e o emblema da Cymo atrás. No grande palco, os cantores, cantoras e orquestras se apresentavam antes dos bailes no Cacique. No show do Cauby Peixoto seu paletó se desmanchou, quando garotas foram abraçá-lo no final, mas havia um boato de que as costuras eram frágeis para que a  platéia imaginasse que a roupa teria sido rasgada pelo ímpeto das fãs. 

Nos finais de semana, depois da missa e  antes  dos filmes, acontecia o footing: moças de braços dados passavam de um lado para o outro, enquanto rapazes, encostados nas paredes das casas, fazendo  poses como as mãos nas presilhas do cinto, observavam e eram observados. Quando os olhares se cruzavam repetidas vezes, surgia o flerte, que se transformava em  namoro e, muitas vezes, em casamento. No vai e vem na Praça do Coreto os finais eram quase sempre felizes, como nos filmes que seriam exibidos logo mais, na sessão das oito.

Ao lado do Tuquito, ficava o Bar do Ponto e  sua enorme mesa de sinuca, onde  verdadeiros craques, como o Sr. Ari – Gerente do Banco da Lavoura, Sílvio Estiva e Décio Miranda disputaram partidas memoráveis, sob os olhares espantados da garotada aglomerada na porta. Aos domingos, após a missa das dez, era certo o campeonato do jogo denominado “Vida” com mais jogadores, todos podendo eliminar os outros concorrentes até ficar o último, aclamado como  ganhador. 

O seu proprietário, o lendário Chico Zeferino, encantou gerações com os melhores picolés de todos os tempos, especialmente os de groselha e o famoso queimadinho. Eram tão disputados que pessoas de cidades vizinhas os buscavam em caixas de isopor com serragem. Outra novidade do Bar eram as peças de mortadela. Chico comprava três peças a cada três meses. Se esgotavam rapidamente, e aos apreciadores restava aguardar a próxima remessa.

À noite, mesmo com o bar lotado, ele se recolhia para assistir, e se emocionar, as novelas da TV Tupi, numa época em que, em geral, homens assistiam apenas a filmes de cowboy. Chico nos deixou uma história bonita, com gosto de quero mais. É uma figura que povoa com destaque as nossas melhores lembranças. 

Duas das principais lojas da cidade também se localizavam na Rua Tiradentes, mantendo uma concorrência ética e saudável: a loja do Dion Magalhães e a do  Niquinho Fróes, quase em frente.   Ambas vendiam mercadorias semelhantes, mas a do Niquinho oferecia materiais de construção, tintas Coral – super lavável, Suvinil, ladrilhos hidráulicos. Queimava cal virgem no espaço nos fundos, além de vários outros produtos para os vivos. Aos mortos oferecia caixões funerários fabricados com o esmero que o falecido merecia. A Casa Niquinho foi um marco no comércio da cidade e, posteriormente, abriu uma filial em Governador Valadares e fez muito sucesso por lá. 

A loja do Seu  Dion era conhecida pela sintonia com as novidades da época. Pioneira na venda de  fogões a gás e entrega domiciliar de botijões. O sucesso foi tanto que  numa promoção de final de ano mais de 100 fogões foram vendidos em pouco tempo.

Outra modernidade foi a representação da Philips, introduzindo as televisões na cidade. No início, apenas três casas da rua possuíam TV: a do Zé Clementino, o Bar do Ponto e a do próprio Dion. As pessoas se reuniam em frente ao bar para assistir à televisão, acomodando-se ainda nos degraus da sua casa, em frente.

Para viabilizar a compra das  mercadorias de maior valor,  implantou a venda por carnês no lugar do antigo “vender fiado” . Ele próprio  confeccionava os carnês em folhas duplicadas, separadas por papel carbono: uma para o cliente, outra para a loja, destacadas mensalmente até a quitação total do produto. Ideia simples, inédita e respeitosa, já que o crediário não carregava a conotação negativa  do fiado.

Peçanha sempre prezou pela educação, com muitas escolas e grande presença de professoras. Como em grande parte do Brasil, a profissão era mal remunerada e os atrasos salariais eram frequentes, afetando diretamente a economia da cidade.

Normalmente, parte desses pagamentos acontecia na véspera do Natal. Ciente disso, a loja do Dion organizava uma exposição de brinquedos e novidades em uma vitrine adaptada na porta, na semana que antecedia as festas, para que todos pudessem escolher  calmamente  e sem constrangimentos, com o salário na conta. A rua toda iluminada transformava-se em um presépio humano, ao som das músicas transmitidas do alto falante pendurado num poste em frente ao Clube Cacique, onde ficava o estúdio. Hoje, quando vemos as imagens das cidades no mundo, iluminadas no Natal,  a criança que andava por ali invariavelmente volta àquele tempo mágico, não se importando se a infância ficou longe.  

Outro aspecto interessante era o atendimento discreto e educado às  trabalhadoras sexuais – “mulheres da zona”, como eram chamadas. Moravam na rua dos Cachorros, na Encruzilhada, à entrada da cidade. No ambiente conservador elas eram preservadas ao visitarem a loja após o expediente, tratadas com o respeito merecido. Outro cliente que denotava atendimento em horário especial era o advogado Adão do Froes, excêntrico morador de um casarão construído pelos seus pais, com escadarias imitando as d’“O Vento Levou”. Suas histórias merecem um capítulo à parte, sugestão para outro relato. 

