Marcelo Xavier – MX – Tá no mundo

Publicado em: 30/01/2026 às 08:58

Atualizado em: 01/02/2026 às 09:26

Compartilhe

Éramos estudantes ansiosos, quando – Francisco França, Odette Castro e Wilson Oliveira (editores desse jornal) – nos  juntamos a Álvaro Gentil da Editora Ramalhete para ouvir o artista plástico, publicitário, escritor, arquiteto, autodidata e criador do Todo Mundo Cabe No Mundo (maior bloco de carnaval inclusivo do Brasil), Marcelo Xavier, o grande MX.

Fomos recebidos afetuosamente numa conversa regada a café, broa e pão de queijo, que ele conduz como reproduzida abaixo. 

Estrada afora

 – Ah, pois é, nasci em Ipanema/MG, em 1946. Fiz o curso primário lá. Vocês não têm noção do que é o mundo, né? O mundo era  ali, a minha casa, a da minha tia que morava no quarteirão. E a fazenda também, a fazenda! 

Meu pai, nessa época ele trabalhava na fazenda. Do pai dele. E aí ele de vez em quando, ele me levava pra brincar na fazenda quando ele tava trabalhando, né? E aí me lembro dessa cena, dele me acordar cedo pra não acordar meu irmão mais novo que tinha quatro anos. Então, ele era muito pequenininho. Então a gente ia a pé pra fazenda. Aventura! A gente passava antes na igreja, dava uma rezadinha, lá. A gente ia, estrada afora.  Em Ipanema. Foi incrível! 

O Medo

Algumas cenas ficam na memória da gente. Eu me lembro da minha avó, morta. E a minha babá me levou lá perto do caixão e tirou o véu que tava cobrindo o rosto. Como é que pode uma criança não se apavorar? Isso tudo, depois, você acaba transformando, no seu trabalho, essas coisas. Coincidentemente a outra cena que me marcou muito foi com a mesma babá. Me pegou no colo, foi andando comigo e, na esquina, e aí tinha uma casa com umas portas altas, né? Aquelas portas de casa simples, mas porta grande um, dois andares de escadinha. Cada um degrau dessa altura! A porta tava aberta. E a gente via, lá na sala, o velório. Tinha uma menina que tinha morrido queimada por lamparina. Nossa, ela tava estudando. E queimou a cabeça, começou o incêndio nela, e ela foi queimada por isso. E lá olhando aquelas cenas, vendo aquela menina lá e  guardo a cena, exatamente como a da minha avó. Mesma coisa. Exatamente. Eu era bem pequeno. 

Um movimento perfeito

Meus pais não permitiram que a gente ficasse sem estudo. E mudamos para Vitória, Espírito Santo.  Em Vitória eu tinha uma infância mais perfeita, não porque tinha muita pretensão, mas foi quase que perfeito. A gente veio pra Vitória quando precisou de escola mais avançada. E a gente vai de bagagem, né? Acompanhando. Daquele jeito parecendo aqueles bonequinhos de cerâmica. Então a gente vai junto. Mas eu adorava porque eu gosto. Eu tinha cinco anos lá, mas eu nunca senti falta assim de ter que mudar e abandonar o lugar. É que eu não tinha muito vínculo, né? Não entendia ainda. Tirando os velhos, tirando as mulheres, aí eu já comecei a entender, né? Do mundo, pensando. Tinha uma coisa que eu devo ter botado na minha memória, minha mãe falava isso. O primeiro passeio que meus pais fizeram foi levar a gente no cais do Porto, pra ficar vendo os navios. Então eu cheguei em casa e desenhei um navio com os detalhes todos: os anúncios e isso impressionou. As escotilhas, as coisas que tinham à vista, sabe? Então, isso também é um movimento perfeito. Aquela imagem do navio. Em Vitória, naquele miolo, mistura de navio com catedral. Vivendo aquela vida de católico, assim, em construção – porque na cidade a catedral não tinha nem as torres ainda, dinossauro mesmo. Na escola em Vitória a gente tinha que cantar o hino, tinha, não sei o que! Porque Vitória era uma cidade ainda pequena.

Belo Horizonte

Ainda  em busca de estudo melhor, em 1961 viemos prá BH. Aí, eu tinha 12 anos. 

Eu sempre fui apaixonado pelo centro de BH. Com 14 anos, aí! Eu caí no Centro, fui ofice boy. Então, pra mim, sempre é o céu, sabe? Porque aos 14 anos,ai eu ganhei a libertação. 

No Centro tinha o que eu mais gostava. É quando eles me davam trabalho para fazer na rua. Então eu pegava aquilo, já saía louco. Porque tinha banca de revista né? Cheio de gente maravilhosa. Tinha essas coisas todas. Era um passeio. Eu era curioso com tudo né, claro! O Modernismo tava começando, né?  BH: era a capital do Modernismo. Então tudo era novidade pra mim, sabe? 

Colégio Estadual Central: um cristão na arena

Então eu já caí naquele Colégio Estadual Central. Em 66, 67, 68. Ah, que coisa! Me influenciou porque aquela arquitetura aberta. Foi na escola, os pensamentos, foi leitura.No sábado tinha violão, os mais velhos cantando bossa nova, tocando, sabe? Então pra mim foi a primeira vez que eu vi um desenho do Henfil, assim, num cartaz de festa junina. Eu fiquei louco na hora que eu vi aquilo! Que isso, o cara vivendo as coisas, tá tudo solto! Eu falei que maravilha, fiquei encantado com aquilo. Você vê as possibilidades! Que foi uma lição pra mim, um cartaz! 

Eu tive um trauma, que eu cheguei no meio do ano, num salto assim muito grande, cultural, né? Porque eu jogava pelada na rua. Era péssimo de bola, mas adorava. Então, a gente, lá no Estadual era uma coisa tão avançada, ensino vanguardista. Então, o disciplinário Alzírio, me pegou pelo braço. Foi lá na sala, no meio do ano, e a turma já estava lá. O que eu tô fazendo aqui? Um cristão na arena. Como eu tinha feito o curso de admissão em três meses, já entrei avançado, na quinta série. Então tava muito à frente da minha idade. Eram uns cavalões, todo mundo jogava basquete. Eu só tinha jogado pelada na rua. Uma bola de basquete! Tinha piscina no Estadual. Nunca tinha visto piscina. O mar enquadrado! Era muito diferente. A rampa, o auditório, o homem de mata-borrão, ninguém nem sabe o que é mata-borrão. Mas, era demais cara! Aquilo ali, foi aí que eu queria chegar. 

Anjo da guarda

É o seguinte, esse episódio lá foi marcante pra mim …na hora que eu cheguei, que ele me jogou lá nos leões… Aí sentei lá atrás, uma cadeira tava vazia e, aí esse menino, o menino que sentava atrás de mim. Menino, mas um cavalo, cara! E ele é meu anjo da guarda. Tenho certeza, todo mundo tem anjo da guarda, que você precisa! Isso é com o andamento da vida, chegar a essa conclusão, todo mundo tem um. Quando você tá no sufoco um “anjo”  aparece por perto. Então, esse menino, aí ele me dava dicas, me dava cola, sabe? Ele me acolheu, né? Intervalo, eu ia pro pátio – lá tudo aberto – sem lugar nem pra esconder, né? Não tem jeito de se esconder. 

Decepção

E o meu professor de desenho… Era o Fernando Pieruccetti – Mangabeira. Era cartunista também. Um dia ele deu um dever de casa : fazer um desenho de uma grega. Eu ia a pé do Estadual ao bairro Barroca onde eu morava e, todo dia, ia e voltava. Tinha o canteiro central e tinha umas árvores, ainda tem, algumas que tem uma florzinha roxa, parece! Ela tem uma coisinha, parece um varalzinho mesmo. E a semente dela era igualzinha a uma raia, achatada marrom. Eu peguei uma semente e numa folga no trabalho,  fui fazer em casa. Fazer aquela grega. 

(Em desenho refere-se às características da arte da Grécia Antiga, focando em harmonia, equilíbrio, simetria e a busca pela perfeição nas proporções).