No final, a Rua Tiradentes encontrava-se com o Hotel Lili, da Dona Ambrosina,  incumbida da venda das passagens e onde começava a viagem para Belo Horizonte. A linha se iniciou com uma jardineira, anteriormente usada para  transporte de mercadorias, adaptada para levar passageiros. Saía às segundas-feiras às 5:00 horas e, se não houvesse imprevistos mecânicos, o retorno a Peçanha ocorria às quintas-feiras, por volta das 17 horas. A saída do ônibus era um acontecimento. Homens agitados tomavam café no Café Central – apelidado Cafezinho -, anexo ao Hotel. As mulheres faziam simpatias contra enjoos, usavam lenços de seda nos cabelos bem penteados pela cabeleireira Tade, cujo salão também funcionava no prédio. Nas mãos, levavam frasqueiras redondas, revestidas com material imitando couro. Dentro, os inevitáveis pó de arroz Coty, perfume Myrurgia – o palito dentro do vidro, sabonete Gessy e a lata azul do creme Nívea. E também o imutável  frango com farofa de farinha de milho, acondicionado cuidadosamente nas latas de biscoitos Aymoré, Duchen ou Pyraquê. Nesta época o termo “farofeiro” ainda não existia e, portanto, esse costume não prejudicava a elegância das nossas mães. E, convenhamos, era muito bom abrir a lata debaixo da gameleira no Tatão Campos, morto de fome, e aparecer uma coxa de frango envolta na farinha.

Todo esse vai e vem da Rua Tiradentes acontecia diante da casa mais bonita da cidade: a magnífica residência do Seu Zeca, farmacêutico, com suas inúmeras janelas voltadas para o coreto. Dona Teté, sua elegante esposa, encantava-se ao observar as crianças brincando de quatro cantinhos  no coreto e os palhaços de perna de pau dançando para anunciar que o circo chegara  à cidade, cantando assim: 

Hoje tem espetáculo?
Tem sim senhor!
É na rua do Buraco?
É sim senhor!
Olé Olé Olé bambu 
A mulher do palhaço parece urubu
Eu vou ali eu volto já 
Eu vou panhá maracujá 
Pepino maduro que dá semente
Moça bonita que mata a gente.

O circo chegou, a  jardineira foi, a vida seguiu. 

Autores: Jurandir Didi Magalhães e Carlos Magalhães

Mineiros pelo mundo: Amsterdam – andar sobre duas rodas

Quando o Francisco, ou melhor dizendo, Chico, me convidou para escrever sobre o meu ponto de vista vivendo em Amsterdam, senti como um desafio interessante. Não sabia por onde começar, apesar de, ao mesmo tempo, ter muito o que falar sobre a minha vida e o meu olhar sobre a Holanda, em especial Amsterdam.

O bucolismo, a falta de poluição sonora e visual, o fácil acesso ao transporte — seja por bicicleta ou público — mascaram bastante o quanto a vida aqui é diferente e trazem novos desafios que não existem tão explicitamente em BH. A necessidade de se provar profissionalmente, e até socialmente, é muito maior. Eu sou apenas mais um no meio de tantos outros estrangeiros fazendo a vida por aqui. Por outro lado, isso também é muito libertador.

Eu preciso sempre exercitar e me apropriar da minha narrativa, pois é ela que me faz entender o porquê de estar aqui. E, por essa balança, tudo faz sentido: coisas que ganhei e perdi aqui, equacionando com as coisas que existem em BH. Esses pensamentos me fizeram aprender a desfrutar da minha própria companhia e entender como a solitude não só é necessária, como também prazerosa.

Continuo por aqui. Essa balança da vida em Amsterdam é muito boa para mim, pelo menos pelo que eu vejo como importante. Espero continuar vendo sentido nisso e também me sentir encantado por cada detalhe da cidade, assim como eu sentia logo quando me mudei.

Uma coisa é certa: após três anos, nunca mais reclamo de sol e calor!

Autor: Luiz Felipe Dutra

Jurandir Didi Magalhães

Jurandir Didi Magalhães mora em Belo Horizonte, foi Diretor de Banco, fazendeiro e torcedor do Galo. Vive esbravejando contra os juízes que roubam do time frequentemente.

Carlos Magalhães

Carlos Magalhães mora em São Paulo, foi Diretor de Banco e criou a Vacinar, que se tornou a maior empresa de vacinação humana do Brasil. Exímio pandeirista, tem a agenda cheia para tocar nas festas da família e amigos.

Luiz Felipe Dutra

33 anos, nascido e criado em Belo Horizonte. Engenheiro Mecânico, grande fã de esportes e apreciador de boa música e boa comida, mora em Amsterdam, Holanda.

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Respostas de 4

  1. Rua Tiradentes foi a única que conservou o nome original, lá de tempos idos, segundo a historiadora Marina Leão.

  2. Chico, Odete e Wilson, foi muito bom nosso bate papo, me fez voltar no tempo e reviver momentos muito especiais.
    Muito obrigado,
    Grande abraço

  3. A rua Tiradentes é de todos,”como o ceu é do avião”.(Caetano)
    Cada cidadão tem seu cantinho, sua rua de preferência, mas não há quem fique indiferente a esse eixo principal da cidade.
    O texto dos irmãos parece ditado pelo coração__ uma mistura de ternura e saudade de um tempo distante. E a memória, essa guardiã de afetos , sabe aproximar o antigo do novo, revigorando detalhes de uma história , que é dos autores e também nossa.
    “Se varia na casca, idêntico é o miolo.” (Mário Quintana)

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