 Eu caprichei tanto, com lápis de cor, sabe? Eu fiz um negócio que eu gostei. Aí, fui todo orgulhoso, né? Mostrar pro professor, que ia chamando, você levava pra ele o trabalho. Ele não acreditou que o desenho era meu. Tava muito certinho, assim corpos sombreados, sabe? Eu caprichei mesmo. Eu tinha prática em desenho, meu! Com cor. Sentei lá. Olha, pra mim, foi uma decepção! Não reagi. A timidez não deixou.   Em casa minha mãe queria ir lá. Não vai não! E aí eu tirei zero. Eu acho que ele ficou com medo do concorrente! (ri). 

No Estadual é que eu comecei a me revelar. Então ele, o professor, me balançou, sabe? Ele e toda a arquitetura do Niemeyer, também me tirou do sério! Foi aquilo e depois, um dia, voltando do trabalho com minha supervisora, vimos numa banca de jornal uma revista com uma foto, lá, dos Beatles, com aqueles cabelos. Ela se assustou. Na hora que eu vi aquilo, eu saquei, que eu queria estar assim, eu sentia afinidade. É o que quero pra mim! Essas coisas vão mudando a gente, faz sentido pro seu espírito. Abrindo, e vai vendo porque explica, né? Essa minha vontade de romper as coisas e, sei lá, procurar novidades. Bem, depois, aí, tive que baixar a expectativa. Fui humilhado. Mas olha, não me arrependo de jeito nenhum! Nada, nada, nada! Ainda tive essa sorte de ter gente também que ajudava até sem querer, sem saber, né? Sem consciência de que eu tava aprendendo. 

Um dia mudamos. Pra aquela rua que ainda não era calçada. Um cara de moleque, né? E a rua tinha as casinhas e o predinho de três andares que é onde era nosso apartamento. E as casas não tinham grade alta, não tinha nada de proteção de nada. A porta ainda ficava aberta, na casa dos meus amigos lá a gente entrava, sentava na sala, eles nem sabiam quem tava lá dentro. Onde eu morava, meu apartamento, lá também era aberto, não tinha porteiro, não existia isso! Garagem, tudo aberto. Hoje, é esse horror. Fortaleza! Pelo amor de Deus, isso aí é terrível! Hoje a pior coisa, esteticamente, que tem na cidade são as grades.

Vestibular

Mas eu tentei arquitetura umas três vezes. Arquitetura que era minha paixão. Porque quando eu tava fazendo vestibular, primeiro vestibular, estudava só arquitetura. Tinha que copiar um vaso. Ficava desenhando. De repente no meio da aula entra o educador Walfrido dos Mares Guia, era no Pitágoras, dizendo que agora mudou tudo (o formato do Vestibular), porque o vestibular agora será unificado e não tem mais esse negócio, não! Agora, a gente vai ter aula de química, essas coisas. Aí, pronto! Eu não passei porque eu não tinha me preparado. Não precisava daquilo, aí não passei, aí não passei e acho que viciei em não passar. Aí, eu fui não passando!

Influências

Eu lembrei do Vieira César que me influenciou demais. Era uma pessoa que fazia muita coisa visual e que não era arquiteto, mas que os arquitetos tinham raiva disso. E tinha bom gosto, e ele e a casa dele era aberta também. As plantas da frente da casa eram, na época era moda isso, não tinham flor, eram esculturais.  É que tudo pra mim era fantástico! Eu entrava na sala, a sala tinha gamela, com revistas. Sabe, tapetão? Era tudo brasileiríssimo, um nacionalismo assim na decoração. Isso aí também fazia demais minha cabeça. Década de 60, 70.

Milton Nascimento, cantava no Maleta! Tudo na mesma época. tinha essa onda. A ditadura veio e mudou tudo. Brasil era pra ter fortalecido essa coisa nacional. Nessa época foi o inverso, né? Tropicália, né essa parte toda. A ditadura cortou as cabeças desse movimento todo. Deu lugar a Aliança Para o Progresso

(Aliança para o Progresso foi um programa lançado pelo Presidente Kennedy para teoricamente fomentar o desenvolvimento da região, mas o verdadeiro objetivo era conter o Comunismo, com importante trabalho na articulação do Golpe de 1964.)

Saí da partitura

Eu era muito a vida daquela pequena burguesia. A gente acabou ficando meio alienado na nossa juventude. O Colégio Estadual que salvava, que era um antro político mesmo assim. Era uma coisa, né? O diretório dos estudantes na faculdade é diretório acadêmico. No colégio o diretório era chamado Diretório Estudantil. Então ali tinham os mais avançados politicamente, que se candidatavam a presidente do DE como se estivessem candidatando a Presidente da República. Mas na época do Estadual de 1966 por ali, quero dizer, a repressão era tão forte que não tinha condição, você só tinha que ser contra! E aí eu acho que ou se era contra num engajamento político ou então era no desbunde.  Quer dizer, a foto dos Beatles foi boa lá atrás. Foi maravilhoso. Tudo de verdade, dos Beatles, eles transformavam a gente em tudo. Não era só na música. Sim. Era música, era figurino, era a cabeça por dentro, filosofia. Foram 10 anos de mudança. Então foi outra coisa na cabeça, aí. Arquitetura tomou uma parte. Beatles pegou o outro. Porque é a minha formação de músico, que eu estudei em Conservatório em Vitória. Olha só. Então preferi, não quero ficar enlatado, não quero .Então eu tive que sair fora. Eu tocava também. A gente mudou pra BH e tudo, aí, o meu piano eu estourei também, de ouvido. Assim eu saí da partitura. Então tocava pra mim só queria era aquilo mesmo, nunca tive outra pretensão. A música foi muito isso de pegar em casa, assim, minha mãe alfabetizava a gente. Aí então depois ela teve academia de música. Com placa e tudo. Com método. A minha mãe foi a primeira vendedora no Brasil. Eu nunca vi uma coisa daquela. Sucesso de empreendedorismo, sabe? Ela pegou a franquia da Academia Mário Mascarenhas, carioca, nessa mudança de onda do acordeon pro violão. 

Alvaro Gentil (2)

Sobre a amizade com o Álvaro começou no Café Book. Era café, com a livraria e tinha obras de arte. É, tinha um jornal, o Hoje em Dia, no quarteirão. Aí, eu andando, reparei na decoração do balcão. Me chamou atenção demais e, na vitrine tinha vinho, porque não tinha café? E livro, com o jornal também. Me pegou totalmente. 

Conselho da Madrugada

E tem essa parte, né? De bolar uma campanha, convencer, fazer o desenho. 

Prá isso eu convoco o Conselho da Madrugada. Sempre que tem uma criação pra fazer, ele vem e me acorda e solta de tudo, pronto. Anotava a ideia, desenhava se fosse possível. Mas é tudo do Conselho da Madrugada, a madrugada, que é a hora que eu mais gosto também. Eu chegava no Café Book e falava: Essa noite teve Conselho. Porque tem que sair uma camiseta aí. 

Espírito, Corpo e Presença

Mas isso aí é você ir ao longo da vida. Você vai apurando o espírito mesmo. Porque a arte vem do espírito. Acenando o espírito, a gente chama o espírito. Não sei definir o que é espírito, a gente não sabe. Mas é uma coisa que é mais sutil, o conceito mais que me pegou assim é que: o que eu quero é um corpo sutil, né? Eu tenho um corpo físico. E não é exatamente junto com o seu corpo físico, é onde tem essas coisas abstratas, as coisas incríveis, intocáveis, que você não vê, essas invisíveis! Então isso tudo fica por conta do espírito, porque é um negócio que você não vê. Mas, tá, a cada dia. Presença é um negócio muito incrível, muito, muito forte. O espírito é isso que anima, né? O ânimo mesmo que anima esse corpo, isso é, pra todos os seres humanos, sabe? Isso é delicado. Isso complica a gente aí, o homem. Porque tem que ter uma explicação pra tudo. Aí então inventam Deus, inventam a fé, né? Inventam os rituais, os ritos, igualdades, os tempos. Qual é a grande verdade? Pra mim, pelo menos, é a vida. Isso aí é a vida de uma forma geral. Mas a vida mesmo, essa vida de ter reprodução de princípio… É muito fantástico porque aí é um caminho que desafia a teoria da evolução: fato de essa natureza que criou a vida ela ter criado a necessidade de você ter um máximo. Evoluir. Evolução agora é pensar em dois e os dois evoluíram a ponto de priorizar os dois e produzir uma outra vida. Como que cada coisa agindo conforme a natureza dela, a natureza específica dela, mas dentro de um conjunto. O modelo não é sempre o mesmo, não é igual, diversidade. Existe tudo em tudo, absolutamente. 

O Mistério

Mas aquilo que a gente não consegue explicar será que a gente não pode acreditar? Em mistérios que devem ser mantidos. Não precisa desvendar também. Eu tenho que aceitar um mistério. Se é mistério não somos nós que vamos saber. É mistério né? Eu tive um filósofo que me acompanhou: meu irmão, Geraldo, tá? Foi meu companheiro de infância e depois a gente se separou, na adolescência. Mas ele era um filósofo, poeta também, ele era uma cabeça no mundo. Era oftalmologista. Ele dizia: “Você não acredita o quanto o olho é um sistema perfeito.” Sabe  aquele poema “Sim”, do livro “Tempo Todo” (2011)? Lindo demais. Ele tinha no consultório dele, o poema. 

Obra Prima 
(Marcelo Xavier)

Enquanto os anjos 
construíam o corpo humano 
Deus reservou a si, 
à sua perícia, os olhos. 
Assim, 
todas as partes 
têm algo de grosseiro, 
de uma evolução possível. 
Os olhos, não. 
São divinos, 
prontos, 
definitivos. 

Pra medicina você tem que estudar ciência. Mas existe o mistério. E é engraçado que cada órgão, cada órgão nosso tem diversas funções, nunca tem uma só função. E todas muito complexas. E muito interligados, né? E que uma função serve pra outra. Exatamente. São bilhões de reações químicas, físicas, elétricas, o tempo todo. E tudo regulado. É uma coisa muito doida.  

ELA 

Mas teve uma hora que, vamos dizer assim, que o organismo mudou a forma de interagir e de agir com ele mesmo. 

(Marcelo tem  uma doença degenerativa chamada Esclerose lateral amiotrófica – ELA, que compromete a força dos músculos.)

 Eu acho que a vida, ela é muito, muitas vezes maior do que a gente, então eu dou mais crédito pra ela do que pra minha vida. E quem passou essa energia vital pra mim foram meus pais. Com todo mundo é assim. Das energias que eles precisaram, dos dois, para dar aquela composição – barriga.  Então, como que eu vou agora ter a prepotência, de achar que sou o dono da vida? Nó! Eu tenho minhas escolhas, né? Eu mando nas minhas opções. Sempre tive essa de também escolher assim o que que eu quero e o que que é bom, né? Mas eu não posso mandar mais. Ela, a vida, é que manda. Então eu acho tão, tão maior do que eu. Essa coisa que sou eu, que a gente vende aí, criando camadas culturais, virando esse fruto da cultura que a gente é, né? Figurinha. Essas roupas. Fazendo esses trabalhos, pegando um ônibus, carro, tudo aqui é cultura. Então isso aí são só adereços. Mas na verdade, o que é a vida mesmo? Ela tá pra todo mundo. Você pode ser rico, pobre, negro, branco, colorido, amarelo. É tudo a mesma coisa. São as mesmas enzimas funcionando, né? Uma enzima não sabe se você é branco preto, tá funcionando! Um milhão… 

Atmosfera da Arte  

É uma atmosfera. Todo ser humano já nasceu envolvido pela atmosfera da arte. Todos, não tem um que escapa! Depois que vem a vida, nossa sobrevivência. Tem que ter paciência de que você, ser humano principalmente, já é dependente. Até você ter a independência de levar sua vida, é um tempo! Agora, você tem que se virar, né? A vida veio, você tem que fazer ela permanecer. Aí é que tá! Começa com as coisas que você tem que resolver todos os dias. Todo dia você tem que ir/ O homem, então o ser humano, tem que resolver a cabeça dele: os dois eus psicológicos: corpo e espírito, tudo, né? É complicado. 

Tem as questões, um questionamento. Isso eu acho que os outros seres não têm. O gafanhoto, já pensou? Funcionamento misterioso que já nasce com ele. 

A eternidade? Sei lá, aí é que tá! Eu não sei. Como que ela funciona? Funciona conosco. Enquanto a gente tá aqui, ela tá funcionando através da gente. Quando a gente for, vem outros e ela continuará funcionando, né? Então enquanto a gente tá aqui nós estamos exercendo uma parcela da eternidade. Tá certo? Então se você foi aquinhoado com a parcela da eternidade você tem que agradecer por isso. A terra é muito recente em termos de Universo, ela é muito nova, sabe? Que são milhões de anos? Nada. Então, essa coisa maior que é o universo, você não consegue nem pensar. Não consigo pensar isso, é melhor a gente deixar isso pra depois. Não dá, não dá! 

“A história de marinheiros têm uma singeleza direta, e todo seu significado cabe numa casca de noz. Mas Marlow não era típico, e para ele o significado de um episódio não estava dentro, como um caroço, mas fora, envolvendo o relato que o revelava como o brilho revela um nevoeiro, como um desses halos indistintos que se tornam visíveis pelo clarão espectral do luar.” 

                                                                                   (O Coração das Trevas, de Joseph Conrad)

Não tem como explicar o mistério. É isso mesmo. De como a vida veio muito antes da gente e ela já é recente. Que teve relação com o universo porque a vida já é um fenômeno que pra mim ela é uma manutenção. Ainda bem. Eu posso pifar. É uma briga da luz contra as trevas. Sabe, assim é a luz brigando pra se manter e as trevas brigando até engolir a luz. Não é pra ir às trevas.  Aparentemente ela é muito maior. Mas a força da luz é muito grande e essa luz, ela tem uma força que tá no fogo, são coisas perecíveis, são a própria vida. Você imaginar o antes do que isso aí, leva gente à loucura. Ninguém explica isso direito. Você não consegue, você enlouquece. Se eu for viajar no tempo assim e no espaço você não consegue, aí vem, ainda agora, a Física Quântica que pira mais a sua cabeça. 

(Física quântica estuda o mundo subatômico, onde a observação (interação com instrumentos, não consciência) afeta o estado das partículas (dualidade onda-partícula), gerando ideias de que pensamentos e consciência moldam a realidade.)

Porque eu tive que demorar pra aceitar uma das descobertas do físico Isaac Newton (1643-1727):

(Lei da Gravidade Universal. Aquela que descreve a força de atração entre dois corpos massivos, estabelecendo as bases da mecânica clássica). 

 Maçã caindo, toda gravidade… Já era uma coisa. Que gravidade que é essa? O que que tem essa gravidade agora, não agora, você tem essa mesma coisa acontecendo lá. Um planeta é pirâmide, cara, é pirâmide… 

(Existem muitas pirâmides construídas por civilizações antigas em diversos locais da Terra, como Egito, México e Peru, além de formações naturais que se parecem com pirâmides em outros planetas, como Marte). 

Equilíbrio

Então se você não tiver muito bom… Como foi o primeiro motor não movido? Pois é. Tudo é muito misterioso. Isso pra mim é uma explicação. O Tao é da aceitação. 

(Tao – a “realidade última” do universo” inspirou o surgimento de diversas religiões e filosofias, em especial o taoismoe o budismo chane sua versão japonesa, o zen. 

O Tao equilibra a oposição presente no conceito do Yin e Yang, em que Yin – a metade preta – representa vales, enquanto Yang – a metade branca – representa as montanhas. O Yin e Yangé o conceito primordial da filosofia Tao.)

O Tao é aceitação. Aceitação é o complicado. Os dois lados. Isso aí é um pensamento maravilhoso. E, hoje, isso aí se aplica ao universo inteiro. Sempre precisa de avesso, do antagonismo, pra poder produzir energia que move, né? Pra ter a origem da energia. A polícia, que é a religião católica, né? Fica procurando a perfeição. É etéreo, não pode. Porque a totalidade é a perfeição, o imperfeito não tem condição. É o oposto: o bem vive sozinho? Ele não ia durar um minuto. Tem que ter um mau lá. Tá, beleza! Porque a intervenção é bonita. 

Folia 

Até as folias quando saem, como aquela, na roça, primeira vez que eu vi. Uma folia que tá lá naquelas primeiras páginas de “Mitos” (1997). Foi a primeira vez que eu vi uma Folia de Reis. Ninguém tava brincando. Tá tudo escrito, lá. É muito legal, porque vem o som, naquele poeirão, e, de efeito, aparece aquele palhaço pulando no meio daquilo, que brinquedo que nasce daquilo ali. Tomou assim o meu espírito. É o cortejo! A cara da rua. Lembrança maravilhosa. E o cortejo é extremamente dinâmico, porque ele assume uma personalidade diferente a cada momento, incorporando gente. Então ele vai subindo… Rua Piauí e vai passando por aqueles prédios, a pessoa vai chegando na janela, gente que nunca viu cortejo. Acaba chamando a atenção nisso, o espírito dela. Naquela noite ali, ela deve transar melhor. É literalmente a banda, né? Você vai pensar, aliás você tá falando, aí vem a banda. Entendeu? Você vai matar isso? Tem que sair. É osso! Ai, ai!

Carnaval

Carnaval, eu sou suspeito de falar porque o Carnaval é meu. Eu acho que quando eu nasci eu não tive mamadeira, eu tive um tamborim. Porque só, pra ilustrar aqui, o Carnaval tá dentro…  porque a minha mãe, pra variar, ela também gostava muito. E fazia bloco com a gente quando a gente tava lá, passando férias, ela fazia fantasia pra gente: de gregos; eu nem sabia o que era grego! Então, Carnaval, pra mim, é uma coisa que, é ele vem naturalmente, assim. Aí, veio, eu fui tomando gosto por aquilo. Com meu espírito, adoro festa. Adoro a rua. Pra mim tem muita vida na rua. A criança nasce, ela fica presa enquanto ela tá no seu colo. Mas na hora que põe ela no chão, que ela fica com medo o que ela procura? A porta, a porta aberta. Ela, engatinhando. A sensação de libertação, sabe assim, porta pra fora, sentindo viver de verdade. Então o carnaval de rua é uma expressão dessa liberdade, sabe? Falaram pra gente não sair, ficar lá em frente à casa. Então, isso aí não é carnaval não, gente! País do carnaval e da procissão tem encontro! E cortejo, você sai levando aquilo e passando pela rua. Uma coisa urbana, é maravilhosa! 

Então sempre tive isso de ir onde tava a boa. Já saí em alguns carnavais no Brasil: de Olinda, Salvador, não, eu nunca fui. Mas já saí em Escola de Samba no Rio, a Imperatriz, pelo menos disso eu aproveito, mano! Fiquei louco lá também. Aquela bobagem de concurso lá, né? Unidos, não sei o que, zero!  Não, aquilo é uma palhaçada. 

Todo Mundo Cabe no Mundo

(Segundo o Portal Oficial – Te Encontro em BH o “Bloco Todo Mundo Cabe no Mundo desfilou pelas ruas de Santa Efigênia pela primeira vez em 2016, mas essa ideia começou em 2012, a partir da iniciativa “Preconceito Zero – Todo Mundo Cabe no Mundo”, do Marcelo e de um grupo interessado em tornar o mundo um lugar aberto e diverso.”) 

Eu distribuo no bloco, eu penduro as coisas. Então nós vamos ter, nós vamos ter, domingo de manhã. É isso aí tem que começar a olhar pra fantasia, todo ano eu abafo. 

Faço os desenhos, crio um personagem. A figura exagerada. Fantasia mesmo, pois tá tudo ligado a essa minha cultura com carnaval. Sim porque o personagem é quase um destaque de carnaval. Peruca de Brasil. Sim, a roupa é soma. Exemplo, personagens para uma menina, do livro “O Dia a Dia de Dadá” (1987). Uma menina lá comum, sem nada. O figurino dela é básico, dela. 

E tem outro livro – “Tot” (2006). Sim, já é filosófico, Aristóteles, né? Tot é um menino que não conhece direito o lugar. Ele escolhe o elevador de um edifício onde ele morava. Então quando ele abre o elevador, tá a casa lá com o nome dele, mas só isso no portão. E aí o porteiro sai mostrando pra ele a Academia, de falar pra ele que aquilo é a casa dele. Todo mundo tem uma casa de criação. Na criação você tem que ter uma vontade muito grande, aí consegue abrir a porta. Então ele vai nas salas e, cada sala, uma, da música, outra da dança, outra teatro e aí vai… Um pouco às escuras. Só que você, tem o porão… 

Então, é isso, então nós vamos ter festa agora. Já tá marcado, já vai começar tudo porque essa parte é “stick”. Grudar é bom.

O Universo

E tem a eternidade, o funcionamento do Universo. Eu sou fã do Marcelo Gleiser, né? Um cientista brasileiro que eu tô acompanhando a vida dele de uns tempos pra cá. Ele agora tá completamente espiritualizado. Completamente. Muito interessante. Ele não acreditava em Deus, mas muitos colegas dele, pesquisadores, acreditavam. E tinham uns indianos, pessoal que, né? Que tinham um deus. Assim, eu acho que ele é um cara fantástico porque ele é do lado da ciência. Ele admite isso, mas aceita o inexplicável. E falou assim: Einstein, Einstein falava que não acreditava no mistério. É um filósofo morto, quem fala uma coisa assim! Porque é tão óbvio, o tal do mistério! Pode explicar o funcionamento de uma coisa, mas não pode explicar a origem. Pela ciência, de repente, com o passar do tempo aquela certeza já não vale. Já tem a física quântica. Que acabou com a física newtoniana, que virou uma coisa infantil. Então, não adianta, a gente, eu tomar bomba no vestibular, três vezes, né? Já mudou tudo. Poxa, olha que injustiça! 

(Mas acreditamos que Marcelo virou um arquiteto. Arquiteto da vida total.) 

NOTAS

Álvaro Gentil é livreiro e editor, sócio da Editora Ramalhete. Foi dono da Livraria Café Book e está prestes a abrir outra. Lista abaixo os livros de autoria do Marcelo:

Truques Coloridos
Dia a dia de Dadá
Tem de Tudo Nesta Rua
Asa de Papel
Três Formigas Amigas
Mundo de Coisas
Meu Amigo Mais Antigo
Construindo um Sonho
TOT
Mitos
Crendices
Festas e Superstições
Se Criança Governasse o Mundo
Apática
Um lugar Cheio de Ninguém 
A Estranha
Tempo Todo
Andarilhos
Caderno de Desenhos
Vila dos Caracóis

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

Compartilhe

Respostas de 7

  1. A gente está assim, num sábado chuvoso, sem nenhuma perspectiva e de repente vem o Marcelo Xavier e ilumina o dia!
    Que riqueza de vida! Com igual leveza nas boas e más experiências, que agora são lembranças serenas. Isso, pra mim, é ser feliz. Em algum lugar ele fala de “corpo físico e corpo sutil.”
    Ele é sutileza no estado mais puro! E tudo ficou melhor sem o rigor histérico da gramática!
    Encantada!!

  2. Bom Dia, Wilson
    Gostei muito da entrevista com o Marcelo Xavier. Adorei.
    A matéria traz muita informação, em tom carinhoso, como um bate-papo.
    Adota um tom de bate papo, mas ao mesmo tempo é uma entrevista bem rica.
    Gostei muito e tenho certeza que o Marcelo também deve ter gostado bastante.
    Excelente

  3. Tão interessante e também envolvente, que só no final é que percebi que é longo o texto.

Deixe um comentário para Francisco França Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *